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Da cena do crime à liderança: mulheres transformam a Polícia Científica em Goiás

Daline Oliveira Carneiro deixou para trás a família, o consultório e a vida que havia construído na Bahia para assumir, em Goiás, o cargo que esperou por anos. Percilia de Andrade Lucena aprendeu que entrar em um local de morte exige mais do que conhecimento técnico, e que, sendo mulher, algumas vezes também seria preciso reafirmar a própria autoridade. Isadora Silva Lima encontrou entre necropsias uma forma inesperada de cuidado com quem já não pode falar por si. Núbia Miranda começou fazendo perícias no interior e, nove anos depois, chegou a uma posição de liderança na instituição.

Quatro mulheres, quatro trajetórias e diferentes formas de exercer poder dentro da Polícia Científica de Goiás. Um poder que nem sempre está no distintivo ou no cargo ocupado. Está na técnica de quem encontra em um vestígio respostas que ninguém mais conseguiu enxergar; na responsabilidade de ajudar a estabelecer as circunstâncias de uma morte; no cuidado com uma vítima em um momento de vulnerabilidade; e também na autoridade de quem toma decisões que alcançam profissionais em diferentes regiões do Estado.

São espaços que, durante muito tempo, estiveram associados à presença masculina. Hoje, mulheres estão nos locais de crime, nos laboratórios, nas salas de necropsia e também nas chefias. A chegada até ali, porém, não foi igual para todas. Há quem tenha encontrado acolhimento desde o primeiro dia e quem ainda perceba, principalmente nas ruas e no contato com outras forças de segurança, a necessidade de provar que conhecimento, autoridade e competência não têm gênero.

As histórias de Daline, Percilia, Isadora e Núbia mostram essa presença para além dos números. Antes de serem peritas, auxiliar de autópsia ou chefe, são mulheres que estudaram, insistiram, abriram mão de coisas, enfrentaram medos e descobriram formas próprias de conviver com uma profissão que frequentemente as coloca diante da morte, da violência e da dor de outras pessoas. Algumas sonharam com a perícia durante anos. Outras sequer imaginavam que um dia estariam ali.

O que as une é justamente o lugar ao qual esses caminhos levaram. Em diferentes pontos da Polícia Científica, elas ajudam a produzir respostas quando, muitas vezes, o que resta são perguntas.

E, antes de qualquer distintivo, jaleco, microscópio ou local de crime, há histórias que começaram longe dali.

Daline Carneiro, Percilia Lucena, Isadora Lima e Núbia Miranda representam diferentes formas de atuação feminina na Polícia Científica de Goiás, entre cenas de crime, perícias, necropsias e posições de liderança | Foto: Reprodução/Jornal Opção

Daline Carneiro: dez anos de espera pelo cargo dos sonhos

Daline Oliveira Carneiro nasceu na Bahia e se formou em Odontologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 2010. Até chegar à universidade, a perícia sequer fazia parte de seus planos. Foi durante a graduação, ao cursar a disciplina de Odontologia Legal, que ela conheceu uma área que mudaria o rumo da própria carreira. O interesse foi além da sala de aula e, ainda estudante, Daline decidiu que queria transformar aquela descoberta em profissão. Naquele momento, porém, o caminho não era simples: o primeiro concurso para perito odontolegista na Bahia só seria aberto em 2014.

Quando a seleção finalmente surgiu, Daline conseguiu uma boa classificação, mas não o suficiente para ser nomeada. A frustração, no entanto, não fez com que desistisse. Ela passou a considerar concursos em outros estados e continuou investindo na formação, enquanto aguardava uma nova oportunidade. Vieram especializações em Ortodontia e Odontologia Legal, mestrado em Saúde Coletiva e doutorado em Odontologia. Dez anos depois de se formar, a oportunidade apareceu em Goiás. Em 2025, o Estado realizou o primeiro concurso para perito odontolegista, com quatro vagas. Daline foi aprovada e os títulos acadêmicos acumulados ao longo dos anos contribuíram para sua classificação. “Tenho o maior prazer, a maior honra de estar entre os primeiros profissionais de Odontologia Legal aqui dentro do Estado de Goiás”, conta.

A aprovação, porém, significou mais do que finalmente conquistar o cargo que esperava havia uma década. Aos 40 anos, Daline precisou deixar na Bahia a família, o consultório odontológico e a vida que havia construído para começar uma nova etapa sozinha em Goiás. “Quando chegou o momento exato de ter que largar tudo lá, porque eu tinha um consultório. Eu vim sozinha, minha família ficou toda lá. Aí eu vi que a coisa era mais difícil”, lembra à reportagem do Jornal Opção. 

