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Ian Caetano, sociólogo goiano que marcou as lutas sociais e a produção intelectual, morre aos 32 anos

O sociólogo, ativista e pesquisador goiano Ian Caetano de Oliveira morreu na madrugada desta sexta-feira, 30, aos 32 anos, em Goiânia. Ele estava internado havia alguns dias em uma unidade de saúde. A notícia provocou manifestações de pesar entre amigos, colegas de militância e integrantes da comunidade acadêmica, que lembraram sua atuação política, sua contribuição intelectual e o envolvimento com a cultura.

Com uma trajetória que começou ainda na adolescência, Ian tornou-se conhecido pela participação nas mobilizações populares de 2013 contra o aumento da tarifa do transporte coletivo na capital goiana. Ao longo dos anos, ampliou sua atuação para a pesquisa acadêmica, o jornalismo cultural, a literatura, a tradução e a produção editorial independente. Sua história reuniu diferentes formas de participação pública, sempre atravessadas pelo interesse pelas desigualdades sociais e pelos movimentos coletivos.

A Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás (FCS/UFG), onde concluiu a licenciatura em Ciências Sociais, em 2015, publicou uma nota de pesar. A instituição destacou sua dedicação à vida universitária desde os primeiros anos da graduação e o envolvimento com a produção acadêmica e as causas sociais.

O professor Francisco Mata Machado Tavares, que acompanhou Ian durante a formação universitária, orientou seu trabalho de conclusão de curso e participou de projetos de iniciação científica e monitorias, recordou o ex-aluno como uma pessoa sensível, inquieta e intelectualmente inquieta. Segundo o docente, Ian já chamava a atenção de professores da universidade aos 16 anos, quando participou de uma palestra na instituição e surpreendeu os presentes pela profundidade das perguntas.

A relação com a pesquisa começou cedo. Ainda durante a graduação, Ian escreveu artigos científicos em coautoria com o professor, alguns dos quais alcançaram expressiva repercussão acadêmica. A capacidade de leitura, a familiaridade com diferentes campos do conhecimento e o interesse por questões políticas e sociais fizeram com que ele construísse uma relação próxima com a universidade.

Participação nas manifestações de 2013

A trajetória pública de Ian ganhou projeção em 2013, quando, aos 17 anos, passou a integrar a coordenação da Frente de Luta do Transporte Público (FLTP), em Goiânia. O movimento organizou mobilizações contra o aumento da tarifa do transporte coletivo e reivindicava melhores condições de acesso à cidade.

As manifestações realizadas na capital goiana antecederam a onda nacional de protestos que tomou as ruas de diversas cidades brasileiras em junho daquele ano. As mobilizações reuniram estudantes, trabalhadores e integrantes de diferentes movimentos sociais, em uma agenda que envolvia o preço das passagens, a qualidade do transporte público e o direito à cidade.

A experiência também se transformou em objeto de investigação acadêmica. Em 2016, Ian publicou, ao lado de Francisco Mata Machado Tavares e João Henrique Ribeiro Roriz, o artigo As jornadas de maio em Goiânia: para além de uma visão sudestecêntrica do junho brasileiro em 2013, na revista científica Opinião Pública.

O estudo recuperou a importância das manifestações realizadas em Goiânia antes da consolidação dos protestos nacionais e questionou a interpretação de que as mobilizações de 2013 teriam começado apenas a partir dos acontecimentos no Sudeste. A pesquisa ajudou a registrar a participação dos movimentos sociais goianos naquele período e a ampliar o debate sobre a organização política fora dos principais centros econômicos do país.

Em maio de 2014, Ian voltou a ser alvo de atenção durante a chamada Operação 2,80, deflagrada pela Polícia Civil em meio às investigações sobre episódios de depredação durante os protestos contra o valor da passagem. Ele foi preso preventivamente junto com outros jovens que integravam o movimento, entre eles o jornalista e ativista Heitor Vilela.

Os investigados foram acusados de envolvimento em crimes como dano ao patrimônio público, associação criminosa e incitação à violência. As prisões provocaram novas manifestações em Goiânia, desta vez em defesa da liberdade dos estudantes.

Ian e outros dois jovens permaneceram detidos por aproximadamente uma semana, até que a desembargadora Avelirdes Almeida Pinheiro, do Tribunal de Justiça de Goiás, concedeu habeas corpus. A libertação encerrou aquele período de detenção, que se tornou um dos episódios marcantes da trajetória de militância do pesquisador.

Formação acadêmica e produção científica

Depois de concluir a licenciatura em Ciências Sociais pela UFG, em 2015, Ian deu continuidade à formação no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ). Em 2018, obteve o título de mestre em Sociologia e ingressou no doutorado na mesma instituição, na área de Ciência Política.

