Discord, redes sociais e jogos: delegadas alertam para riscos que ameaçam crianças na internet
Com cerca de 6 bilhões de pessoas conectadas à internet diariamente, o ambiente digital tornou-se parte do cotidiano de crianças e adolescentes. Contudo, o caso do homem de 19 anos preso nesta quarta-feira, 9, em Anápolis, por manter a adolescente Ana Clara Alves Silva, de 13 anos, trancada em um imóvel abandonado, após articular a fuga da jovem, mostra que a rede não é um lugar seguro para os menores de idade. Ele deve responder pelos crimes de estupro de vulnerável e cárcere privado. Diante disso, o que os pais devem fazer para proteger seus filhos dos perigos virtuais?
Antes de qualquer orientação prática, é necessário entender a dimensão do problema. No Brasil, em apenas um ano, uma a cada cinco crianças e adolescentes de 12 a 17 anos (19%) foi vítima de exploração e/ou abuso sexual facilitados pela tecnologia. Isso representa cerca de 3 milhões de meninas e meninos vítimas de violência sexual online. O dado integra o relatório Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia, lançado em março deste ano pelo UNICEF Innocenti em parceria com a ECPAT International e a INTERPOL, com financiamento da Safe Online.
Abuso e exploração sexual “facilitados” pela tecnologia são situações em que tecnologias digitais são usadas em algum momento durante o abuso ou exploração sexual de uma criança ou adolescente, seja para aliciar, extorquir, produzir, armazenar ou disseminar material de abuso. Podem ocorrer totalmente no ambiente virtual, combinar interações online e presenciais ou acontecer de forma física, com a tecnologia sendo usada para registrar e compartilhar as imagens. Em 66% dos relatos coletados pela pesquisa, a violência ocorreu por canais online, como redes sociais ou aplicativos de mensagens instantâneas (64%) e jogos online (12%). Entre as crianças e adolescentes abordados nesses espaços, Instagram (59%) e WhatsApp (51%) aparecem com destaque como os aplicativos mais utilizados pelos agressores.
Além disso, a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 revela que, em 2025, 8% dos usuários de Internet de 9 a 17 anos relataram ter tido contato com imagens ou vídeos de conteúdo sexual online. Entre os usuários de 11 a 17 anos, 20% receberam alguma mensagem ou solicitação com conteúdo sexual. Desses, 11% afirmaram que já receberam mensagens de natureza sexual; 11% já viram mensagens de conteúdo sexual postadas para outras pessoas verem; 4% receberam solicitações de fotos ou vídeos em que apareciam nus; e 2% solicitações para que falassem sobre sexo.
No Brasil, existem condenações específicas para crimes digitais, mas eles também podem ser enquadrados em categorias tradicionais do Código Penal, dependendo de como o crime foi cometido. É neles que entram os crimes contra crianças e adolescentes no mundo virtual, que podem se enquadrar em estupro de vulnerável quando a vítima é menor de idade. Na internet, não existe um tipo penal específico para os crimes virtuais; por isso, os dados usados aqui são de pesquisas mais abrangentes e não dos crimes contra os jovens no mundo virtual em si.
O que fazer?
Diante desse panorama, a delegada da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) de Anápolis, Aline Lopes, orienta que os pais adiem ao máximo a entrega de um celular aos filhos. Caso decidam entregar, ela recomenda que saibam mexer no aparelho, conheçam os aplicativos que o filho deseja baixar e pesquisem sobre eles antes de autorizar.

Aline destaca ainda que o Discord não é um aplicativo adequado para crianças e adolescentes. Criado originalmente para gamers, hoje ele é utilizado para outras finalidades, segundo ela, e não deveria ser acessado por adolescentes sem supervisão. A delegada alerta que, se a menina, vítima deste caso, mantinha conversas privadas e trancava as conversas, nem se o pai mexesse no celular ele iria achar. “Os pais têm que ter a senha do celular dos filhos, eles têm que ter a senha dos aplicativos deles. Não indico criança ou adolescente ter rede social, porque isso abre um portal, você está expondo o seu filho para todo tipo de criminoso”, afirma Aline Lopes.
