Após a suspensão das operações na bolsa de valores brasileira, em sequência à eleição de Lula, por meio do circuit breaker, mecanismo utilizado para interromper temporariamente as negociações diante de quedas acentuadas, o mercado não se normalizou, e as perdas continuaram a ser observadas.
As consequências da reação dos investidores ao resultado das urnas abrangem diferentes possibilidades, assim como as causas que levaram o mercado financeiro a esse comportamento. Para compreender as diferentes interpretações do fenômeno, o Jornal Opção ouviu três economistas, que apresentaram suas perspectivas sobre o cenário.

Everaldo Leite explica que a venda massiva de ações ocorre diante das incertezas sobre a condução da economia no próximo governo. “O mercado estava esperando que fosse o Flávio Bolsonaro. Mas ele espera do próximo governo que faça uma reforma fortíssima, no sentido de gastar menos, por causa da dívida. E aí gera aquela ideia de que daqui a pouco o governo não consegue mais gerar dívida.”
Entretanto, o economista ressalta que a dívida brasileira é predominantemente interna, o que, em sua avaliação, amplia a capacidade de controle do Estado sobre seu financiamento e afasta o risco de o país quebrar. “Isso não acontece porque nunca aconteceu em país nenhum, quando a dívida é uma dívida interna. Se a dívida fosse externa, ela realmente seria perigosa”, afirma.
Na visão dele, os danos são passageiros. “Isso não quer dizer que entrou numa situação em que vai continuar assim não, é questão de poucos dias e a Bolsa volta ao normal, e esperemos que o governo Lula seja um governo muito eficiente para esse novo mandato”.

Renato Ribeiro destaca que o circuit breaker foi acionado pela última vez durante a pandemia de Covid-19 e, antes disso, em meio aos escândalos do petrolão. Ele também explica a relação entre a queda da bolsa e a alta do dólar. “O dólar não é somente uma moeda, o dólar é uma commodity financeira, porque as negociações, visto importação e exportação, estão listadas em dólar.”
O economista afirma que as avaliações dos investidores são motivadas por fatores econômicos, e não políticos. Entre os motivos de preocupação, ele cita o endividamento das contas públicas, a taxa básica de juros elevada e a instabilidade do mercado interno. “Então, eles resolveram tirar o dinheiro até que eles consigam enxergar de uma maneira melhor”, diz.
Para Ribeiro, não há uma solução imediata para o cenário. “No curto prazo, não tem o que fazer. Mas temos que torcer para que a gente tenha um ajuste fiscal e para que a gente tenha uma seguridade econômica que demonstre isso para o mercado de uma maneira bastante positiva, para que a gente gere confiança nesse investidor internacional.”

Greice Guerra, por sua vez, ressalta que a dívida pública brasileira está em 90% do Produto Interno Bruto (PIB), fator que, segundo ela, contribui para a percepção de insegurança dos investidores no mercado internacional.
A economista avalia que a desconfiança em relação ao governo Lula deve persistir, pelo menos, até meados de 2027. Ela também menciona declarações do presidente sobre a autonomia do Banco Central durante o debate de sexta-feira. “Vai ser os dois pés atrás, eu diria. Porque, inclusive, no próprio debate, na sexta-feira, ele pincelou que é contra a autonomia do Banco Central, o que ficou muito ruim.”
Greice defende a independência da autoridade monetária e relaciona a manutenção dos juros elevados à inflação, que, em sua avaliação, também é influenciada pelas ações do governo.
Embora se posicione favoravelmente às políticas públicas, a economista argumenta que é possível preservar os programas sociais e, ao mesmo tempo, promover o controle das despesas. “Basta a boa vontade do governo em colocar um teto e preservando as políticas sociais. Mas teria como, sim, agora, falar que vai dar ônibus de graça para a população todo final de semana e que vai perdoar a dívida dos MEIs… Não que isso seja ruim, mas alguém tem que pagar”.
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