‘A Odisseia’ de Nolan substitui ética antiga por sensibilidade de 2026
Não faz sentido cobrar fidelidade literal de uma adaptação. Cinema e literatura obedecem a regras diferentes, e qualquer diretor, grande ou não, tem o direito de cortar episódios, fundir personagens ou inventar cenas.
O problema de “A Odisseia”, de Christopher Nolan, não é esse. O diretor não altera apenas a narrativa de Homero. Altera a moral que a sustenta, substituindo a ética particular da Grécia Antiga por uma sensibilidade do século 21.
Infelizmente, este texto revela acontecimentos importantes do filme, inclusive seu desfecho; esteja avisado.
Gostei: ‘A Odisseia’ de Nolan acerta ao investir em herói adulto e culpado; leia crítica de Inácio AraujoNa epopeia atribuída a Homero, concebida por volta de 700 a.C., Odisseu é admirado pela inteligência astuta que lhe permite vencer inimigos mais fortes ou escapar de situações impossíveis.
Recorrer ao estratagema, à vingança e à violência não o desqualifica como herói. Pelo contrário, o eleva. Ele pertence a um mundo regido por honra, reputação, lealdade familiar e pela intervenção direta dos deuses.
Nolan mantém boa parte das aventuras, mas seu Odisseu, papel de Matt Damon, precisa sentir culpa, precisa reconhecer os danos que provocou e precisa pagar por isso.
A transformação é clara no flashback da queda de Troia. Na tradição clássica, o cavalo representa o triunfo máximo da astúcia de Odisseu. É a arma que vence onde a força fracassou durante dez anos de cerco.
No filme, porém, ao abrir as portas da cidade para o exército grego, Odisseu assiste a estupros, saques e massacres que passarão a persegui-lo durante toda a viagem de volta ao seu reino na ilha de Ítaca.
O ardil deixa de ser uma façanha intelectual para se tornar o pecado original da narrativa. Mais adiante, o próprio Odisseu conclui que escondeu soldados dentro de um presente e, assim, violou a hospitalidade protegida por Zeus.
O crime, portanto, não estaria apenas no massacre cometido contra a população de Troia, mas no próprio método empregado para entrar na cidade: fazer de uma oferenda uma armadilha.
Para Nolan, esse gesto, essa ruptura moral, destruiu a confiança entre os homens e abriu caminho para as misteriosas invasões dos povos do mar —grupos cuja identidade permanece desconhecida e que alguns historiadores associam ao colapso das civilizações do Mediterrâneo oriental no fim da Idade do Bronze.
..É uma construção dramática engenhosa, mas pura invenção de Nolan. Toda essa atualização facilita a identificação do espectador, mas elimina parte da estranheza moral do mundo de Homero. O mesmo ocorre em outros episódios.
No texto antigo, depois de escapar de Polifemo, os companheiros repreendem Odisseu porque ele continua provocando o ciclope e coloca todos em risco. Seu erro é o orgulho, agravado quando brada o próprio nome, permitindo assim que Poseidon passe a persegui-lo.
No filme, a discussão muda de eixo. Odisseu desfere uma flechada desnecessário contra o gigante já derrotado e passa a ser censurado pela tripulação por ter ultrapassado um limite moral.
Atena também muda de natureza. No poema, ela é uma deusa que conversa com Zeus, orienta Telêmaco, protege Odisseu e interfere concretamente nos acontecimentos. O diretor transforma essa deusa numa projeção psicológica, ligada ao trauma da guerra.
Não é só Atena. O filme reduz a presença direta dos deuses e torna sua existência ambígua. Zeus é apenas citado, Poseidon se manifesta como força da natureza e Hermes é esquecido.
Apesar disso, o filme traz uma série de monstros, que fazem a festa do espectador. Com exceção das sereias, que são mostradas apenas de longe. As armaduras são impressionantes e os demais vestuários não deixam a desejar.
Já a tela verticalizada do Imax, com uma proporção parecida com os antigos televisores de tubo, soa mais uma firula de marketing tecnológico do que de fato transforma a experiência.
Quanto ao desfecho, em Homero, Odisseu mata os homens que disputam a mão da rainha Penélope, os deuses impõem a paz e o herói continua rei de Ítaca. No filme, ele entrega o trono ao filho Telêmaco, papel de Tom Holland, e parte com a rainha, Anne Hathaway, num exílio voluntário para honrar os mortos e reparar seus atos.
O curioso é que Nolan preserva o espetáculo da violência ao mesmo tempo em que altera sua interpretação moral. O filme exibe uma sucessão de assassinatos, incêndios e massacres de inocentes, mas exige que o espectador —e também seu protagonista— condene tudo aquilo.
Nada disso significa que Nolan devesse filmar o clássico como uma peça de museu. Toda adaptação é uma leitura. Mas sua “A Odisseia” traz um Homero higienizado para o público de 2026.

