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POLICIAL

A autoridade e os galos de briga: causo das antigas, passado nos sertões do nosso Goiás

Naqueles tempos em que se amarrava cachorro com linguiça, autoridade se media pelo tamanho do bigode e notícia boa corria mais depressa que cavalo desembestado, havia, nos arredores de Santa Rita do Bugre, um sujeito conhecido por Zé Firmino das Mercês, homem de pouca leitura, muita conversa e uma esperteza que, se fosse vendida na feira, dava para comprar mais da metade do município.

Zé Firmino tinha três paixões na vida: uma pinga de alambique bem curtida, um jogo de truco com os amigos e uma boa briga de galos. Quanto à primeira, sua mulher, dona Quitéria, tolerava com resmungos; quanto à segunda, suportava desde que o dinheiro da feira não entrasse na aposta; mas, quanto à terceira, vivia dizendo que ainda haveria de ver o marido atrás das grades, por causa daqueles bichos emplumados que não lhe davam um tostão de lucro e ainda comiam o milho das galinhas poedeiras.

— Ocê ainda vai me fazê passá vergonha, Firmino! — advertia ela, de mãos na cintura. — Já num basta vivê nesse aperreio, agora deu pra contrariá a lei?

— Que lei, muié? Lei é coisa que os home inventa quando num tem mais o que fazê. Desde que o mundo é mundo, galo briga, cachorro late e político promete. Num há delegado que dê jeito nisso!

— Pois então espere pra vê se delegado num dá jeito é no seu lombo!

Firmino ria, ajeitava o chapéu de palha e saía assobiando, certo de que a mulher entendia de cozinha, de criação e até de assombração, mas não alcançava as sutilezas da vida pública.

Acontece que, naqueles tempos, o presidente Jânio Quadros, que parecia disposto a botar ordem até nos costumes mais antigos da República, resolvera meter-se também com os galos de briga. Por força de decreto presidencial, ficaram proibidas as rinhas em todo o território nacional, para espanto dos galistas e satisfação de quem já andava cansado de ver os bichos se estraçalhando por divertimento alheio. Com as brigas de galos proibidas, a polícia, quando não tinha serviço mais urgente, resolvia demonstrar zelo pela lei fazendo batidas nas rinhas escondidas pelas fazendas da região. Era uma perseguição curiosa: os galistas mudavam de lugar, os soldados corriam atrás, e os galos, que não tinham sido consultados sobre o assunto, continuavam a ser tratados como se fossem os principais interessados naquela desordem.

Havia quem dissesse que o presidente, depois de querer endireitar o país inteiro com a vassourinha, agora pretendia ensinar até galo a viver em paz. Outros, mais desconfiados, juravam que aquilo era invenção de algum ministro que nunca havia posto os pés num terreiro de fazenda. O certo é que a ordem chegou às delegacias, e os homens da lei, que já tinham trabalho de sobra com ladrão de cavalo, briga de bêbado e desavença por divisa de pasto, viram-se na obrigação de perseguir também os galos e seus donos.

Zé Firmino, sentindo-se diretamente atingido por aquele despautério, não parava de se queixar:

— Uai, sô! Esse presidente é mesmo um sujeito danado! Num deu conta de acabá com as briga dos político lá em Brasília e agora qué acabá com as dos galo aqui na roça!

Fato é que ceerto domingo, depois da missa das nove, espalhou-se a notícia de que haveria uma grande peleja no sítio do compadre Apolônio, homem respeitado, proprietário de umas poucas cabeças de gado e de uma quantidade considerável de dívidas que jamais lhe perturbavam o sono.

O encontro estava marcado para as três da tarde, no fundo de um paiol, atrás de uma moita de bambu. Compareceriam galistas das corrutelas da redondeza e até um sujeito de Meia-Ponte, que se gabava de possuir um galo tão valente que certa vez fizera um peru fugir de dentro do próprio terreiro.

Zé Firmino levou seu campeão, um carijó de peito largo, crista encarnada e olhar de quem desconfiava até da própria sombra. Chamava-se Marechal Deodoro, nome escolhido não por qualquer convicção republicana, mas porque o bicho tinha o costume de acordar a vizinhança antes mesmo de o sol pensar em nascer.