Na pesquisa acadêmica, dedicou-se a temas relacionados aos movimentos sociais, à repressão, à produção de conhecimento e às relações entre universidade e sociedade.

Entre seus trabalhos está a dissertação O paradoxo de Santos Dumont: Uma avaliação das afinidades entre técnicas informacionais da repressão e pesquisa sobre movimentos sociais, bem como considerações sobre a relevância da produção acadêmica a estes mesmos movimentos. O estudo investigou as relações entre mecanismos de informação e repressão e as pesquisas desenvolvidas sobre organizações e mobilizações populares.

Outro artigo de sua autoria, em parceria com Francisco Mata Machado Tavares, foi Omissões e seletividades da ciência política brasileira: lacunas temáticas e seus problemas sócio-epistêmicos. Publicado em 2016, o trabalho discutiu a ausência ou a pouca presença de determinados temas na produção científica brasileira, especialmente aqueles relacionados aos conflitos e às lutas sociais.

Ian também escreveu sobre o funcionamento das universidades e as limitações dos modelos de produção acadêmica. Em À academia: ensaio para uma crítica do modus operandi universitário, abordou questões como o produtivismo científico, a hiperespecialização e as relações de trabalho e conhecimento dentro das instituições de ensino superior.

A produção revela uma característica presente em diferentes momentos de sua trajetória: o interesse em aproximar a pesquisa universitária dos problemas vividos pela sociedade, sem separar a reflexão teórica da realidade política.

Literatura, música e produção editorial

Fora da universidade e da militância, Ian mantinha uma relação próxima com a literatura e as artes. Desde a adolescência, participava de clubes de leitura e cultivava interesse por obras literárias e históricas. O conhecimento sobre literatura também apareceu em sua atuação como crítico cultural e colaborador do jornalismo goiano.

No Diário da Manhã, publicou ensaios e críticas sobre literatura, cinema e política. Entre os textos estão análises de As Intermitências da Morte, do escritor português José Saramago, e Quincas Borba, de Machado de Assis. Também escreveu sobre cinema e juventude, relacionando as representações culturais às condições sociais e políticas do país.

Em um de seus trabalhos, intitulado A Crítica Cinematográfica da Realidade Juvenil no Capitalismo Tardio, abordou a representação da juventude e as relações sociais no capitalismo. Sua escrita demonstrava familiaridade com diferentes correntes do pensamento, especialmente a tradição marxista.

A atuação editorial foi outra dimensão importante de sua vida. Ao lado de Heitor Vilela, participou da fundação da Escultura Produções Editoriais, iniciativa independente voltada à publicação de livros e à circulação de trabalhos intelectuais.

Entre os projetos da editora está a publicação de Estado de Exceção Escolar: uma avaliação crítica das escolas militarizadas, organizada por Ian e Victor Hugo Viegas de Freitas Silva, em 2016. A obra reuniu pesquisadores de diferentes áreas para discutir a militarização das instituições públicas de ensino em Goiás, abordando questões relacionadas à disciplina, à gestão escolar, aos direitos dos estudantes e aos impactos desse modelo na educação.

Ian também participou da edição do Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, e trabalhou na tradução de obras. Um dos projetos foi a tradução diretamente do alemão para o português de Bakunin e Nechayev: cartas selecionadas, demonstrando seu interesse por diferentes tradições do pensamento político.

A produção cultural não se limitava aos livros. Ian também era músico e tocava violão, guitarra, contrabaixo, teclado e craviola. Além disso, escrevia poesias e cultivava interesse por diferentes manifestações artísticas.

Entre amigos e colegas, também era lembrado pelo estilo pessoal, marcado pelo uso frequente de coletes, paletós e chapéus, e pela maneira afetuosa de se relacionar, mesmo diante de debates políticos intensos.

Homenagens

A Faculdade de Ciências Sociais da UFG manifestou solidariedade aos familiares, amigos e pessoas próximas de Ian. Na nota, a instituição ressaltou que ele foi um estudante dedicado ao curso e à vida acadêmica, com produções desenvolvidas desde o período da graduação.

A universidade também destacou que sua dedicação às Ciências Sociais se manifestava no ativismo e no engajamento com causas coletivas. O professor Francisco Mata Machado Tavares, que acompanhou sua formação, recordou a sensibilidade e a capacidade intelectual do pesquisador.

A morte de Ian encerra uma trajetória iniciada muito cedo e que passou por diferentes espaços de atuação. Das mobilizações pelo transporte público às pesquisas sobre movimentos sociais, da universidade à produção editorial, da literatura à música, ele construiu uma presença que ultrapassou os limites da formação acadêmica.

Seu trabalho permanece registrado em artigos científicos, livros, traduções e textos publicados na imprensa. Também permanece na memória de quem compartilhou com ele a militância, os projetos culturais e a vida universitária.

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Fonte: www.jornalopcao.com.br