Agosto já soma 5 feminicídios e interrompe sequência de queda em MT



Estado acumulou redução de 18,8% entre janeiro e julho, mas mantém a segunda maior taxa de feminicídios do país;

Faltando sete dias para terminar, agosto já registra cinco feminicídios em Mato Grosso, mais que o dobro das duas mortes contabilizadas em julho. O aumento interrompe a sequência recente de redução dos casos e reforça um contraste: apesar da queda de 18,8% registrada nos primeiros sete meses de 2026, o Estado ainda apresenta a segunda maior taxa de feminicídios do país.

 

Com as cinco mortes deste mês, Mato Grosso chega a 32 feminicídios em 2026, conforme dados do Observatório Caliandra, do Ministério Público Estadual (MPMT), elaborados a partir dos registros da Polícia Civil.

 

A vítima mais recente é Eliene Luzanira da Silva, de 38 anos, assassinada no último sábado (22), em Nova Bandeirantes (1.026 km ao norte de Cuiabá). O marido, Elessandro Riguer Bispo, de 35 anos, é apontado pela polícia como autor do crime.

 

O assassinato ocorreu dentro da casa onde Eliene vivia. Uma criança de 7 anos procurou um vizinho e pediu ajuda, relatando que o pai havia golpeado a mãe com uma faca.

 

A Polícia Militar foi acionada e encontrou Eliene caída no chão da cozinha, com diversas perfurações e cercada por sangue. Uma faca com marcas de sangue foi encontrada sobre a pia.

 

Elessandro fugiu depois do crime. Com mandado de prisão preventiva expedido, apresentou-se à delegacia de Nova Bandeirantes na manhã de segunda-feira (24). Em depoimento, segundo a polícia, alegou uma suposta traição como motivação para o assassinato.

 

Eliene não possuía medida protetiva contra o suspeito. Além de responsável pela criança, cuidava do pai, com mais de 70 anos.

 

O caso continua sob investigação da Polícia Civil.

 

32 MORTES — Os registros do Observatório Caliandra mostram que junho continua sendo o mês mais letal de 2026, com sete feminicídios. Março aparece em seguida, com seis.

 

Cuiabá concentra o maior número de casos no ano, com cinco mortes. Várzea Grande e Vila Bela da Santíssima Trindade aparecem em seguida, com três feminicídios cada.

 

Os cinco casos registrados em agosto chamam atenção porque ocorrem depois de o Estado apresentar redução no acumulado dos sete primeiros meses do ano.

 

Entre janeiro e julho, 26 mulheres foram vítimas de feminicídio em Mato Grosso, ante 32 no mesmo período de 2025. A diferença de seis mortes corresponde a uma redução de 18,8%.

 

Os dados fazem parte do monitoramento nacional “Panorama dos feminicídios e resultados operacionais”, divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e pelo Ministério das Mulheres, em articulação com os estados e outros órgãos envolvidos no enfrentamento à violência contra a mulher.

 

A redução colocou Mato Grosso entre as 14 unidades da Federação que apresentaram queda na comparação entre os sete primeiros meses de 2025 e de 2026. Outras duas permaneceram estáveis e 11 registraram aumento.

 

SEGUNDA MAIOR TAXA — A redução no número absoluto, porém, não retirou Mato Grosso das primeiras posições quando os feminicídios são relacionados ao tamanho da população feminina.

 

Entre janeiro e julho, o Estado apresentou 1,13 feminicídio para cada 100 mil mulheres, a segunda maior taxa do país.

 

Apenas o Amapá registrou índice superior: nove feminicídios, equivalentes a 1,90 por 100 mil mulheres.

 

A taxa mato-grossense também ficou bem acima da média brasileira, de 0,68 morte por 100 mil mulheres.

 

No país, foram registrados 848 feminicídios entre janeiro e julho deste ano, contra 876 no mesmo período de 2025. A redução nacional foi de 3,2%.

 

Para o secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas, a queda é um sinal positivo, mas insuficiente diante da dimensão do problema.

 

“Chegamos a julho com uma redução nos feminicídios e com uma trajetória de queda da média móvel nos últimos meses. São 28 mulheres que deixaram de entrar nessa estatística em comparação com o mesmo período do ano passado. É um resultado importante, mas ainda muito distante do que queremos”, afirmou.

 

Segundo ele, prevenção, proteção às vítimas e responsabilização dos agressores precisam ser ampliadas de forma articulada entre União, estados e municípios.

 

Em todo o ano passado, Mato Grosso contabilizou 54 vítimas de feminicídio.

 

DESIGUALDADE ENTRE ESTADOS — A redução nacional não ocorreu de maneira uniforme. Entre as maiores quedas percentuais registradas de janeiro a julho estão Rondônia (-64,7%), Piauí (-57,1%), Maranhão (-42,4%), Acre e Roraima (-40% cada) e Distrito Federal (-31,3%).

 

Também apresentaram redução Paraíba (-21,7%), Pernambuco (-21,1%), Mato Grosso (-18,8%), Ceará (-17,2%), Minas Gerais (-15,1%), Alagoas (-14,3%), Mato Grosso do Sul (-5,6%) e São Paulo (-1,3%).

 

Os dados mostram que a queda observada no acumulado do ano não elimina a possibilidade de oscilações mensais — como ocorre agora em Mato Grosso — nem significa que a violência tenha entrado numa trajetória permanente de redução.

 

PACTO NACIONAL — O enfrentamento à violência contra as mulheres ganhou neste ano uma nova frente de articulação com o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, acordo interinstitucional firmado pelos Três Poderes em fevereiro.

 

A estratégia prevê integrar ações de prevenção, proteção às mulheres e meninas e responsabilização dos agressores.

 

Na segurança pública, uma das iniciativas é a Operação Mulher Segura, coordenada nacionalmente pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) em parceria com as forças estaduais.

 

Consideradas as duas fases realizadas neste ano, a operação contabiliza 34,4 mil prisões no país, entre flagrantes e cumprimento de mandados judiciais.

 

Em Mato Grosso, foram 1.097 prisões até agora. A operação prossegue até dezembro, com ações de prevenção e repressão nos municípios.

 

O aumento dos feminicídios em agosto mostra, entretanto, que prisões, medidas protetivas e operações policiais são apenas parte do enfrentamento ao problema. A prevenção depende também da capacidade de identificar situações de risco antes que a violência chegue ao estágio letal.

 



Diário de Cuiabá