A posse presidencial de 2027 já movimenta o setor hoteleiro de Brasília, com aumento expressivo na procura por hospedagens e diárias que ultrapassam R$ 25 mil em algumas plataformas de reserva. A expectativa da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Distrito Federal (ABIH-DF) é de que a ocupação dos estabelecimentos supere 80% no período.
Ao Jornal Opção, o presidente da entidade, Henrique Severien, afirmou que a procura começou há mais de 15 dias e que a movimentação é característica das cerimônias de posse, realizadas a cada quatro anos.
Segundo Severien, o setor já recebe um volume maior de consultas, principalmente por meio de agências e intermediários que buscam acomodações para grupos. Ainda não é possível identificar o perfil de todos os interessados, uma vez que as solicitações chegam aos hotéis com informações sobre quantidade de apartamentos e período de hospedagem, sem detalhar necessariamente quem fará a reserva.
“Essa demanda já começou há mais de duas semanas. A hotelaria começou a receber muitas cotações, que não são feitas diretamente pelo consumidor final, mas por intermediários, agências que representam grupos específicos. Não sabemos exatamente se são empresas, delegações internacionais ou outros grupos, porque as consultas chegam apenas com o número de apartamentos e o período”, explicou.
O presidente da ABIH-DF avalia que a posse presidencial provoca uma movimentação diferenciada na capital federal, justamente por reunir interesses políticos, institucionais e internacionais. A expectativa, de acordo com ele, é que a procura alcance diferentes categorias de hotéis, desde estabelecimentos econômicos até os de padrão superior.

No caso das delegações estrangeiras, porém, a preferência costuma recair sobre hotéis de categoria upscale, que oferecem estrutura e serviços específicos para receber chefes de Estado e representantes diplomáticos. “Quando falamos de delegações internacionais, sem dúvida o mercado de hotéis upscale é o preferencial, por abrigar chefes de Estado e representantes dos mais diversos países, que têm exigências específicas relacionadas à segurança, às equipes e a toda uma dinâmica de hospedagem”, afirmou.
Associação projeta ocupação superior a 80%
A ABIH-DF trabalha com a expectativa de que a ocupação hoteleira ultrapasse 80% durante o período da posse. Henrique afirma que, em outras cerimônias presidenciais, o setor chegou a registrar índices próximos de 90%, embora o resultado final nem sempre alcance esse patamar.
A disponibilidade de quartos pode ser afetada por diferentes fatores, como manutenção de unidades e reservas que não se concretizam. Por isso, a associação considera mais realista projetar uma ocupação média acima de 80%, ainda que alguns hotéis possam atingir índices próximos da lotação máxima.
A região central de Brasília concentra a maior procura, em razão da proximidade com os principais espaços institucionais e com a Esplanada dos Ministérios. A localização também favorece a hospedagem de grupos que participam das atividades relacionadas à cerimônia.
Diárias de até R$ 25 mil motivaram representação ao MP
A elevação dos preços, entretanto, provocou reação de consumidores e autoridades. O deputado distrital Fábio Felix (Psol) protocolou uma representação no Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) para pedir a apuração de possíveis práticas abusivas na precificação das hospedagens durante a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, marcada para 5 de janeiro de 2027.
No levantamento apresentado pelo parlamentar, foram analisadas mais de 360 ofertas de acomodações. Os dados apontam que, na semana da posse, a diária média chegou a R$ 4.578,59 no Booking.com, contra R$ 467,39 na semana seguinte. No Airbnb, a média identificada foi de R$ 3.612,44 durante a posse e R$ 290,61 no período posterior.
Em um dos exemplos citados na representação, a mesma acomodação foi anunciada por R$ 12.516 durante a cerimônia e por R$ 532 na semana seguinte. O parlamentar também apontou anúncios com valores que chegam a R$ 25,3 mil por diária.
A representação pede que os órgãos de defesa do consumidor investiguem os critérios utilizados na formação dos preços e as justificativas econômicas para os aumentos. Além do MPDFT, o documento foi encaminhado ao Instituto de Defesa do Consumidor e ao Procon do Distrito Federal.
Em manifestação sobre o caso, Felix classificou os valores como abusivos e afirmou que o aumento da procura não pode, por si só, justificar cobranças consideradas excessivas.
Sobre os valores anunciados, Henrique Severien afirmou que a elevação das tarifas acompanha a redução da disponibilidade de quartos e faz parte da política de gerenciamento de receitas adotada pelo setor hoteleiro. Ele comparou o modelo ao utilizado pelas companhias aéreas, nas quais os preços variam conforme a ocupação dos assentos.
“Trabalhamos em um regime de revenue management, que é o mesmo das companhias aéreas. À medida que a aeronave vai lotando, e os hotéis também vão ficando ocupados, os preços sobem. O hotel tem um produto muito perecível: se você não vende hoje, não consegue compensar amanhã”, afirmou.
Henrique também argumentou que parte dos valores mais elevados corresponde a suítes de padrão superior, com serviços adicionais e características diferentes das acomodações convencionais. Segundo ele, a redução da disponibilidade pode fazer com que permaneçam à venda apenas unidades mais caras, especialmente em hotéis que recebem delegações e autoridades.
Ele defendeu que a comparação dos preços considere o tipo de acomodação e os serviços oferecidos. Henrique afirmou que, quando os valores anunciados são convertidos em dólar e comparados a tarifas praticadas em outras capitais internacionais, não necessariamente ficam acima dos padrões de mercados estrangeiros.
A alta demanda por acomodações em grandes eventos internacionais já provocou problemas recentes no Brasil. Durante a COP30, realizada em Belém, no Pará, a procura por hospedagens elevou os preços e gerou questionamentos de delegações e participantes. A organização precisou notificar plataformas para a retirada de anúncios considerados abusivos, enquanto alternativas como motéis e navios foram utilizadas para ampliar a oferta de acomodações.
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Fonte: www.jornalopcao.com.br