Seu adversário seria o temido Satanás, um galo preto, luzidio e mal-encarado, pertencente ao coronel Tibúrcio de Almeida, fazendeiro que nunca perdia uma aposta sem antes acusar o adversário de alguma trapaça.

Às três e meia, o paiol estava cheio. Havia homens sentados em caixotes, outros agachados junto à cerca, e um grupo de curiosos que, não dispondo de dinheiro para apostar, se contentava em dar palpites com a segurança de quem não arriscava nada.

— Esse carijó num aguenta dois repuxo! — sentenciou o coronel Tibúrcio, alisando o bigode.

— Pois aposte, coroné! — respondeu Firmino. — Marechal Deodoro num é galo de fugí de conversa. Esse seu Satanás é que tá com uma cara de quem já encomendou o próprio enterro!

As apostas cresceram, a cachaça circulou e os ânimos se aqueceram. O compadre Apolônio, responsável pela organização, preparava-se para anunciar o começo da disputa quando apareceu, esbaforido, o menino Tonico, que estava de sentinela junto à estrada.

— Siô Apolônio! Siô Apolônio! A polícia envem vindo!

O silêncio foi tão repentino que se ouviu, do outro lado do terreiro, uma galinha botando ovo.

— Polícia? — perguntou o coronel Tibúrcio, empalidecendo. — Quantos home?

— Uns quatro, mais o delegado! Tão vindo de jipe, levantando poeira que só!

A confusão começou imediatamente. Um sujeito tentou esconder o dinheiro dentro da botina, mas, como a botina já estava ocupada com o pé, derramou metade das notas pelo chão. Outro correu para o mato, esquecendo que tinha deixado o chapéu pendurado na cerca. O coronel Tibúrcio, homem de reputação ilibada quando observado de longe, enfiou Satanás dentro de um saco de estopa, provocando tamanha indignação no bicho que parecia haver ali uma máquina de debulhar milho.

O compadre Apolônio gritava:

— Esconde os galo! Esconde os galo!

— Onde, criatura de Deus? — perguntou um dos presentes.

— Sei lá, uai! Se eu soubesse, num tava perguntando!

Zé Firmino, entretanto, não correu. Ficou parado, olhando o tumulto, até que uma ideia lhe atravessou a cabeça com a rapidez de um raio em tempo de chuva.

— Apolônio, ocê tem uma Bíblia aí?

— Tenho, uai! Pra quê?

— E uma toalha branca?

— Também tenho!

— Então arrume depressa, que hoje nós vamo salvá a alma dessa gente toda!

Em menos de dois minutos, Firmino transformou o paiol numa espécie de templo improvisado. Puseram uma mesa coberta com a toalha branca, uma Bíblia aberta no meio e os galos dentro de dois grandes jacás, escondidos atrás de um pano. Os apostadores, antes tão animados, agora se acomodavam em bancos e caixotes com a compostura de fiéis arrependidos.

Quando o delegado Aparício de Faria entrou, acompanhado de três soldados e do cabo Gumercindo, encontrou uma cena inesperada: uns vinte homens de cabeça baixa, enquanto Zé Firmino, de Bíblia na mão, pregava com entusiasmo.

— Irmãos! — bradava ele. — A tentação do jogo é obra do maligno! O pecado ronda os coração dos home feito raposa em galinheiro!

O delegado parou na porta, desconfiado.

— Mas que diabo de ajuntamento é esse?

Firmino ergueu os olhos para o céu.

— Louvado seja Deus! Irmãos, a Providência acaba de mandá as autoridade pra testemunhá nossa conversão!

O cabo Gumercindo, que tinha mais força no braço que entendimento na cabeça, aproximou-se do delegado.

— Doutor Aparício, parece que é um culto.

— Culto coisíssima nenhuma! Recebi denúncia de que aqui tinha uma rinha!

Firmino fechou a Bíblia com solenidade.

— E tinha mesmo, seu delegado!

O delegado abriu um sorriso de satisfação.

— Ahá! Então confessa!

— Confesso, sim sinhô! Tinha uma rinha danada, uma peleja dos inferno, mas era uma briga entre o bem e o mal, travada no coração desses pobre pecadô! Graças a Deus, o bem venceu!

