Caso Banco Master: entenda passo a passo o que está sendo investigado e quem aparece nas apurações
O caso envolvendo o Banco Master deixou de ser apenas uma investigação sobre possíveis irregularidades financeiras e passou a reunir diferentes frentes de apuração, envolvendo políticos, integrantes do Judiciário, servidores públicos e dirigentes de instituições financeiras.
As investigações ganharam força depois da liquidação do Banco Master pelo Banco Central, em novembro de 2025, e da prisão do então controlador da instituição, Daniel Vorcaro. A partir da apreensão do celular do banqueiro, a Polícia Federal passou a analisar mensagens, documentos, contratos e registros de encontros que abriram novos braços da investigação.
Mas, afinal, o que está sendo investigado? Entenda, passo a passo.
1. A origem do caso: suspeitas de fraude no Banco Master
A investigação começou com suspeitas relacionadas à própria operação financeira do Banco Master.
Entre os pontos analisados estão a possível comercialização de carteiras de crédito sem lastro e a emissão de títulos que, segundo as suspeitas iniciais, o banco não teria condições de honrar.
O caso levou à liquidação da instituição pelo Banco Central e à prisão de Daniel Vorcaro, em novembro de 2025.
A partir daí, o foco da investigação foi ampliado.
2. O celular de Daniel Vorcaro abriu novas frentes
Depois da prisão, a Polícia Federal apreendeu o celular de Vorcaro.
A análise do aparelho revelou mensagens, documentos e registros de contatos do banqueiro com políticos, servidores públicos, integrantes do sistema financeiro e autoridades do Judiciário.
Os investigadores passaram, então, a apurar se algumas dessas relações ultrapassaram o campo pessoal ou institucional e envolveram vantagens financeiras, troca de informações privilegiadas ou ações que poderiam beneficiar interesses do Banco Master.
As investigações apontam para uma extensa rede de contatos mantida pelo banqueiro, com suspeitas envolvendo pagamentos, presentes, eventos e outros benefícios.
3. A Polícia Federal investiga uma possível rede de influência
Uma das principais perguntas da investigação é se Daniel Vorcaro utilizava sua proximidade com autoridades e agentes públicos para obter informações ou decisões favoráveis ao banco.
A apuração tenta identificar se pagamentos, convites para eventos, viagens, contratos ou outros benefícios teriam sido oferecidos em troca de alguma atuação relacionada aos interesses da instituição.
Essa frente é uma das razões pelas quais o caso passou a alcançar personagens de diferentes áreas do poder público.
4. Contratos envolvendo o escritório da família de Alexandre de Moraes
Outro braço da investigação analisa a relação entre Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Documentos divulgados no curso da apuração apontaram contatos entre Moraes e Vorcaro, além de contratos entre empresas ligadas ao banqueiro e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
Um dos contratos citados na investigação teria valor de R$ 131 milhões. Segundo a Polícia Federal, Moraes teria participado da revisão do documento.
Outro contrato mencionado no material previa R$ 50 milhões, com possibilidade de pagamento inclusive por meio da transferência de bens.
O escritório de Viviane Barci afirmou que não conduziu causas de Vorcaro no STF e informou que o contrato foi suspenso após a liquidação do Banco Master.
5. A relação pessoal entre Vorcaro e Moraes também entrou no radar
Além dos contratos, os investigadores analisam mensagens e encontros entre Vorcaro e Moraes.
Há registros de contatos frequentes e de encontros presenciais entre março de 2024 e agosto de 2025.
Mensagens encontradas no celular de Vorcaro também demonstrariam proximidade entre os dois.
A Polícia Federal apura ainda eventos e viagens em que pessoas próximas ao banqueiro teriam providenciado estrutura especial para convidados classificados como “ultra VIP”.
Também são analisados eventos jurídicos promovidos pelo Banco Master em Londres.
6. Polícia investiga pedido de dinheiro ligado a filme sobre Jair Bolsonaro
Outra frente do caso envolve o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Mensagens reveladas durante as investigações indicam que Flávio pediu recursos a Daniel Vorcaro para financiar “Dark Horse”, produção cinematográfica relacionada à história do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo o material divulgado, Vorcaro teria repassado R$ 61 milhões.
Flávio Bolsonaro afirma que os valores estavam relacionados a um patrocínio privado e nega qualquer irregularidade.
7. Investigação apura para onde foi o dinheiro do filme
A investigação não se limita à existência do repasse. A Polícia Federal busca identificar a origem, a aplicação e o destino do dinheiro destinado à produção.
Entre as suspeitas investigadas está a possibilidade de que parte dos recursos tenha sido direcionada para outras finalidades.
Documentos liberados no caso mostram que Flávio Bolsonaro é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Ele nega as irregularidades e defende a divulgação integral das investigações.
8. Emendas parlamentares destinadas a envolvidos no filme também são investigadas
Existe ainda uma investigação paralela envolvendo cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares.
A apuração tenta descobrir se recursos direcionados pelo deputado federal Mario Frias (PL) foram utilizados em contratos relacionados à produtora Karina Gama que não teriam sido integralmente executados.
