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POLÍTICA

O próximo só merece ajuda quando pensa politicamente como você?

Uma coisa que ainda não ficou clara foi o porquê de você, que bateu no peito para defender “Deus, pátria e família”, princípios que provavelmente eram “bíblicos”, agora estar querendo causar nas redes sociais com toda essa onda de ataques a comerciantes que vão contra o seu pensamento político. Onde ficaram seus princípios, seu amor ao próximo e seu temor a Deus? Tudo isso era fachada?

E melhor: toda essa caridade que você fazia, era em vão, né? Porque quem faz de coração ajuda o próximo independentemente de posicionamento político, religião, entre outros fatores. Mas agora eu quero falar com você, Velho Roy, dr. Frederico Nacruth, o senhor Gilberto Mulina, dono do Grupo GM Confecções, “influenciadora” Mayra Bittar, a senhora Daiane Ribeiro, dona do Portal do Lago, aos donos do Flash Buguer, em Nerópolis e tantos outros que estão usando o Instagram para anunciar que deixaram de fazer campanhas de arrecadação de alimentos: saibam que a atitude de vocês é a mais desprezível possível.

Isso só mostra que, para vocês e seus colegas, a solidariedade tem prazo de validade e depende de quem está do outro lado. A caridade, que deveria ser um gesto espontâneo de humanidade, passou a ser usada como instrumento de disputa política. É quase como se a lógica fosse: “se você pensa como eu, merece minha ajuda; se pensa diferente, não conte comigo”. E, sinceramente, que tipo de amor ao próximo é esse? Que tipo de princípio é esse que desaparece no primeiro momento em que surge uma divergência política? Se a pessoa que precisa de alimento, por exemplo, deixa de merecer ajuda porque votou em determinado candidato, então o problema já não está na política. Está na maneira como algumas pessoas passaram a enxergar o próprio semelhante.

Quem faz o bem de coração não deveria precisar saber em quem o outro votou para decidir se ele merece uma cesta básica, uma doação ou qualquer tipo de auxílio. A fome não tem partido. A necessidade não tem ideologia. Uma criança que precisa de comida não vai perguntar se a família dela votou na direita ou na esquerda antes de sentir fome. Uma mãe que precisa colocar comida na mesa não deveria ser obrigada a apresentar uma carteirinha ideológica para receber sua solidariedade.

E não deixa de ser curioso que muitos dos que agora pregam esse tipo de boicote sejam os mesmos que passaram anos falando sobre liberdade, família, fé e respeito. Liberdade, aparentemente, vale apenas quando é para concordar com eles. Porque quando um comerciante declara apoio a um candidato ou a um partido de que eles não gostam, imediatamente ele passa a ser tratado como alguém que deve ser evitado, punido e retirado do círculo de consumo. Pense se fosse o contrário? 

A lista de estabelecimentos que circula nas redes sociais é justamente o retrato dessa mentalidade. Uma lista para identificar quem é “petista” e, consequentemente, decidir onde não comprar. E qual é o próximo passo? Uma lista para identificar quem é de esquerda? Quem é de direita? Quem votou em quem? Quem publicou o quê? Vamos transformar a cidade inteira em uma grande patrulha ideológica? Vamos escolher onde comer, onde comprar roupa, onde cortar o cabelo ou qual profissional contratar de acordo com o voto do dono do estabelecimento? Vocês adoeceram! 

O mais preocupante é que esse tipo de comportamento ultrapassa a simples manifestação de uma preferência política. Uma coisa é você dizer: “não concordo com o posicionamento daquele empresário e, por isso, não quero consumir naquele estabelecimento”. Outra, completamente diferente, é estimular uma campanha coletiva para prejudicar um comerciante porque ele pensa diferente.

É transformar o consumo em uma ferramenta de perseguição política. E isso deveria incomodar qualquer pessoa que realmente acredite na liberdade, independentemente do lado político em que esteja.

E aqui não se trata de defender PT, PL, Lula, Bolsonaro ou qualquer outro político. A questão é muito maior do que isso. Trata-se de coerência. Se você passou anos dizendo que seus valores eram baseados em princípios cristãos, então deveria saber que o valor de uma ação de caridade não pode depender da ideologia de quem recebe. Se você dizia defender a família, deveria entender que famílias inteiras podem ser afetadas quando alguém decide retirar uma campanha de arrecadação ou incentivar que um comércio seja boicotado. Se dizia defender a liberdade, deveria ser capaz de conviver com o fato de que o dono de uma loja também é livre para declarar seu voto, apoiar um partido ou defender uma ideia que você considera absurda.

No fim, talvez essa seja a parte mais triste de tudo: a política conseguiu transformar pessoas que poderiam estar unidas por uma causa simples, ajudar quem precisa,  em adversárias umas das outras. E enquanto uns comemoram a possibilidade de “dar o troco” em quem votou diferente, quem realmente precisa de ajuda continua precisando de ajuda.

A política não deveria ser capaz de apagar a humanidade de ninguém. Discordar faz parte da democracia. Criticar faz parte da liberdade de expressão. Escolher não consumir em determinado estabelecimento também é um direito. Mas transformar pessoas em alvos, criar listas para identificar quem pensa diferente e usar a solidariedade como instrumento de punição é outra coisa. É uma escolha consciente de transformar divergência política em hostilidade pessoal.

Por isso, antes de publicar uma lista de estabelecimentos para boicotar ou anunciar que não fará mais uma campanha porque determinada pessoa pensa diferente, talvez fosse interessante parar por alguns minutos e lembrar do discurso que se fazia antes. Lembrar das palavras sobre Deus, sobre família, sobre amor ao próximo. Porque a fé não pode ser apenas uma bandeira para defender quando convém. Princípio não pode ser algo que desaparece diante de uma urna. E caridade não pode ser moeda de troca política.

Se era realmente por amor ao próximo, continue sendo, mesmo quando o próximo discorda de você. Caso contrário, talvez seja hora de admitir que nunca foi exatamente sobre o próximo. Caso contrário, é hora de repensar que quem não merece estar onde está é você. 

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Fonte: www.jornalopcao.com.br