A vergonha dos 12 km em um estado que carrega o Brasil nas costas

A visita do ministro dos Transportes, George Santoro, a Mato Grosso para inaugurar apenas 12 quilômetros asfaltados da BR-158 provocou uma reação legítima de lideranças estaduais e também de grande parte da população mato-grossense. O motivo é simples: diante da importância econômica do estado e da dimensão dos problemas históricos enfrentados na rodovia, a entrega desse pequeno trecho está muito distante daquilo que a região realmente precisa.

A BR-158 é uma das rodovias mais importantes para Mato Grosso. Ela corta uma região estratégica para o agronegócio brasileiro e há décadas representa sofrimento para produtores, caminhoneiros, comerciantes e moradores do Araguaia. São anos de promessas, dificuldades de trafegabilidade, prejuízos econômicos e isolamento de municípios inteiros durante períodos de chuva.

– FIQUE ATUALIZADO: Siga nossas redes sociais e receba informações em tempo real (WhatsAppTelegram e Instagram)

Por isso, a indignação demonstrada pelo secretário estadual de Infraestrutura, Marcelo Oliveira, faz sentido. Ao afirmar que “é uma vergonha” um ministro sair de Brasília para inaugurar apenas 12 quilômetros de pavimentação, ele expressou um sentimento que muitos mato-grossenses compartilham. A cobrança não é sobre a existência da obra, mas sobre a lentidão histórica do governo federal diante das necessidades reais do estado.

Marcelo Oliveira também levantou um ponto importante ao defender que a BR-158 seja transferida para o Governo de Mato Grosso. O estado tem mostrado capacidade de execução em diversas obras estruturantes e vem assumindo responsabilidades que, originalmente, seriam da União.

Um dos maiores exemplos disso é a duplicação da BR-163. Após anos de cobranças, atrasos e problemas envolvendo a concessão federal, o Governo de Mato Grosso assumiu a responsabilidade pela obra e conseguiu acelerar os trabalhos em diversos trechos considerados fundamentais para a economia estadual. A expectativa é que a duplicação avance de forma significativa até o próximo ano, mostrando que, quando existe gestão eficiente e prioridade, as obras acontecem.

Além da BR-163, o estado vem investindo fortemente em pavimentação, recuperação de rodovias e construção de pontes, alcançando números muito superiores aos apresentados pela União em Mato Grosso nos últimos anos.

O governador em exercício, Otaviano Pivetta, reforçou esse argumento ao comparar os números do governo estadual com os da União. Segundo ele, enquanto o governo federal entrega 12 quilômetros da BR-158 em um ano, Mato Grosso executa mais de mil quilômetros de obras rodoviárias no mesmo período. É uma comparação que evidencia a diferença de ritmo e prioridade entre os governos.

Outro ponto que aumentou a repercussão foi o discurso político adotado pelo ministro durante a agenda em Mato Grosso. Ao afirmar que o ex-presidente Jair Bolsonaro não realizou obras no estado e destacar ações do governo Lula, Santoro acabou transformando uma entrega técnica em um debate político. Naturalmente, isso gerou reação do governo estadual, especialmente em um estado onde o cenário político é majoritariamente conservador.

É importante reconhecer que qualquer avanço na BR-158 é positivo. A população da região espera há muitos anos pela conclusão da pavimentação. Os investimentos anunciados, incluindo os novos aportes prometidos pelo Ministério dos Transportes, são necessários e devem continuar acontecendo.

No entanto, também é necessário compreender que a população espera resultados proporcionais à importância de Mato Grosso para o país. O estado é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, tem papel decisivo na economia nacional e contribui fortemente com arrecadação e exportações. Diante disso, obras estruturantes não podem avançar em ritmo tão lento.

A sensação que fica para muitos mato-grossenses é de que o governo federal ainda trata obras essenciais como grandes feitos isolados, quando deveriam ser encaradas como prioridade absoluta. A BR-158 não precisa apenas de discursos, anúncios e cerimônias. Precisa de conclusão, planejamento e agilidade.

O povo do Araguaia já esperou demais.

*MIZAEL DUARTE é jornalista e radialista



Estadão MT