Daline Oliveira Carneiro, perita odontolegista | Foto : Mylenna Scheidegger/Jornal Opção

A decisão foi difícil, mas hoje, aos 41 anos, ela se considera “plenamente realizada” com a escolha. Em Goiás, encontrou também uma área cuja atuação vai muito além da identificação de corpos, como muitas vezes imagina quem está de fora. A Odontologia Legal pode ajudar a identificar pessoas quando as impressões digitais não podem ser utilizadas, a partir das características odontológicas, mas também atua em perícias de pessoas vivas, principalmente em casos de lesões na face e na região orofacial.

Em pouco mais de um ano na instituição, Daline já participou de um caso de repercussão regional que prefere não identificar. O que ficou daquela experiência, no entanto, foi a sensação de que os anos de espera e preparação tinham valido a pena. “Foi muito gratificante poder contribuir para esclarecer os fatos e devolver a dignidade para a família, dar uma resposta para as famílias, para as pessoas desaparecidas também. Acho que isso foi muito gratificante e me fez reconhecer que valeu a pena toda essa caminhada até chegar aqui.”

A seção de Antropologia Forense e Odontologia Legal que encontrou ao chegar era predominantemente masculina, mas a recepção dos colegas afastou qualquer receio de que precisaria disputar espaço por ser mulher. Segundo ela, os próprios profissionais disseram que a chegada das novas peritas trouxe “uma nova vida” ao setor.

Das quatro vagas abertas no primeiro concurso para a área em Goiás, três foram ocupadas por mulheres. Para Daline, estar entre elas também significa representar outras profissionais que podem enxergar na perícia uma possibilidade de carreira. “A gente prova que competência e autoridade não têm relação com gênero”, afirma.

Se, para Daline, ocupar esse espaço representa a realização de um sonho construído ao longo de uma década, para outras mulheres da Polícia Científica a trajetória até a perícia também passa pela necessidade de conquistar respeito em ambientes historicamente associados aos homens. É o caso de Percilia de Andrade Lucena, perita criminal que há nove anos atua na Divisão de Perícias de Crimes contra a Vida e aprendeu, entre cenas de morte e plantões de 24 horas, que o conhecimento técnico também precisa caminhar ao lado da firmeza para ocupar seu lugar.

Percilia Lucena: entre a morte e a luta por respeito

A ideia de trabalhar com perícia criminal surgiu para Percilia de Andrade Lucena ainda na graduação em Farmácia, na Universidade Federal de Goiás (UFG). Professores que também atuavam como peritos apresentaram a carreira à estudante, que se interessou pela possibilidade de usar o conhecimento científico para ajudar a esclarecer crimes. O contato com séries, filmes e conteúdos sobre investigação também fazia parte de seu universo, mas foi outro sentimento que definiu sua escolha: o desejo de fazer justiça. “Eu sempre tive essa vontade de poder fazer a diferença para uma vítima naquele primeiro momento, de conseguir, através da ciência, mostrar o que aconteceu”, conta ao Jornal Opção.

O primeiro concurso veio em 2010, logo depois da graduação, mas Percilia não conseguiu a aprovação. Em vez de abandonar o projeto, seguiu estudando e fez mestrado e doutorado. Em 2014, tentou novamente e foi aprovada. A entrada na carreira, no entanto, só aconteceu em 2017. Desde então, são cerca de nove anos diante de cenas que exigem conhecimento técnico, concentração e também preparo emocional.

Percilia atua na Divisão de Perícias de Crimes contra a Vida, que não se limita a homicídios: a equipe também atende ocorrências envolvendo mortes naturais, acidentais, suicídios e outras situações. A rotina inclui plantões de 24 horas e, muitas vezes, noites interrompidas por chamados para locais onde famílias acabam de perder alguém.

Percilia de Andrade Lucena , perita criminal | Foto: Mylenna Scheidegger/Jornal Opção

É nesse contato constante com a morte que Percilia precisou aprender a lidar também com o impacto emocional da profissão. Ela afirma que ninguém se acostuma completamente com o crime, porque cada situação envolve uma nova história, uma nova família e uma nova perda. Há momentos de revolta e de dor, mas o trabalho exige que a perita consiga manter a concentração para fazer a análise técnica necessária.

Para aliviar o peso dos plantões, encontrou no CrossFit uma espécie de contraponto à rotina profissional. Praticante da modalidade há 15 anos, ela se considera uma atleta amadora e já alcançou destaque em competições nacionais. Depois de um plantão pesado, o esporte é uma das formas que encontrou para voltar para casa mais leve.