Um dos apostadores, que havia perdido uma quantia considerável antes mesmo de começar a disputa, não resistiu:

— Amém!

O delegado olhou ao redor, examinando os rostos suados, os chapéus amassados e a expressão piedosa de homens que, até cinco minutos antes, estavam dispostos a apostar o próprio almoço.

— E por que tem tanta pena de galo espalhada pelo chão?

Firmino nem pestanejou.

— É que nós tava tratando de um assunto muito sério, doutor. A negação de Pedro!

— Que Pedro?

— O apóstolo, seu delegado! Aquele que negou Nosso Sinhô três vez antes de o galo cantá. Nós tava fazendo uma representação bíblica, pra ensiná o povo a num mentí!

O delegado coçou a cabeça.

— E precisava de dois galos pra isso?

— Precisava, sim sinhô! Um pra cantá e outro pra testemunhá. Afinal, num é prudente confiá numa testemunha só!

O cabo Gumercindo achou a explicação tão convincente que fez o sinal da cruz.

Mas o delegado Aparício não era homem que se deixasse enganar facilmente, embora houvesse opiniões divergentes sobre essa qualidade. Aproximou-se dos jacás, de onde vinha um rumor abafado, e perguntou:

— E que tem aí dentro?

— Dois irmão em penitência — respondeu Firmino.

— Irmão?

— Irmão na fé, seu delegado. São dois galo que vivia em pecado, brigando por qualquer coisa. Nós tamo trabalhando na reconciliação deles.

Foi nesse momento que Satanás, cansado de esperar, soltou um cocoricó tão estridente que o cabo Gumercindo deu um pulo e derrubou a própria espingarda.

— Valei-me minha Nossa Senhora! — gritou o cabo. — Tem galo aí mesmo!

— Claro que tem, Gumercindo! — respondeu o delegado, irritado. — Ocê queria que tivesse o quê? Um bispo?

O delegado ordenou que abrissem os jacás.

O coronel Tibúrcio, que até então permanecera imóvel, levantou-se de súbito.

— Seu delegado, eu protesto! Esses animais são propriedade particular!

— E desde quando propriedade particular impede fiscalização?

— Desde que o senhor queira entrá numa discussão de direito com meu advogado!

— E quem é seu advogado?

— Ainda num sei, mas hei de arrumá um!

Aparício perdeu a paciência.

— Abram esses jacás agora!

Firmino, porém, conservava a tranquilidade de um homem que já havia pensado três movimentos adiante.

— Pois num carece de nervoso, seu delegado. Pode abrí. Só peço que os sordado se afaste um tiquinho, porque esses bicho tão muito ressabiado.

O cabo Gumercindo, desejoso de demonstrar valentia, adiantou-se.

— Deixa comigo, doutor! Galo nenhum me mete medo!

Levantou a tampa do primeiro jacá.

General Deodoro, que havia passado os últimos minutos contrariado com a falta de ar e de explicações, saltou como uma mola, bateu as asas e foi pousar justamente na cabeça do cabo. Gumercindo soltou um berro, perdeu o equilíbrio e caiu sentado dentro de um cocho de farelo.

Ao mesmo tempo, o soldado Benedito abriu o segundo jacá. Satanás, que tinha péssimo temperamento e nenhuma consideração pela hierarquia policial, escapou numa carreira e investiu contra a perna do delegado Aparício.

O delegado tentou se esquivar, tropeçou na mesa da pregação e derrubou a Bíblia, a toalha e uma garrafa de cachaça que algum devoto havia escondido sob o improvisado altar.

— Prendam esses bichos! — gritava Aparício.

— Qual deles, doutor? — perguntou Gumercindo, ainda sentado no farelo.

— Os dois, seu animal!

— Os galo ou os dono?

— Os galo primeiro! Os dono depois!

Foi então que a situação se tornou verdadeiramente memorável.

Marechal Deodoro, assustado com o movimento, disparou pelo terreiro, seguido de dois soldados. Satanás tomou a direção contrária e meteu-se por baixo do jipe policial. O motorista, tentando apanhá-lo, esbarrou na buzina, que começou a tocar sem descanso. Uma mula amarrada à cerca, interpretando aquilo como sinal do fim do mundo, arrebentou a corda e saiu em disparada, levando consigo metade do varal de dona Escolástica.

