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OPINIÃO

Como o crédito fácil pode empurrar o consumidor para um ciclo de dívidas

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Os programas de renegociação continuam sendo necessários. O problema é acreditar que eles, isoladamente, serão capazes de interromper o ciclo da inadimplência. (Foto: Daniel Dan / Unsplash )

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O crédito deveria ser uma ferramenta para realizar planos, atravessar momentos de dificuldade ou antecipar um consumo que faça sentido dentro do orçamento. O problema começa quando ele deixa de ser uma escolha consciente e passa a funcionar como uma extensão da renda.

Hoje, contratar um empréstimo pode estar a poucos cliques de distância. Aplicativos oferecem crédito pré-aprovado, parcelamentos aparecem automaticamente nas compras e, muitas vezes, o consumidor recebe uma nova oferta justamente quando já está comprometido com outras dívidas. A facilidade de acesso, que em princípio deveria ser positiva, pode se transformar em uma armadilha quando não vem acompanhada de planejamento. É nesse ponto que surge um dos principais riscos do crédito fácil: usar uma dívida para resolver outra dívida.

Quando o salário já não é suficiente para cobrir todas as despesas, o empréstimo pode parecer a solução mais rápida. Paga-se a fatura do cartão, quita-se uma parcela atrasada ou cobre-se uma emergência. O problema é que a dívida não desapareceu. Ela apenas mudou de lugar e, muitas vezes, ganhou juros, prazo e uma nova parcela no orçamento. O consumidor passa, então, a administrar não apenas o que precisa comprar ou pagar naquele mês, mas também decisões financeiras tomadas meses ou anos antes.

Existe uma tendência de analisar o endividamento apenas pelo tamanho da dívida. Mas o número de compromissos também importa. Uma pessoa com uma dívida de R$ 20 mil pode ter uma situação financeira completamente diferente de outra que deve o mesmo valor distribuído entre cinco ou seis instituições. Quanto maior a fragmentação, mais difícil pode ser enxergar o tamanho real do problema.

Crédito é importante para a economia e pode ser fundamental para famílias e empresas. A discussão deveria ser outra: como garantir que a facilidade de contratar crédito não seja maior do que a capacidade de compreender o compromisso assumido?

Em nossa experiência acompanhando consumidores que procuram renegociar suas dívidas, encontramos justamente esse cenário: pessoas que não necessariamente deixaram de trabalhar ou perderam completamente sua capacidade financeira, mas que foram acumulando compromissos até perder o controle do orçamento. E esse é um ponto que precisa ser discutido com mais honestidade: endividamento não é sinônimo de falta de responsabilidade individual.

Imprevistos acontecem. Renda pode cair, despesas podem aumentar e decisões que pareciam administráveis podem deixar de fazer sentido diante de uma mudança de cenário. Mas também é verdade que a disponibilidade permanente de crédito cria uma sensação perigosa de que sempre haverá uma saída imediata. Só que crédito não é renda.

Talvez um dos sinais mais preocupantes seja quando o consumidor passa a considerar o limite disponível no cartão ou o crédito pré-aprovado como parte do próprio orçamento. Se uma pessoa recebe R$ 4 mil por mês e tem R$ 10 mil disponíveis para contratar, ela não passou a ganhar R$ 14 mil. Parece óbvio, mas, na prática, a fronteira entre renda e crédito pode ficar cada vez mais difícil de perceber. O crédito antecipa poder de compra, mas também antecipa compromissos.

O problema aparece quando várias dessas antecipações se acumulam. Uma compra parcelada aqui, um empréstimo ali, uma renegociação mais adiante e, quando o consumidor percebe, uma parcela significativa da renda já está comprometida antes mesmo de o mês começar. É nesse momento que o crédito deixa de ser instrumento e passa a controlar o orçamento.

Existe também um estigma que precisa ser combatido: o de que procurar uma renegociação significa admitir uma derrota financeira. Não necessariamente. Em muitos casos, renegociar pode ser justamente o primeiro passo para recuperar o controle. O mais perigoso é permanecer tentando pagar tudo ao mesmo tempo, contratar novas linhas de crédito para cobrir despesas antigas e adiar indefinidamente uma decisão que precisa ser tomada.

Renegociação não apaga o problema. Mas pode reorganizá-lo. O consumidor precisa olhar para o conjunto das suas dívidas, entender quanto realmente deve, quais juros está pagando e qual parcela cabe, de fato, no orçamento. Sem essa visão completa, existe o risco de simplesmente trocar uma dívida cara por outra e continuar preso ao mesmo ciclo.

Não acredito que a solução seja simplesmente dificultar o acesso ao crédito. Crédito é importante para a economia e pode ser fundamental para famílias e empresas. A discussão deveria ser outra: como garantir que a facilidade de contratar crédito não seja maior do que a capacidade de compreender o compromisso assumido? Quanto mais simples é contratar, mais importante se torna a educação financeira e a transparência sobre o custo daquela decisão.

O consumidor também precisa mudar a pergunta. Em vez de pensar apenas “quanto consigo pegar?”, deveria perguntar “quanto consigo pagar sem comprometer minha próxima renda?”. Parece uma diferença pequena, mas muda completamente a lógica. O crédito fácil não é necessariamente o vilão. O problema é quando ele se torna fácil demais para contratar e difícil demais para pagar.

No fim das contas, uma nova parcela pode resolver o problema de hoje e criar o problema de amanhã. E, quando isso se repete, o que parecia uma solução temporária pode transformar-se em um ciclo permanente de endividamento.

Luiz Fernando Zanqueta é head financeiro da Bravo.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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Fonte: www.gazetadopovo.com.br