Herdeiros são alvo de apuração por venda de direitos cedidos

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fazenda poconé

Uma representação criminal apresentada à Polícia Civil de Querência pede a investigação de herdeiros da família Diniz por suspeita de alienação fraudulenta de direitos relacionados à Fazenda Poconé. O produtor rural Marcos Rader sustenta que os representados venderam a terceiros quinhões sobre as matrículas 2.453 e 2.454, mesmo tendo conhecimento de que parte dos direitos já havia sido cedida anteriormente a ele.

A denúncia aponta a possível prática de estelionato, na modalidade de alienação fraudulenta de coisa própria. Segundo Rader, os herdeiros teriam negociado novamente direitos sobre a área em contratos celebrados ao longo de 2024, em favor do empresário Edson Ghelere, sem descontar as parcelas anteriormente cedidas.

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A Fazenda Poconé é formada por duas matrículas que, juntas, somam aproximadamente 7,2 mil hectares, localizados na região de Querência e Ribeirão Cascalheira. O imóvel está no centro de uma disputa judicial e sucessória iniciada há décadas, envolvendo inventários, ações possessórias, embargos de terceiros, cessões de direitos e uma ação demarcatória.

De acordo com a representação, Silvio Carvalho Diniz teria dado 1.446 hectares em pagamento a um ex-empregado, Luís Antônio Leme da Silva, em razão de uma dívida trabalhista. Posteriormente, esses direitos teriam sido cedidos a Gilberto Luiz de Rezende e, em 2011, transferidos a Marcos Rader.

O produtor afirma ainda ter adquirido os direitos de meação da viúva de Silvio, Beatriz Marieta Pfaffmann, correspondentes a outros 1.808,72 hectares. Somadas, as duas cessões representariam direitos sobre aproximadamente 3.254 hectares da fazenda.

Mesmo assim, segundo a acusação, os herdeiros de Silvio teriam negociado seus quinhões com Edson Ghelere entre abril e junho de 2024, em operação mencionada na representação pelo valor de R$ 6 milhões. “Os representados, cientes de todas as circunstâncias e de todas as demandas que envolvem o caso, vieram a alienar novamente a terceiros os 50% das matrículas de números 2.454 e 2.453”, afirma.

A peça individualiza contratos atribuídos a Rogério Pfaffmann Diniz, Eduardo José Pfaffmann Diniz, Kley Selbiscikowski Diniz, Marizabel Selbiscikowski Diniz, Patrícia Pfaffmann Diniz Moreti e Marcelo Pfaffmann Diniz, além de seus respectivos cônjuges.
Para Rader, os envolvidos teriam vendido “100% de seus supostos quinhões” sem informar que parcelas dos direitos já haviam sido anteriormente cedidas e estavam sendo discutidas em processos judiciais.

CRÉDITO RECONHECIDO

A representação também cita uma sentença proferida pela 2ª Vara de São Joaquim da Barra, em São Paulo, em dezembro de 2025. Na decisão, o Espólio de Silvio Carvalho Diniz foi condenado a reconhecer um crédito em favor de Marcos Rader correspondente ao quinhão de 1.446 hectares da Fazenda Poconé. A sentença determinou que o direito fosse satisfeito por meio da reserva de bens no inventário, até a futura e efetiva adjudicação da área.

Rader sustenta que o reconhecimento judicial reforça a existência da cessão anterior e demonstra que os herdeiros não poderiam ter negociado integralmente os mesmos direitos com terceiros.

LIGAÇÕES POLÍTICAS

A representação afirma ainda que, depois da negociação com Edson Ghelere, alguns herdeiros teriam realizado novas cessões de direitos hereditários à J.G.R. Imobiliária Ltda., empresa ligada ao ex-deputado estadual José Geraldo Riva.

Como indício, o documento reproduz parcialmente uma escritura pública celebrada em abril de 2025, na qual Eduardo José Pfaffmann Diniz aparece como cedente e a J.G.R. como cessionária.

Segundo Rader, a sucessão de negócios precisa ser investigada para verificar se os mesmos direitos foram alienados mais de uma vez e se os compradores foram informados sobre as cessões anteriores e os processos judiciais em andamento.

A representação também menciona uma ação de cobrança de honorários de corretagem em tramitação na 1ª Vara Cível de Água Boa. Conforme a narrativa apresentada, esse processo teria revelado detalhes das negociações realizadas pelos herdeiros com Ghelere e, posteriormente, com a J.G.R.

A representação pede a instauração de inquérito policial, a realização de perícias e a análise dos contratos, escrituras, processos judiciais e comprovantes de pagamento. Até a conclusão da investigação, as acusações constituem a versão apresentada por Marcos Rader e não representam condenação ou reconhecimento definitivo de crime.

RECLAMAÇÃO CNJ

A disputa pela Fazenda Poconé também é objeto de uma reclamação disciplinar encaminhada ao Conselho Nacional de Justiça contra a desembargadora Serly Marcondes Alves, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso.

No pedido ao CNJ, Marcos Rader questiona decisões proferidas pela magistrada em processos relacionados à fazenda. A reclamação sustenta que a desembargadora teria adotado interpretações contraditórias sobre a validade de cessões de direitos e procurações utilizadas pelas partes.

A reclamação também cita a atuação do advogado Roberto Zampieri, assassinado em dezembro de 2023. Um contrato reproduzido na representação criminal mostra que Artur Carvalho Diniz prometeu entregar 1.300 hectares a Roberto Zampieri e ao advogado Rodrigo Borghetti Zampieri em caso de êxito nas ações envolvendo a fazenda.

O instrumento previa ainda remuneração proporcional equivalente a até 36% da área que viesse a ser reconhecida ou reintegrada aos contratantes nas ações demarcatória e reivindicatória.

Na reclamação ao CNJ, o contrato é utilizado para sustentar que Zampieri possuía interesse econômico direto no resultado dos processos em que atuava como advogado.



Estadão MT