O delegado, coberto de poeira e com a calça rasgada no joelho, perseguia Satanás aos gritos.

— Segura esse desgraçado!

O coronel Tibúrcio, ofendido, respondeu:

— Desgraçado não, seu delegado! Esse galo tem pedigree!

— Pois prenda o pedigree também!

A perseguição terminou quando o cabo Gumercindo, numa tentativa heroica de capturar Marechal Deodoro, atirou-se sobre o animal e abraçou, em lugar dele, um porco que dormia tranquilamente à sombra do paiol.

O porco, pouco afeito a demonstrações de carinho por parte da força pública, reagiu com indignação. Gumercindo saiu correndo pelo terreiro, perseguido pelo suíno, enquanto os presentes, esquecidos da gravidade da situação, desabavam numa gargalhada que se ouvia do outro lado do córrego.

Foi nessa hora que Zé Firmino resolveu dar o golpe de mestre.

Aproximou-se do delegado, que tentava recuperar a dignidade limpando o chapéu, e falou em tom confidencial:

— Doutor Aparício, o sinhô me desculpe a ousadia, mas acho que nós tamo diante dum caso muito mais sério que uma simples briga de galo.

— Mais sério como, homem?

— Ora, o sinhô mesmo viu! Esses dois bicho atacaram a autoridade, desacataram os soldado, perturbaram um culto religioso e ainda provocaram dano ao patrimônio público!

O delegado ficou pensativo.

— É verdade…

— E tem mais! — prosseguiu Firmino. — Se o sinhô levá nós tudo preso, vai tê que explicá na cidade que a polícia foi vencida por dois galo e um porco. Agora, se registrá que a força pública acabou com uma reunião clandestina e restabeleceu a ordem, sai daqui coberto de glória!

Aparício alisou o bigode.

A ideia lhe pareceu excelente.

— E os galos?

— Ficam apreendido, naturalmente.

— E quem vai guardá?

Firmino suspirou, como quem aceita um sacrifício em nome da pátria.

— Bom, se num tivé outro jeito, eu posso ficá como fiel depositário desses animal. O sinhô sabe que eu sou homem de responsabilidade.

O delegado hesitou.

— E ocê garante que não vai haver mais briga?

— Garanto, seu delegado, pela alma de minha mãe! Enquanto esses dois galo tivé sob minha guarda, num haverá mais rinha nenhuma nesta propriedade!

Aparício, que já estava cansado, suado e desejoso de ir embora, considerou suficiente a promessa. Mandou recolher os soldados, anotou os nomes dos presentes num caderno e anunciou, com a solenidade possível a um homem que havia perdido um botão da farda:

— A polícia cumpriu seu dever! A reunião está dissolvida, os animais estão apreendidos e a ordem pública foi restabelecida!

O cabo Gumercindo, ainda limpando farelo das orelhas, perguntou baixinho:

— Doutor, e o porco?

— Que porco, criatura?

— O que me atacou!

— Deixe esse porco em paz, antes que ele resolva prestar queixa contra ocê!

O jipe partiu levantando uma nuvem de poeira, com o cabo Gumercindo sentado na carroceria, desconfiado de que o porco ainda pudesse alcançá-lo.

Durante alguns minutos, ninguém falou. Todos esperaram até que o barulho do motor desaparecesse na curva da estrada.

Então o coronel Tibúrcio se aproximou de Firmino.

— Mas, ô Zé, ocê prometeu pro delegado que num ia havê mais briga de galo nesta propriedade!

— Prometi, coroné. E sou homem de palavra.

— Então acabou a peleja?

Firmino tirou o chapéu, coçou a cabeça e apontou para além da cerca.

— Acabou aqui, uai! Mas o compadre Anacleto tem outro terreno do lado de lá do córrego. E propriedade, que eu saiba, num atravessa água sem escritura!

A gargalhada foi geral.

O coronel, entretanto, ainda tinha uma dúvida.

— E os galo? Num tão apreendido?

— Tão, sim sinhô. Sob minha guarda, conforme determinou a autoridade.

— E como é que vão brigá?

Firmino abriu um sorriso largo.