Se lidar diariamente com a morte já impõe uma carga particular, Percilia conta que ser mulher em locais de crime acrescenta outro desafio. Segundo ela, é comum encontrar ambientes predominantemente masculinos, com a presença de policiais e profissionais de outras forças de segurança, onde ainda aparecem situações de assédio e tentativas de diminuir sua autoridade. Nem sempre são atitudes explícitas. Muitas vezes, aparecem de forma velada, na maneira como uma mulher é tratada ou na tentativa de colocá-la em uma posição de inferioridade. A resposta que encontrou foi não recuar: manter a postura, confiar no conhecimento técnico, exercer a autoridade e concentrar-se no trabalho.

É também por isso que, para Percilia, ocupar esse espaço não deve ser encarado como uma disputa entre homens e mulheres, mas como uma questão de competência. Ela defende que outras profissionais não deixem o medo ou a sensação de não pertencimento limitarem suas escolhas. “Lugar existe para todo mundo. O que a gente precisa é de profissionais habilitados e capacitados para fazer o melhor serviço. Não pelo sexo, mas pela expertise, pela capacidade intelectual”, afirma.

Se Percilia aprendeu a lidar com o peso de estar diante da morte e, ao mesmo tempo, sustentar a própria autoridade, Isadora Silva Lima encontrou na rotina da Polícia Científica uma outra forma de exercer esse cuidado. Auxiliar de autópsia, ela descobriu na prática que, mesmo quando a vida já terminou, o trabalho ainda pode ser uma forma de respeito e acolhimento.

Isadora Lima: ela descobriu humanidade por trás da necropsia

Isadora Silva Lima nunca imaginou que trabalharia como auxiliar de autópsia. O caminho até a Polícia Científica começou nos estudos para concursos e ganhou outro sentido a partir das conversas com amigos que já atuavam na Polícia Militar e na Medicina Legal. Foi nesse contato que ela conheceu melhor a função e começou a enxergar naquele ambiente uma possibilidade profissional. Depois de ingressar na instituição, passou por cerca de seis meses de treinamento, período em que aprendeu desde a postura policial e os procedimentos de necropsia até os cuidados de biossegurança necessários para a rotina.

O trabalho, porém, não se resume ao que acontece nas salas de necropsia. Como auxiliar de autópsia, Isadora participa dos exames médico-legais e auxilia na realização de procedimentos que podem ajudar a esclarecer a causa da morte e as circunstâncias em que ela ocorreu. Também pode atuar em exames relacionados a pessoas vivas. Em um dos plantões recentes, por exemplo, acompanhou uma médica-legista durante um atendimento envolvendo uma possível vítima de violência sexual. Naquele momento, sua função não era realizar o procedimento, mas estar ali como outra mulher diante de alguém que enfrentava uma situação de extrema vulnerabilidade.

É nesse tipo de situação que Isadora encontra um sentido diferente para o trabalho. Mesmo diante da morte e da violência, acredita que a atuação da Polícia Científica também pode ser marcada pelo cuidado. “A gente tenta fazer um trabalho humanizado no pior momento da vida das pessoas”, afirma. Essa visão aparece ainda mais forte quando fala sobre aqueles que chegam à instituição já sem poder contar a própria história. “É quando ninguém mais se importa com você, porque só restou o seu corpo, a gente se importa”, resume.

A experiência também mudou sua percepção sobre o espaço ocupado pelas mulheres dentro da instituição. Isadora conta que encontrou um ambiente mais acolhedor do que imaginava e passou a conviver com mulheres em diferentes funções e posições de liderança.

As diferenças, na visão dela, aparecem com mais frequência fora da Polícia Científica, especialmente no contato com outros ambientes e forças de segurança. Para ela, a presença feminina que existe hoje também é resultado da trajetória de mulheres que chegaram antes e precisaram enfrentar barreiras maiores para abrir caminho.

“Eu não tenho dúvidas de que elas enfrentaram muita coisa para ocupar esse espaço. Elas enfrentaram muito mais para a gente conseguir atingir esse nível que a gente tem hoje de uma sensação de igualdade”, afirma. Para Isadora, essa história ajuda a explicar por que a presença feminina dentro da Polícia Científica já não parece uma exceção, mas parte da própria rotina, seja no cuidado com uma vítima, no trabalho de necropsia ou nas decisões tomadas dentro da instituição.