Esse braço da investigação sobre “Dark Horse” está sob relatoria do ministro Flávio Dino.
9. Ciro Nogueira é investigado por possível atuação em favor do Master
O senador Ciro Nogueira (PP) também aparece em uma das frentes do caso. A Polícia Federal investiga se o parlamentar teria atuado no Congresso Nacional para beneficiar Daniel Vorcaro e o Banco Master.
A apuração menciona, entre outros pontos, a chamada “emenda Master”. Os investigadores também procuram esclarecer se houve pagamento de vantagens financeiras relacionado a essa possível atuação.
Ciro Nogueira nega as acusações.
10. Relação de Jaques Wagner com ex-sócio do banco é investigada
Outra investigação envolve o senador Jaques Wagner (PT). Nesse caso, a apuração está concentrada na relação do parlamentar com Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master.
Os investigadores apuram indícios de pagamentos que poderiam ter ocorrido por meio de uma empresa ligada a familiares do senador, além da aquisição de um apartamento de luxo em Salvador.
Jaques Wagner nega ter praticado qualquer irregularidade ou concedido benefícios ao Banco Master.
11. Aplicações de R$ 3,6 bilhões do Rioprevidência entram na investigação
No Rio de Janeiro, outro braço da apuração tenta esclarecer as circunstâncias de R$ 3,6 bilhões aplicados pelo Rioprevidência, fundo responsável pela previdência dos servidores estaduais, no Banco Master.
Os investigadores apuram se houve interferência na administração do fundo para permitir investimentos considerados de alto risco.
Essa frente envolve o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), que também nega irregularidades.
12. Investigação tenta identificar participação de servidores públicos
As investigações também alcançam servidores públicos, inclusive integrantes ou funcionários ligados a órgãos responsáveis pela fiscalização do sistema financeiro.
O objetivo é descobrir se informações reservadas sobre fiscalizações, operações ou decisões administrativas teriam sido repassadas previamente a Daniel Vorcaro.
A suspeita é considerada particularmente relevante porque poderia explicar como o banqueiro obtinha informações estratégicas sobre medidas que afetariam o Banco Master.
13. Operação Compliance Zero reúne diferentes braços do caso
Grande parte dessas investigações está inserida na Operação Compliance Zero. Até julho, a operação havia alcançado dez fases.
Cada etapa avançou sobre personagens, empresas, contratos e operações financeiras relacionados ao Banco Master e a Daniel Vorcaro.
O crescimento da investigação transformou o que começou como um caso financeiro em uma apuração de alcance político e institucional.
14. Mudança de relatoria no Supremo também virou parte da crise
Inicialmente, parte das investigações era supervisionada no Supremo pelo ministro Dias Toffoli.
Posteriormente, o caso passou para André Mendonça diante de suspeitas relacionadas a negócios envolvendo um fundo associado ao Banco Master e interesses ligados à família de Toffoli.
A mudança marcou uma nova etapa da investigação e antecedeu o aumento da tensão dentro do próprio STF.
15. Divulgação dos documentos provocou conflito no STF
Em setembro, André Mendonça retirou o sigilo de trechos das investigações.
A divulgação de mensagens envolvendo Alexandre de Moraes provocou uma disputa dentro do Supremo Tribunal Federal.
Moraes passou a questionar a atuação de Mendonça e pediu que sua conduta fosse investigada.
Mendonça, por sua vez, determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da instituição, Leandro Almada, alegando suspeitas de monitoramento de ministros do Supremo.
Posteriormente, Flávio Dino determinou a reintegração dos dois integrantes da PF.
16. Fachin tenta administrar crise institucional
Diante da escalada do conflito, o presidente do STF, Edson Fachin, passou a adotar medidas para reorganizar as investigações e reduzir a tensão interna.
Entre elas, assumiu a condução do inquérito das Fake News e marcou uma sessão para discutir os desdobramentos da crise.
Fachin também solicitou a abertura do sigilo de processos relacionados ao Banco Master.
A divulgação desses documentos tornou públicas investigações envolvendo diferentes autoridades.
O que a Polícia Federal tenta descobrir, afinal?
Apesar dos diferentes personagens envolvidos, as investigações giram em torno de algumas questões principais.
A Polícia Federal tenta estabelecer se Daniel Vorcaro utilizava dinheiro, contratos, presentes, relações pessoais e influência política para obter benefícios para o Banco Master; se agentes públicos atuaram em favor da instituição; se recursos financeiros circularam de maneira irregular; e se informações sigilosas foram antecipadas ao banqueiro.
Outro objetivo é rastrear a origem e o destino de valores movimentados entre empresas, políticos, escritórios e pessoas relacionadas ao caso.
As investigações ainda estão em andamento, e a presença de uma pessoa em mensagens, documentos ou inquéritos não significa, por si só, que tenha cometido crime. Caberá aos investigadores individualizar as condutas e reunir provas sobre cada uma das suspeitas.
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