— Coroné, o delegado me nomeou depositário, num me nomeou carcereiro! E eu, como depositário, tenho obrigação de conservá os bicho em boa saúde. Ora, galo de raça, se ficá parado demais, adoece. Carece de exercício!

O compadre Apolônio quase caiu de tanto rir.

— Ocê é o próprio capeta, Firmino!

— Num diga isso, compadre, que hoje eu preguei o Evangelho!

Naquela tarde, a disputa acabou não acontecendo. Marechal Deodoro e Satanás, cansados da perseguição e das emoções, foram recolhidos a poleiros separados, onde passaram a noite sem qualquer disposição para resolver suas diferenças. Os apostadores, por sua vez, decidiram que já haviam tido diversão suficiente para um domingo.

Na segunda-feira, porém, a história corria pela cidade inteira, cada vez mais aumentada. Na venda do Siô Miro, dizia-se que o delegado havia sido derrubado por três galos; na barbearia do Neco, juravam que o cabo Gumercindo fora perseguido por uma vara inteira de porcos; e, na porta da igreja, alguém assegurava que Zé Firmino havia convertido vinte pecadores e dois galos numa única pregação.

Quando o delegado Aparício soube dos comentários, mandou chamar Firmino à delegacia.

— Escute aqui, seu espertalhão! Tão dizendo por aí que ocê fez a polícia de besta!

Firmino arregalou os olhos, ofendido.

— Eu, doutor? Deus me livre! Eu só fiz foi ajudá a autoridade!

— Ajudar como?

— Uai, o sinhô chegou procurando uma briga de galo e saiu com uma ocorrência de culto religioso, desacato de animal e agressão de porco. Isso num é serviço completo?

O delegado ficou vermelho.

— Ocê tá debochando de mim, Firmino?

— De jeito nenhum, doutor! Eu tenho o maior respeito pela polícia. Tanto que, depois daquela batida, nunca mais deixei ninguém fazê rinha lá no sítio do Anacleto.

— Bom mesmo!

— Agora, quanto aos galo, eu queria consultá o sinhô sobre uma questão de direito…

— Que questão?

— Se um galo, estando apreendido, escapá do poleiro e for arrumá confusão com outro, quem responde pelo delito? O depositário ou o próprio galo?

Aparício bateu com a mão na mesa.

— Fora daqui, Zé Firmino, antes que eu perca a paciência!

Firmino levantou-se, colocou o chapéu e caminhou para a porta. Já estava saindo quando se voltou, com expressão respeitosa:

— Só mais uma coisinha, doutor…

— O QUÊ???

— Se o cabo Gumercindo aparecê por lá, avise que o porco tá solto. E parece que guardou rancor!

Dizem que o delegado atirou um tinteiro na direção da porta, mas acertou apenas o retrato do governador, que caiu da parede com moldura e tudo.

Quanto a Zé Firmino, viveu ainda muitos anos, sempre cercado de amigos, dívidas pequenas e histórias grandes. Nunca se soube ao certo se General Deodoro venceu Satanás, porque cada proprietário contava uma versão diferente, conforme o tamanho da aposta que dizia ter feito.

Mas uma coisa ficou assentada na memória do povo: naquele domingo, os galos não venceram, os apostadores não perderam e a polícia não prendeu ninguém.

Quem ganhou foi Zé Firmino.

E, quando alguém lhe perguntava como conseguira enganar um delegado, três soldados e um cabo de polícia, ele respondia, com a pachorra dos sábios do sertão:

— Uai, meu fio, num enganei ninguém, não. O delegado queria acabá com a briga, e eu acabei. Os sordado queria prendê os galo, e eu guardei. O cabo queria pegá um bicho, e pegou o porco. Todo mundo saiu com o que queria!

Fazia então uma pausa, cuspia de lado, ajeitava o chapéu e arrematava:

— Nessas coisa, o segredo num é sê mais forte que a autoridade. É deixá a autoridade pensá que a ideia foi dela!

E ria, mostrando os poucos dentes que ainda lhe restavam, enquanto os amigos concordavam que, em Goiás, desde os tempos mais antigos, havia duas espécies de valentia: a dos que enfrentavam a força e a dos que sabiam sair de sua frente.

A segunda, quase sempre, dava menos trabalho. E muito mais história pra contar.

Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.

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Fonte: www.jornalopcao.com.br