Daniel Vorcaro, o exterminador de candidaturas

É possível crer que não faltou quem respirasse aliviado, nos recônditos mais sombrios do poder, quando a Polícia Federal confirmou a rejeição da delação premiada do banqueiro Daniel Vorcaro. O magnata, ex-dono do Banco Master, é apontado como o responsável por um dos maiores esquemas de fraude financeira do Brasil e que deu ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) um rombo de mais de R$ 50 bilhões.

Como descoberto pela PF e pelo Banco Central, o império de Vorcaro se sustentava em ramificações criminosas que vão desde esquema de pirâmide e uso de empresas de fachada até carteiras fictícias para simular uma (inexistente) capacidade de pagar credores, além da triangulação de fundos – esquema que consiste em usar fundos de investimento para mascarar a origem ou destino de recursos ilícitos.

O suspiro de alívio de muita gente poderosa, claro, não veio por acaso. Paira no ar o temor real de que Vorcaro use a delação para expor relações que até agora permaneceram convenientemente fora do alcance das investigações e longe das manchetes.

A questão é o alívio tenha vindo muito precoce. A primeira delação de Vorcaro foi rejeitada pela PF porque os investigadores entenderam que ela não trazia nada de novo, e ainda com a suspeita de que o banqueiro tentava salvar gente graúda enquanto entregava apenas os “peixinhos”, numa “colaboração” podada para preservar quem realmente importa no jogo político e financeiro.

Mas a rejeição da delação parece ter feito com que a mensagem real da PF fosse recebida por Vorcaro: ou ele abre o cofre de verdade, ou não tem acordo. O banqueiro parece finalmente ter entendido que sua situação não é nada boa.

Conforme apurado pelo portal Metrópoles, depois de atritos com a instituição policial e também com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, Vorcaro teria resolvido mexer no time jurídico e sinalizou que agora pode, enfim, “esquentar” sua delação e começar a citar nomes que realmente provoquem taquicardia nos poderosos que estão emaranhados em sua teia.

A mudança de estratégia teria começado nessa sexta-feira, 22, com a saída do advogado José Luís Oliveira Lima, o Juca, da defesa do banqueiro. Oficialmente, tudo ocorreu em “comum acordo”, como disse o criminalista à Andréia Sadi, da GloboNews. Em Brasília, “comum acordo” costuma significar apenas que alguém decidiu pular do barco antes da tempestade.

E leia-se: a tempestade que se forma terá um poder de destruição imenso. Vale lembrar que Daniel Vorcaro não era apenas um banqueiro que circulava no mercado financeiro, ele virou uma espécie de “lounge ambulante” do poder brasileiro com trânsito com políticos, empresários, fundos públicos, campanhas eleitorais e toda a fauna pública que se possa imaginar. E uma certeza que se tem é que uma figura dessa estirpe não afunda sozinho: via puxando gente pela penra.

Flávio Bolsonaro: enrolado até os ossos com Vorcaro | Foto: Reprodução

Talvez, por isso, figuras políticas como o ex-governador do DF Ibaneis Rocha aparente um certo esforço para demonstrar tranquilidade. O político declarou não temer eventual delação de Vorcaro. Ele admite que manteve contato com o banqueiro, mas nega ter recebido dinheiro. Pode até ser. Mas o desgaste com a associação a Vorcaro, a esta altura do campeonato, é inevitável.

Ibaneis sonha com o Senado e está de olho no pleito deste ano, mas disputar uma eleição majoritária carregando nas costas o fardo de escândalo financeiro bilionário é bem diferente de administrar o DF blindado pela máquina pública. Como bem se sabe, em campanha política o adversário não precisa provar crime: basta repetir, à exaustão, “Banco Master”, “BRB”, “rombo bilionário” e “Vorcaro” até a coisa grudar no oponente como um parasita marinho.

E talvez seja esse mesmo o maior risco para muitos que almejam um cargo eletivo neste ano, o de Vorcaro virar um contaminante político. Um sujeito cuja simples proximidade já começa a intoxicar candidaturas, até porque ninguém acredita que um banqueiro desse tamanho frequentava os salões do poder apenas para tomar café e discutir o clima. Ou acredita?

O caso já não respinga, mas encharca, também, a pré-campanha de Flávio Bolsonaro, do PL. Segundo revelou o site The Intercept Brasil, registros apontam para uma negociação em que Vorcaro teria se comprometido a repassar US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, para financiar “Dark Horse”, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. E os documentos indicam que R$ 61 milhões já teriam sido pagos.

Aqui, se fala de de um banqueiro investigado por um rombo monstruoso aparecendo associado ao financiamento de um filme, ou melhor, do projeto de propaganda política cinematográfica da família Bolsonaro. Banqueiro esse, aliás, que Flávio jurava não conhecer e não ter o mínimo contato… até a revelação dos áudios.

Por coincidência, ou não, uma pesquisa Datafolha divulgada nessa sexta-feira, 22, mostrou Lula da Silva com 47% das intenções de voto num eventual 2º turno em 2026, contra 43% de Flávio Bolsonaro. Esse é o primeiro levantamento realizado após as revelações sobre as conversas entre Flávio e Vorcaro. O timing ajuda a mensurar que o impacto já começou.

Escândalos financeiros, curiosamente têm um poder destruidor sobre candidaturas que tentam vender o velho “Deus, Pátria, Família”. O eleitor brasileiro tolera muita coisa em político, isso é fato, mas existe uma doce e cruel ironia quando figuras que se apresentam como outsiders do sistema aparecem orbitando banqueiros envolvidos em suspeitas de esquemas bilionários. E ainda mais quando essas mesmas figuram negam “de pés juntos” que sequer conheciam os tais banqueiros.

Em tempo: a trama toda também acaba colocando Celina Leão, atual governadora do DF e sucessora de Ibaneis, num cenário no mínimo desconfortável. Mesmo em crise com Ibaneis (o ex-governador disse que não seguirá ao lado da atual gestora devido a insatisfação com os rumos da aliança), Celina, que conta com o apoio de Michelle Bolsonaro e do PL, continua ligada ao sistema político que sustentou a relação entre o BRB e Master. E se a crise crescer, não vai importar muito a distância atual entre os dois.

Celina seguirá no jogo como pré-candidata à reeleição? É provável. Ibaneis manterá o plano de ir ao Senado? Quem sabe (o Jornal Opção ouviu nomes carimbados de Brasília que apostam que não). Flávio seguirá competitivo nacionalmente? A ver. Mas tudo isso depende de um fato que nenhum deles controla mais, que é o quanto Daniel Vorcaro está disposto a sobreviver.

E aí mora o verdadeiro terror de Brasília, ou melhor, o fim dos suspiros de alívio. Banqueiro abandonado costuma desenvolver uma avassaladora paixão pela sinceridade.



Jornal Opção