
Do lixão à escola: a história da catadora que virou palestrante
Uma caixa de leite, uma lata de refrigerante, um frasco de desodorante, um emaranhado de fios velhos. Lixo nas mãos de uns, mas nas de Maria Aparecida do Nascimento, de 54 anos, a Cidinha, material de trabalho e fonte de renda para ela e colegas catadores.
Antigamente, não tinha esse negócio de criança não trabalhar. As crianças trabalhavam. Até hoje, nunca parei
Nascida em Jaciara, mas várzea-grandense de alma, coração e criação, Cidinha passou de coletora de lixo a uma referência em educação ambiental na área de resíduos. Ela foi, em 2016, uma das fundadoras e a primeira presidente da Asmats (Associação de Catadores de Material Reciclável e Reutilizável Mato Grosso Sustentável).
Atualmente, Cidinha divide sua rotina entre coletas, triagem do material e o trabalho de educadora. “Gosto de ir às coletas, dessa vida de andar no caminhão de lixo. Gosto mais de ficar triando o material, que é a separação. Em um momento estou no caminhão, em outro na separação, em outro na educação ambiental”, afirmou.
Cidinha é da Ciea (Comissão Interinstitucional de Educação Ambiental) e membro do Ciec (Centro Integrado Escola-Comunidade), que é coordenado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Secretaria de Estado de Educação.
“Dou palestras, explico para as pessoas o que é reciclável e o que não é, quantos tipos de plástico existem, como ele é bom para o nosso uso, foi criado para nos ajudar, mas hoje é um grande transtorno para o planeta. Não sabendo fazer uma destinação ambientalmente adequada”, afirmou.
Foi para mostrar à cidade que a associação existia que Cidinha começou a participar de eventos e a fazer palestras. “Agradeço imensamente a professores e pessoas que me ajudaram a me tornar uma palestrante. Uma delas é o Elias Neto, orador, professor e apresentador de televisão, que me ajudou bastante e me ajuda até hoje”, disse.
Victor Ostetti/MidiaNews
Cidinha em frente à Asmats (Associação de Catadores de Material Reciclável e Reutilizável Mato Grosso Sustentável)
Trabalho minucioso
A associação está localizada na região conhecida como Zero km, próxima ao Bar do Padre, no Bairro Potiguar. Todo o trabalho feito pelos catadores é manual e minucioso. Quando a reportagem chegou ao galpão da associação, Cidinha e Claudinei Calixta Alves, outro coletor, desmontavam um sacolão de luminárias. Uma peça para cá, outra peça para lá.
Um dos desafio enfrentados é o preço do material. Enquanto um kg de papelão custa R$ 0,15, um kg de alumínio custa R$ 7 e um kg de cobre, R$ 36. Cidinha conta que chegou a vender oito sacos cheios de caixinhas de leite, suco e outros por apenas R$ 12.
O lucro de todo o trabalho é rateado entre os coletores, mas a associação, que até hoje não conseguiu adquirir uma prensa, acaba tendo que vender mais barato seu material por conta disso. Material que não é prensado, vale menos, ela explica.
Mulher que inspira
Cidinha começou a trabalhar para ajudar a família quando ainda tinha 11 anos. Após a separação dos pais, precisou largar os estudos aos 15, assim que concluiu o ensino fundamental. “Antigamente, não tinha esse negócio de criança não trabalhar. As crianças trabalhavam. A partir desse momento, até hoje, nunca parei de trabalhar”, disse.
“Hoje em dia, o Governo paga para as crianças estudarem. Na época, se você estudava em uma escola pública, tinha que comprar o seu material, seu uniforme e os livros. Aquele custo para mim não dava”.
Motivada pela ânsia de compreender as coisas do mundo e de discernir o que é bom do ruim, Cidinha voltou para a sala de aula já na casa dos 40. “Voltei a estudar para ajudar meu povo, que era a minha família que catava comigo no lixão”.
A educadora se formou no ensino médio, prestou o Enem e chegou a passar no curso de Serviço Social, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em 2016, mas precisou interromper os estudos para pagar as contas. Mesmo assim, ela seguiu estudando.
Victor Ostetti/MidiaNews
“Fiz um curso que me alavancou, que tenho como um doutorado – o ‘Programa Germinar'”, disse. Essa é uma iniciativa de educação ambiental que capacita catadores e promove a reciclagem como ferramenta de sustentabilidade e inclusão social. Para bancar o curso, Cidinha juntou a renda dos recicláveis, vendeu comida e até roupas usadas.
Casada há 30 anos, mãe de duas mulheres que hoje trabalham com ela na associação – uma como coordenadora e outra na equipe de educação ambiental -, Cidinha se emociona ao ser questionada se se vê como uma inspiração para outras mulheres.
