Pesquisadores japoneses desenvolveram uma técnica experimental que utiliza uma substância produzida pelas próprias células cancerígenas para fabricar compostos capazes de destruí-las. A descoberta, que representa uma nova perspectiva para o desenvolvimento de tratamentos contra o câncer, foi avaliada pelo médico oncologista Diogo Sales, do Einstein em Goiânia, em entrevista ao Jornal Opção. Segundo ele, a pesquisa apresenta uma abordagem inovadora ao propor que a própria célula tumoral seja utilizada para produzir uma substância capaz de provocar sua destruição.
“É uma ideia diferente do que a gente vem tendo ultimamente. Eles partiram do pressuposto de utilizar substâncias que já estão dentro das células para fabricar a droga dentro da própria célula do câncer”, explica.
O estudo foi liderado por Katsunori Tanaka, do Instituto de Pesquisa Pioneira Riken, no Japão, e publicado em 17 de setembro na revista científica Nature Communications. A técnica aproveita o monóxido de carbono, encontrado em níveis elevados em determinadas células tumorais, para desencadear uma reação química que resulta na produção de uma substância tóxica.
Para viabilizar o processo, os pesquisadores utilizaram o paládio, um metal que atua como catalisador da reação, transportado até as células por meio de uma nanocápsula de albumina, proteína presente no sangue. “Eles fizeram uma cápsula protetora de albumina, que funciona como um envelope, quase como um cavalo de Troia, para fazer esse paládio chegar às células. Lá dentro, ele reage com o monóxido de carbono e produz uma substância capaz de matar as células tumorais”, detalha Sales.

Pesquisa ainda está em fase inicial
Apesar dos resultados promissores, Diogo Sales ressalta que a descoberta ainda está distante de se transformar em um tratamento disponível para pacientes. Os experimentos foram realizados exclusivamente em culturas de células mantidas em laboratório, e não em animais ou seres humanos. A equipe japonesa conseguiu observar a morte de células cancerígenas em algumas das amostras testadas, mas isso não significa que a técnica já tenha demonstrado eficácia no tratamento de tumores em organismos vivos.
“A gente está no primeiro passo. Entre esse achado se transformar em alguma droga e chegar ao paciente, existe um longo caminho a ser percorrido. Isso provavelmente vai demorar alguns anos, se é que realmente estará disponível”, alerta o médico.
Sales também destaca que não é possível afirmar que a estratégia poderá ser aplicada a todos os tipos de câncer. Os testes envolveram diferentes colônias de células tumorais, incluindo amostras de câncer de fígado e de mama, mas os resultados ainda precisam ser aprofundados. Para o especialista, o principal mérito da pesquisa está na possibilidade de abrir novos caminhos para a oncologia, ao propor uma mudança na maneira de desenvolver terapias contra a doença.
“A importância é que tivemos uma ruptura de paradigma: sair do modelo tradicional de administrar uma droga para tentar construir essa droga dentro do próprio corpo, diretamente na célula cancerígena”, avalia.
Mesmo que a técnica não avance até se tornar um tratamento efetivo, o oncologista considera que a experiência poderá contribuir para novas pesquisas com propostas semelhantes. A expectativa é que os próximos estudos avaliem a segurança e a eficácia da estratégia em animais, etapa necessária antes de qualquer possibilidade de testes clínicos. “Traz esperança, sim, mas é uma esperança para o futuro. Mesmo que essa descoberta não dê certo, ela pode abrir portas para outras tentativas e novas formas de combater o câncer”, conclui Diogo Sales.
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Fonte: www.jornalopcao.com.br

