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Por Roberto Cury
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06/11/2026 às 06:00
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O exame de rotina que devia entrar na agenda todo ano vai sendo empurrado para o mês seguinte, ano após ano, e raramente é por falta de tempo. No trabalho, uma decisão parada tem prazo, tem alguém de olho no resultado, e o preço de postergá-la aparece rápido e de diversas formas: em dinheiro, oportunidade perdida ou credibilidade arranhada. Por que, então, tratamos a própria saúde de um jeito tão diferente? É porque, no fundo, seguimos achando que está tudo bem, e aquele check-up vai sendo postergado.
Essa sensação vem de uma lógica do trabalho, onde silêncio quer dizer que está tudo resolvido. Mas, no corpo, essa lógica não é a mesma, pois sintoma ausente não quer dizer que não exista algum risco. A hipertensão é o exemplo mais didático disso. Afinal, seus sintomas são pouco frequentes, mas podem surgir quando a pressão é muito superior à normal, incluindo náuseas, tontura, cansaço excessivo e dor no peito, por exemplo.
Marcar um exame exige coragem, e reduzir esse peso não é tarefa apenas do paciente. Boa parte da resistência vem do medo do que o resultado pode revelar, não da falta de agenda
No Brasil, a hipertensão já acomete 29,7% dos adultos, contra 22,6% em 2006, um salto de 31% em menos de duas décadas, segundo o Vigitel, levantamento anual do Ministério da Saúde divulgado em janeiro deste ano. Cerca de metade desses pacientes não sabe que tem a doença. Ela avança em silêncio, sem dor e sem aviso, até comprometer o coração, os rins ou os vasos que irrigam o cérebro.
Nos Estados Unidos, cerca de 1 em cada 5 infartos é silencioso. A pessoa não percebe que teve um, e o evento só aparece depois, em um exame de rotina ou investigação por outro motivo, segundo a American Heart Association. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) mostra que as doenças cardiovasculares respondem por 3 em cada 10 mortes, uma a cada 90 segundos. Boa parte desses óbitos poderia ter sido evitada com diagnóstico e tratamento antecipados.
Quando atendia no consultório, ouvia sempre uma variação da mesma frase depois desses diagnósticos: “Mas, doutor, eu me sentia bem”. Um estudo de 2025 publicado na revista científica Annals of Behavioral Medicine, com mais de 564 mil participantes em 25 países, concluiu que quase uma em cada três pessoas evita ou tende a evitar informações sobre a própria saúde diante de doenças como câncer, HIV, Alzheimer e diabetes. No fim, o exame não é feito e, quando ele se torna necessário, o tempo de reação já encolheu.
Marcar um exame exige coragem, e reduzir esse peso não é tarefa apenas do paciente. Boa parte da resistência vem do medo do que o resultado pode revelar, não da falta de agenda. É desenho de experiência: horário que caiba na rotina real das pessoas, linguagem direta sobre o que esperar e um resultado entregue de um jeito que faça a pessoa se sentir acolhida, seja qual for a notícia.
O comportamento do consumidor de saúde não muda apenas com campanha de conscientização. Um estudo nacional da Sociedade Brasileira de Experiência do Paciente e Cuidado Centrado na Pessoa (SOBREXP), em parceria com o Beryl Institute e a SoluCX, ouviu 2.794 pessoas em 2023: 98,1% dos pacientes da rede privada e 96,7% da rede pública consideram extremamente ou muito importante que o plano de tratamento seja explicado de um jeito que dá para entender.
Depois de uma experiência ruim, 13,7% das pessoas simplesmente não voltam ao mesmo profissional ou serviço, segundo o mesmo estudo. Muda quando a jornada do paciente reduz o medo e o atrito em cada etapa, do agendamento ao retorno da consulta, e cada etapa mais leve é tempo ganho no diagnóstico.
No trabalho, uma decisão parada é sinal de alerta, e alguém sempre cobra solução. Na saúde, ela pode ficar parada por anos, em silêncio, sem que ninguém cobre nada, exceto o próprio corpo. Marcar o exame pendente na agenda leva poucos minutos. É, ainda assim, a decisão de maior impacto da semana.
Roberto Cury, cardiologista e vice-presidente de atendimento e experiência do cliente na Dasa.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos
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Fonte: www.gazetadopovo.com.br

