O presidente do Paraguai, Santiago Peña, permanece no cargo após o Congresso interromper, nesta quinta-feira, 5, a sessão que analisava seu pedido de renúncia. A votação foi suspensa depois que deputados do Partido Colorado, sigla do chefe do Executivo, abandonaram o plenário e provocaram falta de quórum para a continuidade dos trabalhos.
A interrupção impediu que o Legislativo concluísse a análise da carta apresentada por Peña, que havia anunciado sua saída horas antes, em meio à crise política provocada pelo colapso do banco digital Ueno. Como a renúncia depende de aprovação parlamentar para produzir efeitos, o presidente continua formalmente à frente do governo.
O impasse ocorre após a Câmara dos Deputados aprovar, por unanimidade dos 78 parlamentares votantes, a abertura de um processo de impeachment contra Peña. A acusação foi encaminhada ao Senado, responsável pelo julgamento e por eventual destituição do presidente.
Durante a crise, o senador oposicionista Rubén Velásquez afirmou que Peña teria deixado o Paraguai em direção à Argentina. A informação, entretanto, não foi confirmada de maneira independente.
Renúncia pode garantir prerrogativas ao presidente
A disputa no Congresso envolve também as consequências jurídicas da saída de Peña. Pela Constituição paraguaia, ex-presidentes eleitos democraticamente podem receber a condição de senadores vitalícios, desde que não tenham sido considerados culpados em julgamento político.
Parlamentares da oposição defendem a continuidade do impeachment por entenderem que a aceitação da renúncia poderia assegurar prerrogativas parlamentares ao presidente antes da conclusão das acusações.
Pelo artigo 225 da Constituição do Paraguai, a Câmara é responsável por formular acusações contra o presidente por mau desempenho das funções ou prática de crimes. O julgamento cabe ao Senado.
Caso a renúncia seja posteriormente aprovada, o vice-presidente Pedro Alliana deverá assumir a Presidência até agosto de 2028, quando termina o atual mandato. O pedido de impeachment contra Alliana foi rejeitado pelos deputados.
Escândalo bancário provocou crise política
A pressão sobre Peña aumentou após o Banco Central do Paraguai determinar, na terça-feira, 3, a liquidação do Ueno Bank, instituição que possuía aproximadamente 3 milhões de clientes.
A decisão ocorreu depois que a autoridade monetária identificou problemas de solvência associados a empréstimos concedidos a empresas ligadas ao próprio banco. O fechamento deixou milhares de correntistas temporariamente sem acesso aos recursos e provocou protestos em Assunção.
A instituição também administrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos destinados ao Instituto de Previdência Social e a outros fundos governamentais.
Peña foi acionista do grupo controlador do Ueno até março de 2025. A oposição o acusa de conflito de interesses, manipulação de regras financeiras e supostas irregularidades envolvendo recursos previdenciários. As acusações ainda dependem de apuração e julgamento.
O Ministério Público apresentou acusações contra 27 pessoas ligadas à instituição financeira. A Justiça também determinou o bloqueio de bens de investigados, enquanto executivos do banco se apresentaram às autoridades após a expedição de mandados de prisão.
Peña pediu desculpas à população
Ao anunciar a intenção de deixar a Presidência, Santiago Peña afirmou que sua decisão tinha como objetivo preservar a estabilidade política e institucional do Paraguai.
“Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai. Também quero pedir desculpas ao povo. Se em algum momento falhei, nunca foi minha intenção decepcionar a confiança que depositaram em mim”, declarou.
A saída foi anunciada após Peña perder o apoio de lideranças importantes do Partido Colorado, incluindo o ex-presidente Horacio Cartes, considerado seu principal padrinho político, e o presidente do Congresso, Basilio Núñez.
Crise financeira preocupa população
O fechamento do Ueno provocou uma corrida de clientes em busca de seus recursos e aumentou a preocupação com a estabilidade do sistema bancário paraguaio.
Diante da situação, o governo aprovou medidas para acelerar o ressarcimento dos correntistas. O Banco Central também procurou tranquilizar a população, afirmando que os problemas estavam concentrados no Ueno e não representavam uma crise generalizada no sistema financeiro.
A Associação de Bancos do Paraguai informou que as instituições continuavam funcionando normalmente, apesar do aumento na procura por transferências e serviços bancários.
Com a suspensão da sessão parlamentar, o futuro político de Santiago Peña permanece indefinido. A renúncia ainda depende de uma decisão do Congresso, enquanto o processo de impeachment encaminhado ao Senado pode resultar em sua destituição.
Nota de apuração: A renúncia e a aprovação do impeachment pela Câmara foram noticiadas por veículos internacionais nesta quinta-feira (5). A informação específica de que deputados abandonaram a sessão e impediram a votação da renúncia consta no texto fornecido, mas não foi confirmada de forma independente nas fontes consultadas.
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