A história que Isadora reconhece nas mulheres que chegaram antes dela também aparece na trajetória de Núbia Miranda, mas em outro estágio. Depois de começar a carreira no interior, em meio a cenas de crime e perícias, Núbia avançou até assumir uma das posições de liderança dentro da Polícia Científica. Sua trajetória mostra que ocupar espaço também significa chegar aos lugares onde as decisões são tomadas.

Núbia Miranda: da cena de crime ao comando das regionais

Antes de chegar à chefia-geral das regionais da Polícia Científica de Goiás, Núbia Miranda começou a carreira justamente onde a perícia coloca seus profissionais diante da realidade mais crua da profissão: as cenas de crime. Formada em Farmácia, ela trabalhava na indústria farmacêutica quando decidiu prestar concurso para perita criminal. A carreira policial já despertava seu interesse, principalmente pelo caráter investigativo, e a formação acadêmica também se encaixava no trabalho pericial. Depois de cerca de seis meses de preparação, foi aprovada no concurso de Goiás e iniciou a trajetória em uma regional do interior, atuando com perícias em locais de crime, armas e drogas.

Foi também no interior que Núbia descobriu que poderia ocupar outro espaço dentro da instituição. Ela conta que tinha o hábito de propor mudanças e buscar soluções para os problemas do dia a dia. Quando o chefe da unidade precisou se afastar por férias ou licença-maternidade, passou a substituí-lo e percebeu que tinha facilidade para a função de gestão. A experiência abriu caminho para novos desafios e, em 2022, já em Goiânia, assumiu a chefia-geral das regionais, posição que reúne profissionais que atuam em diferentes partes do Estado. Hoje, são nove anos de carreira e uma trajetória que ela mesma define como um processo de construção.

A mudança de função não afastou Núbia da essência do trabalho pericial. Para ela, atuar na Polícia Científica significa exercer uma atividade que pode fazer diferença na vida das pessoas, mas que exige estudo constante, rigor técnico e um perfil específico.

Núbia Miranda, perita Criminal e chefe-Geral dos interiores | Foto: Oyagi Vieira/Jornal Opção

Ao mesmo tempo, a experiência mostrou que conhecimento técnico não é suficiente quando o trabalho envolve pessoas que estão vivendo alguns dos momentos mais difíceis de suas vidas. É preciso, segundo ela, equilibrar a precisão necessária à perícia com a sensibilidade para lidar com vítimas, familiares e colegas. “A segurança pública é um setor historicamente predominado por homens. Mas nós, mulheres, estamos conquistando cada vez mais nosso espaço através do trabalho, da competência e da sensibilidade”, afirma.

É justamente essa combinação que Núbia considera uma das forças das mulheres dentro da Polícia Científica. Na visão dela, elas têm espaço tanto na atividade operacional quanto em laboratórios, cenas de crime e cargos de gestão. A presença feminina, que ainda contrasta com um ambiente de segurança pública historicamente masculino, vem crescendo à medida que essas profissionais demonstram capacidade e assumem novas responsabilidades.

Para Núbia, a própria existência de mulheres em posições de comando é resultado desse movimento. Ela afirma que a Polícia Científica se destaca pela presença feminina em cargos de liderança e atribui esse cenário ao trabalho construído por essas profissionais ao longo dos anos.

Ao olhar para a própria trajetória, Núbia não aponta uma única ocorrência como o momento mais marcante. O que permanece são os retornos positivos de pessoas que reconhecem a forma humana como ela e outras mulheres conduzem o trabalho. É uma lembrança que resume o caminho iniciado no interior, diante das cenas de crime, até a posição de liderança que ocupa hoje. Mais do que chegar ao comando, sua trajetória representa a possibilidade de outras mulheres também avançarem dentro da instituição, ocupando não apenas os espaços operacionais, mas também aqueles em que são decididos os rumos do trabalho.

Elas também fazem história dentro da Polícia Científica

As trajetórias de Daline, Percilia, Isadora e Núbia são diferentes, mas se encontram na construção de uma presença feminina cada vez mais visível dentro da Polícia Científica. Elas estão nas cenas de crime, nas perícias, nas necropsias, nos laboratórios e nas posições de liderança, ocupando funções que exigem conhecimento, preparo e, muitas vezes, a capacidade de lidar com situações que ultrapassam o aspecto técnico.

Mais do que números ou cargos, suas histórias mostram caminhos diferentes para chegar ao mesmo lugar: o de quem encontrou na ciência uma forma de buscar respostas, fazer justiça e cuidar de pessoas em alguns dos momentos mais difíceis de suas vidas. Ao ocupar esses espaços, elas também deixam marcas para as profissionais que ainda virão.

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Fonte: www.jornalopcao.com.br