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POLÍTICA

A derrota de Trump nas urnas expõe o desgaste do trumpismo e da direita mundial

A derrota do Partido Republicano nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira, 3, ultrapassa as fronteiras americanas. Ao perder o controle da Câmara e do Senado, o presidente Donald Trump sofreu um dos maiores reveses de seu segundo mandato e mostrou as dificuldades de um projeto político que, nos últimos anos, serviu de inspiração para movimentos conservadores e nacionalistas em diferentes partes do mundo.

O resultado não representa apenas uma mudança na correlação de forças em Washington. É também um sinal de que a associação entre populismo de direita, nacionalismo econômico, ataques às instituições e polarização política não garante apoio eleitoral permanente. A experiência americana começa a produzir consequências para lideranças estrangeiras que fizeram da aproximação com Trump uma espécie de ativo político.

Os democratas retomaram a maioria na Câmara, no Senado e venceram disputas em territórios historicamente republicanos. Também elegeram governadores em Estados como Geórgia, Ohio, Iowa e Texas, que estavam sob controle republicano. O resultado foi particularmente expressivo porque Trump participou diretamente da campanha e pediu aos eleitores que votassem como se seu próprio nome estivesse nas urnas.

A derrota tem explicações que vão além da polarização ideológica. O custo de vida, a inflação, a insatisfação com a condução da economia e os efeitos da guerra contra o Irã pesaram na avaliação dos americanos. Pesquisas realizadas durante a votação também apontaram preocupação com corrupção e concentração de poder. A promessa de Trump de melhorar a vida econômica da população perdeu força diante da percepção de que as dificuldades continuavam presentes no cotidiano das famílias.

O cenário americano encontra paralelos em outras eleições recentes. Em abril de 2026, Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria durante 16 anos e um dos principais símbolos internacionais da direita nacionalista, perdeu as eleições parlamentares. Sua derrota teve significado especial porque Orbán era considerado uma referência para movimentos conservadores e populistas que defendem o fortalecimento do nacionalismo, o endurecimento das políticas migratórias e o enfrentamento de instituições liberais.

A ligação com Trump era tão próxima que o vice-presidente americano, JD Vance, foi à Hungria durante a campanha para manifestar apoio a Orbán. Mesmo assim, o governante não conseguiu evitar a derrota. A insatisfação dos eleitores com a economia, denúncias de corrupção e restrições às liberdades democráticas estiveram entre os fatores apontados para o resultado.

Outro exemplo ocorreu no Canadá, em abril de 2025. O conservador Pierre Poilievre, que aparecia como favorito em pesquisas anteriores, acabou derrotado pelo liberal Mark Carney. Poilievre havia adotado um discurso nacionalista e uma estratégia de comunicação frequentemente comparada à de Trump. A eleição foi influenciada também pelas ameaças americanas de anexação do território canadense e pelas tarifas comerciais impostas por Washington, que estimularam uma reação nacionalista em defesa da soberania do país.

O episódio teve um componente simbólico importante: além de perder a eleição, Poilievre também perdeu sua própria cadeira no Parlamento. O resultado mostrou como a proximidade com Trump poderia se transformar em um problema eleitoral em um país diretamente atingido pelas decisões do presidente americano.

Na Austrália, o movimento foi semelhante. Em maio de 2025, o Partido Trabalhista de Anthony Albanese conquistou uma vitória expressiva contra a coalizão conservadora liderada por Peter Dutton, que havia apostado em uma campanha com elementos do discurso trumpista. Dutton chegou a perder seu próprio mandato parlamentar. A disputa foi atravessada pelas tarifas americanas, mas também por questões internas, especialmente saúde e custo de vida.

Além disso, é preciso citar o de Flávio Bolsonaro, que venceu o primeiro turno das eleições e sofreu uma derrota histórica na segunda parte do pleito. Após a derrota histórica, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro fugiu do país rumo aos Estados Unidos para evitar prisão em investigações de corrupção. Flávio também publicou uma carta com teor golpista na qual refere a si mesmo como presidente eleito do Brasil.

A sequência de derrotas ajuda a compreender o significado da eleição americana. Não é que todos os movimentos de direita estejam em declínio. Na Europa, partidos como o Reunião Nacional, na França, e a Alternativa para a Alemanha continuam exercendo forte influência. A direita populista permanece competitiva e, em alguns países, ampliou sua presença parlamentar. Pesquisa do Pew Research Center publicada em maio de 2026 mostra justamente que, apesar de derrotas pontuais, esses movimentos se consolidaram como forças importantes na política europeia.

O que parece estar em questão é a capacidade de transformar a retórica de confronto em resultados concretos. Governar exige mais do que identificar inimigos, mobilizar ressentimentos e apresentar soluções simplificadas para problemas complexos. Quando a promessa de prosperidade não se concretiza, o discurso ideológico perde parte de sua capacidade de compensar as dificuldades econômicas.

A derrota de Trump também provocou uma reação interessante entre lideranças da extrema direita europeia. Segundo a Reuters, políticos como Jordan Bardella, da França, e Alice Weidel, da Alemanha, passaram a estabelecer maior distância em relação ao presidente americano, atribuindo parte do resultado à guerra com o Irã e às consequências econômicas de sua política externa. O movimento é revelador: lideranças que antes faziam questão de demonstrar proximidade com Trump agora calculam o custo político dessa associação.

No Brasil, o resultado também merece atenção. O bolsonarismo construiu parte de sua identidade política a partir da aproximação com Trump e da reprodução de estratégias utilizadas pelo movimento MAGA, especialmente nas redes sociais, no discurso contra instituições e na retórica de confronto com adversários. A derrota republicana não determina o comportamento do eleitor brasileiro, mas altera o contexto internacional em que a direita brasileira procura construir sua narrativa.

A relação entre Jair Bolsonaro e Trump sempre foi apresentada por seus aliados como parte de uma conexão política e ideológica mais ampla. Agora, a perda de força eleitoral do presidente americano e a derrota de outros líderes que compartilharam essa agenda colocam em evidência os limites dessa associação. Uma referência internacional que antes servia para demonstrar força pode passar a representar um risco de imagem.

A derrota da direita não significa, no entanto, automaticamente a vitória de um projeto progressista. Em vários países, os eleitores votaram contra governos e candidatos por insatisfação econômica, cansaço político e desconfiança institucional. O resultado pode representar mais uma rejeição ao que está no poder do que uma adesão entusiasmada a uma alternativa ideológica.

É justamente por isso que as eleições de 2026 nos Estados Unidos têm um significado que ultrapassa o destino de Trump. O presidente continuará no cargo até o fim do mandato, mas terá de enfrentar um Congresso controlado pelos democratas, que poderão bloquear projetos, fiscalizar o governo e abrir investigações. A derrota também enfraquece a posição de Trump dentro do próprio Partido Republicano e abre espaço para disputas sobre quem deve conduzir o movimento nos próximos anos.

O trumpismo não acabou, assim como a direita nacionalista não desaparecerá do cenário internacional. Mas a sequência de derrotas de lideranças identificadas com esse campo demonstra que não existe hegemonia eleitoral permanente.

Durante anos, Trump foi tratado como símbolo de uma nova direita mundial, capaz de influenciar governos, campanhas e movimentos políticos em diferentes continentes. Agora, a derrota dele, somada as de Orbán, Poilievre, Dutton, Flávio e Simion, mostra que essa influência encontra limites.

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Fonte: www.jornalopcao.com.br