Ataques expõem violência contra mulheres dentro e fora de casa
Dois ataques ocorridos em circunstâncias completamente diferentes, um em plena rua de Cuiabá e outro dentro de um estabelecimento comercial em Nova Mutum (264 km ao Norte da Capital), mostram como a violência contra a mulher ultrapassa o ambiente doméstico e pode alcançar as vítimas mesmo em espaços públicos.
Em Cuiabá, uma mulher de 38 anos caminhava com o filho de apenas 5 anos quando foi abordada por um desconhecido. O homem a atacou por trás, passou o braço em torno de seu pescoço e tentou enforcá-la. A vítima conseguiu reagir e escapar.
O ataque ocorreu na noite de segunda-feira (17), no bairro Quilombo. A Polícia Civil investiga o caso como importunação sexual e analisa imagens de câmeras de segurança para tentar identificar o agressor, que ainda não havia sido localizado.
Além da violência física, a vítima relatou que o homem fez comentários de cunho sexual durante a abordagem. O filho presenciou a agressão.
Dois dias antes, outra mulher havia sido vítima de uma violência ainda mais grave, desta vez praticada por alguém com quem manteve relacionamento.
Em Nova Mutum, uma mulher de 32 anos foi atacada pelo ex-companheiro dentro de um mercado. Câmeras de segurança registraram quando o homem entrou no estabelecimento e partiu em direção à vítima, desferindo sucessivos golpes de faca.
Ela foi atingida 15 vezes.
O filho da vítima tentou intervir para proteger a mãe e também acabou ferido. A mulher foi socorrida em estado grave e levada para atendimento hospitalar.
Os episódios têm autores, motivações e contextos distintos. Não fazem parte de uma mesma sequência criminosa. Mas, observados no contexto mais amplo da violência de gênero em Mato Grosso, ajudam a dimensionar as diferentes situações de risco às quais mulheres estão expostas.
UMA TENTATIVA A CADA DIA E MEIO – Os números estaduais mostram que os casos mais graves estão longe de ser isolados.
Mato Grosso registrou 241 tentativas de feminicídio em 2025, crescimento de 38,7%. A média representa aproximadamente uma tentativa a cada 36 horas.
No mesmo ano, 53 mulheres foram vítimas de feminicídio, alta de 11% em relação ao período anterior. A taxa chegou a 2,7 mortes para cada grupo de 100 mil mulheres.
Além das mortes e tentativas, foram registrados 9.954 casos de lesão corporal contra mulheres, revelando uma camada muito maior de violência que não chega ao extremo do feminicídio.
Os registros incluem situações praticadas por companheiros e ex-companheiros, mas a violência de gênero não está limitada às relações afetivas. O ataque ocorrido no Quilombo, no qual vítima e agressor aparentemente não se conheciam, mostra outra face do problema.
UMA PRISÃO A CADA 100 MINUTOS – A intensidade das ocorrências também aparece nos resultados da Operação Mulher Segura.
Em 76 dias de atuação, as forças de segurança de Mato Grosso efetuaram 1.097 prisões relacionadas à violência contra a mulher. Foram 967 flagrantes e mais de 130 prisões preventivas.
Isso corresponde a uma média de 14,4 prisões por dia — praticamente uma a cada 100 minutos.
No mesmo período, dez mandados de busca e apreensão foram cumpridos, nove deles relacionados a armas, e quatro armas de fogo foram apreendidas.
O volume de pedidos de proteção acompanha a dimensão das ocorrências.
Até 10 de agosto deste ano, a Justiça já havia recebido 11.454 pedidos de medidas protetivas em Mato Grosso. São cerca de 52 solicitações por dia, ou uma a cada 28 minutos.
Em todo o ano passado, foram 18.273 pedidos.
A medida protetiva é um dos principais instrumentos legais para afastar agressores e estabelecer restrições de contato e aproximação. O volume de solicitações, porém, mostra quantas mulheres chegam ao sistema de Justiça depois de identificarem uma situação de ameaça ou violência.
VIOLÊNCIA EM DIFERENTES ESPAÇOS – Os ataques de Cuiabá e Nova Mutum também chamam atenção por terem ocorrido diante dos filhos das vítimas.
No primeiro, uma criança de 5 anos estava ao lado da mãe no momento em que ela foi agarrada pelo pescoço. No segundo, o filho tentou impedir que a mãe continuasse sendo esfaqueada e acabou também ferido.
Essa exposição amplia os efeitos da violência para além da vítima diretamente agredida.
Os dois casos também evidenciam que não existe um único cenário para a violência contra a mulher. Ela pode ocorrer dentro de uma relação afetiva, após o rompimento, no ambiente doméstico ou em locais públicos.
Em Nova Mutum, o ataque atribuído ao ex-companheiro ocorreu dentro de um estabelecimento comercial. Em Cuiabá, a vítima foi surpreendida por um desconhecido enquanto caminhava pela rua.
A diferença entre os episódios impede tratá-los como manifestações idênticas de um mesmo crime, mas os coloca dentro de um problema mais amplo: a frequência com que mulheres são submetidas a agressões, ameaças e situações de risco em Mato Grosso.
Os números de feminicídios, tentativas, lesões corporais, prisões e pedidos de proteção mostram que, para milhares delas, a violência não está restrita a um lugar. Pode estar dentro de casa, no fim de um relacionamento ou no caminho percorrido com um filho pelas ruas da cidade.