A delegada ressalta que, até para a polícia trabalhar e ajudar nesse caso, foi difícil. A família não tinha às senhas e não sabia que a menina tinha Discord. “Foi um caso que teve um final feliz, mas, infelizmente, tem muitos que não são um final feliz”, lamenta. Ela acrescenta que, cada vez mais, crimes sexuais na internet vitimam adolescentes, praticados também por adolescentes.
Nesse sentido, Aline Lopes chama a atenção para um fenômeno crescente: a dessensibilização. Segundo ela, os pais muitas vezes se preocupam apenas em evitar que o filho seja vítima, mas os adolescentes estão se tornando autores. Expostos constantemente a conteúdo violento e pornográfico, eles perdem a noção de que aquilo é errado e se tornam cada vez mais apáticos. Para a delegada, praticar crimes passa a ser um pulo. Por isso, tudo começa dentro de casa. “Eu acho que, para essa família, foi um trauma muito grande, mas que sirva de alerta para todos nós, para que nós estejamos mais atentos, mais vigilantes, que a gente também reforce os laços com os nossos filhos. Porque é muito triste você descobrir o seu filho numa situação dessa e descobrir que você não fazia ideia do que ele estava passando”, afirma.
Na mesma direção, a delegada Marcella Cordeiro Orçai, titular da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Cibernéticos de Goiás (Dercc), afirma que o Discord está entre as plataformas que mais exigem atenção das autoridades devido ao alto volume de usuários e à possibilidade de criação de salas de conversa com grande quantidade de participantes. “O Discord trabalha com salas, salas que aceitam muitas pessoas, mas é uma plataforma que colabora com a polícia, colabora com a Justiça”, afirmou Marcella.
Segundo ela, atualmente o retorno obtido pela polícia quando são solicitados dados à plataforma é considerado satisfatório. O principal problema, porém, está no monitoramento preventivo do conteúdo que circula nesses ambientes virtuais. Para Marcella, as plataformas possuem mecanismos tecnológicos que poderiam permitir uma atuação mais rápida diante de situações de risco, algo que a polícia não teria condições de fazer sozinha. “Nós temos um retorno do Discord satisfatório com relação aos dados que precisamos. Mas, com relação à checagem, ao monitoramento das redes, já complica, porque nós, policiais, tomamos conhecimento do fato depois que ele acontece”, explicou.
Ela destaca que a diferença está justamente na capacidade das próprias plataformas de acompanhar o conteúdo em tempo real. “A plataforma, o provedor, ele tem esse controle ali. Ele tem como colocar nessa plataforma mecanismos para que uma live seja reunida, que são coisas que não caberiam ali à polícia. A polícia não teria condições de realizar uma ação como essa”, disse. Para Marcella, esse monitoramento online ainda é um dos principais pontos que precisam avançar entre as empresas de tecnologia. “Isso a gente sente falta um pouco nas plataformas, esse monitoramento que tem que ser online”, afirmou.

A delegada ressalta, entretanto, que houve uma mudança importante nos últimos anos. Segundo ela, diversas plataformas que anteriormente não respondiam às solicitações das autoridades passaram a colaborar com as investigações, em parte após a atuação de órgãos do governo brasileiro. “Há dois, três anos atrás, nem colaboravam”, afirmou. Ela citou ainda a atuação do Ministério da Justiça e de estruturas instaladas em Brasília para aproximar as autoridades brasileiras das empresas de tecnologia.
De acordo com Marcella, a pressão também está relacionada ao tamanho do mercado brasileiro. “O Brasil é um cliente muito grande, então, sob risco de não ter a plataforma rodando aqui, e o país sendo um dos maiores consumidores, essas plataformas deram o seu jeito”, afirmou.
A delegada também comparou a situação do Discord com a do aplicativo Telegram. Segundo ela, enquanto o Discord atualmente apresenta uma resposta considerada satisfatória às demandas policiais, o Telegram ainda oferece dificuldades maiores para as investigações. “O Telegram é um problema porque a colaboração ainda é muito longa, não é uma colaboração grande com a polícia, isso dificulta muito a investigação”, afirmou.
Segundo Marcella, a dificuldade não impede as investigações, mas pode obrigar os policiais a buscar outros caminhos para chegar às informações, tornando o trabalho mais demorado, especialmente em casos que exigem resposta rápida.
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