“Fico emocionada, vou ser homenageada com o Projeto Mulheres de (Re)Existência. Não pela Cidinha catadora e, sim, pela Cidinha resistência, mulher. Li uma frase que ficou na minha cabeça: ‘Eu vou lutar sempre. Vencer, eu não sei. Talvez. Mas eu nunca vou desistir’. E eu nunca desisto daquilo que quero e preciso”, disse.
Percalços no caminho
Desde que Cidinha começou a trabalhar com reciclagem, muita coisa mudou, como, por exemplo, o fechamento do lixão de Várzea Grande há três anos, por determinação da Justiça Estadual. A decisão atendeu um pedido do Ministério Público Estadual (MPE).
“Em certos aspectos melhorou e, em outros, piorou. Melhorou, porque hoje a gente trabalha nesse barracão, não é um lugar insalubre. No lixão é insalubre, mas você tem material. E, trabalhando num local bacana como esse, não tem material, porque a população não sabe onde você está”, disse.
“Um dos principais desafios é levar a educação ambiental porta a porta, porque o catador está fazendo um trabalho de educação ambiental e não recebe por isso. Outro desafio é convencer a população a separar seu lixo. Esse é o maior desafio”, afirmou.
Cidinha disse, ainda, que, muitas vezes, não recebe nada para ministrar suas palestras. “Teve um projeto que convidaram a mim e à minha equipe de educação ambiental da Asmats. Fomos a 23 escolas municipais, nos dois períodos. Nossa língua ficava mais seca do que língua de papagaio, não recebíamos por isso, porque não somos servidores. É muito triste”.
Mesmo trabalhando honestamente, outro desafio enfrentado pelos trabalhadores é o preconceito da população.
“As pessoas te olham com um olhar de desprezo. O nosso uniforme, por mais bonitinho que seja, acaba se sujando. A gente precisa sobreviver desse material reciclável. Ele pode não saber ler, mas conhece o que é reciclável e o que não é. Ele tem esse conhecimento da vida. Então, o verdadeiro educador ambiental na área de recicláveis é o catador”.
Para além dos desafios já enfrentados no dia a dia da profissão, Cidinha disse ter tido que enfrentar episódios de corrupção, como quando foi impedida de trabalhar no lixão de Várzea Grande, no início da primeira década dos anos 2000, após denunciar o esquema de propina.
“Naquela época, não existia nem bag. Você catava e colocava num lugar lá. Eu tinha que mostrar para o servidor da Prefeitura, que cuidava do lixão na época, quanto custou o meu material e tinha que repartir com ele, meio a meio”, disse.
Estava limpinha, mas as pessoas tinham preconceito, porque eu trabalhava no lixão. Me olhavam com um olhar, assim, de nojo
“[Após a denúncia], quando cheguei para trabalhar, o servidor falou que ou eu ia embora ou a minha família ia embora. Eu decidi ir. Doeu muito ver todo mundo lá, mas saí de cabeça erguida. Alguns anos se passaram, mas eu sempre voltava lá, só que não tinha o direito de trabalhar. Hoje em dia, ele só não é mais servidor porque se aposentou”.
O que falta
Ao longo da sua trajetória, Cidinha venceu muitas batalhas e, para ela, a conquista que falta é conseguir uma sede para a associação. A Asmats já tem o terreno, mas precisa levantar o barracão.
“Falta conquistar a nossa sede. Não queremos ficar a vida inteira dependendo de aluguel do município. Nessa troca de gestão, o antigo gestor [Kalil Baracat] não repassou o valor do aluguel. Chegamos ao ponto de o dono querer nos despejar, porque R$ 10 mil para pagar um aluguel desses, vendendo papelão a 15 centavos o quilo, não é fácil”.
Cidinha explica que as políticas públicas deveriam partir da Câmara dos Vereadores: “Um projeto que incentive a coleta seletiva nos municípios e a educação ambiental, com a participação dos catadores”, afirmou.
Desde 2015, os catadores podem ter dentro das associações uma sala de aula, que vai da alfabetização até o ensino médio, mas, segundo Cidinha, muitos presidentes de associação não têm interesse em implementar a medida. “Querem que o catador continue ali, com os olhos tampados, analfabeto”.
A educadora defende que a sala seja dentro do local de trabalho: “Eu sofri isso. Estava limpinha, mas as pessoas tinham preconceito, porque eu trabalhava no lixão. Me olhavam com um olhar, assim, de nojo. Então, o catador, dentro do empreendimento, vai ter essa autonomia. Eu não tive preconceito de professor e, sim, de aluno dentro das escolas da EJA”.
Veja o documentário do MidiaNews: