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POLÍTICA

Eventos climáticos já afetaram 7 milhões de brasileiros; especialista alerta para riscos em Goiás

Os efeitos climáticos associados ao fenômeno El Niño de 2026/2027 colocam em evidência a vulnerabilidade dos municípios brasileiros diante de eventos extremos, como chuvas intensas, enchentes, secas prolongadas e ondas de calor.

Segundo dados divulgados pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), aproximadamente 7 milhões de brasileiros já foram afetados por desastres em 1.035 municípios desde julho de 2026. Segundo especialista entrevistado pela equipe de reportagem, o cenário reforça a necessidade de preparação das autoridades e da população.

A preocupação também ganhou repercussão internacional, com alguns países europeus recomendando que as famílias mantenham reservas emergenciais de água potável, alimentos não perecíveis, medicamentos e outros produtos essenciais para enfrentar possíveis interrupções no abastecimento. As orientações buscam garantir que a população consiga permanecer por pelo menos 72 horas sem depender integralmente de serviços públicos ou estabelecimentos comerciais.

No Brasil, a Federação Goiana de Municípios (FGM) repercutiu orientações da CNM sobre a atuação da assistência social e a garantia da segurança alimentar em situações de desastres. A recomendação orienta a necessidade de planejamento municipal integrado, especialmente no atendimento de famílias em situação de vulnerabilidade, que podem enfrentar maiores dificuldades de acesso a alimentos, água e serviços essenciais durante emergências.

Além das consequências imediatas, como alagamentos e danos à infraestrutura, os fenômenos climáticos extremos podem comprometer a produção agrícola, interromper rotas de transporte e provocar aumento nos preços dos alimentos. Em Goiás, onde a economia possui forte participação do agronegócio e o abastecimento depende de sistemas rodoviários e hídricos, esses riscos também preocupam especialistas.

Risco de desabastecimento

Em entrevista ao Jornal Opção, o engenheiro agrônomo, doutor em Agronomia e pós-doutor em Ciências Ambientais Antônio Pasqualetto, professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) e do Instituto Federal de Goiás (IFG), explicou que os efeitos climáticos representam apenas uma das ameaças à segurança alimentar da população.

Segundo o especialista, além das secas e chuvas extremas, conflitos internacionais, crises energéticas e interrupções logísticas podem comprometer a distribuição de alimentos, mesmo em países com elevada capacidade de produção agrícola, como o Brasil. “A fartura que temos não significa necessariamente que você possa ter uma boa distribuição. Nós já somos um país que tem extremos no acesso das pessoas, das famílias, extremos de renda e muitas pessoas em vulnerabilidade social, carentes de alimento”, afirmou.

Pasqualetto destacou que a dependência brasileira do transporte rodoviário amplia a exposição dos consumidores a possíveis crises. Isso porque qualquer interrupção na circulação de caminhões ou aumento expressivo no preço dos combustíveis pode encarecer os produtos comercializados nos supermercados.

Quando você tem guerras, como é o caso do Oriente Médio, e afeta os combustíveis, isso eleva o preço e reverbera no país, porque grande parte do transporte dos alimentos está no combustível dos veículos nas vias terrestres”, explicou.

Professor Antônio Pasqualetto | Foto: Reprodução

A preocupação também envolve os impactos diretos das mudanças climáticas sobre a agricultura. O especialista avalia que a irregularidade das chuvas e o aumento das temperaturas podem prejudicar o desenvolvimento das lavouras, reduzir a produtividade e comprometer o abastecimento.

No caso de Goiás, os efeitos podem atingir tanto municípios com forte atividade agrícola, como Rio Verde, quanto centros urbanos que dependem de sistemas complexos de distribuição, como Goiânia, Aparecida de Goiânia e Anápolis. “Afetando o sistema produtivo, você pode ter carência de oferta de alimentos e elevação dos preços e também dos custos de produção”, alertou.

Segurança hídrica é a principal preocupação

Entre os riscos associados às alterações climáticas, Pasqualetto considera a disponibilidade de água o problema mais preocupante para o Centro-Oeste. Conforme explicou, a redução das precipitações, combinada ao crescimento populacional e à expansão das atividades econômicas, aumenta a pressão sobre os mananciais.

O professor citou pesquisas que apontam redução média de 3,7 milímetros de precipitação por ano no Centro-Oeste, considerando séries históricas superiores a três décadas. O dado foi elaborado em um estudo da Universidade de Brasília (UnB).

Nós não inauguramos um rio a cada dia e nós estamos tendo um fluxo migratório para o Centro-Oeste. […] Ao mesmo tempo, esse avanço populacional para o centro do país traz consigo uma maior demanda por água”, afirmou.

O problema não se restringe aos municípios menores. Em Goiânia, por exemplo, especialista destaca que o abastecimento depende de sistemas como o reservatório do Ribeirão João Leite e o Rio Meia Ponte. Já Aparecida de Goiânia enfrenta desafios relacionados à expansão urbana e à distribuição de água em regiões mais afastadas.

Na avaliação do especialista, eventos extremos podem comprometer tanto a quantidade quanto a qualidade dos recursos hídricos disponíveis. “Quando elas [as precipitações] acontecem, acontecem em situações extremas, chuvas torrenciais fortes, e não se acumula essa água. A população fica vulnerável, seja à disponibilidade hídrica, mas também à qualidade dessa água”, explicou.

Pasqualetto também chama a atenção para a relação entre o abastecimento de água, a geração de energia elétrica e a produção agrícola. Uma crise hídrica prolongada pode atingir simultaneamente os três setores, ampliando as consequências econômicas e sociais. “Para mim, segurança hídrica é fundamental. Ela vai afetar a segurança alimentar, vai afetar a segurança energética e também interfere na questão climática”, acrescentou.

Famílias devem manter estoques de emergência, diz especialista

Diante desse cenário, o especialista considera que as orientações internacionais para a manutenção de reservas domésticas podem ser adotadas como medida preventiva pelas famílias brasileiras, inclusive em Goiás.

A recomendação não significa que exista uma previsão de desabastecimento generalizado, mas busca reduzir a dependência imediata de supermercados, farmácias e serviços públicos durante situações excepcionais.

A iniciativa já é adotada em diferentes países. No Reino Unido, uma campanha divulgada em outubro orientou os moradores a manter suprimentos suficientes para pelo menos três dias. A União Europeia também incluiu a autonomia mínima de 72 horas em sua estratégia de preparação para crises. Países como Alemanha, Suécia e Noruega trabalham com recomendações para períodos maiores.

Seria, na verdade, uma demonstração de preocupação que não se restringe só ao governo, mas à sociedade. Um princípio de precaução, de você conseguir sobreviver alguns dias sem necessariamente um apavoramento, uma situação que leva ao descontrole social”, explicou Pasqualetto.

O professor recomenda que as famílias mantenham uma reserva básica de água potável, alimentos não perecíveis, medicamentos de uso contínuo, materiais de primeiros socorros e equipamentos que possam funcionar sem energia elétrica.

Entre os alimentos citados estão arroz, feijão, macarrão, biscoitos, frutas secas, castanhas e leite de longa vida. O ideal é considerar também a possibilidade de interrupção no fornecimento de gás ou eletricidade, priorizando produtos que possam ser consumidos sem preparo.

Em relação à água, o especialista menciona uma referência de três litros por pessoa ao dia, exclusivamente para consumo. Dessa forma, uma família de cinco pessoas precisaria manter uma reserva mínima de 45 litros para três dias.

Pasqualetto também recomenda lanternas, pilhas, rádios portáteis, carregadores de celular e uma pequena quantia de dinheiro em espécie, diante da possibilidade de interrupções na internet ou nos sistemas bancários. “Essas coisas básicas, juntando ainda com alguns produtos de higiene, complementam um kit para você se manter ou manter sua família com mais segurança durante períodos de crise”, afirmou.

Municípios precisam ampliar a prevenção

Além das medidas individuais, o professor defende que o poder público desenvolva estratégias integradas para reduzir a vulnerabilidade das cidades diante de desastres.

Entre as prioridades estão a identificação de municípios com maior risco de desabastecimento, a criação de reservas estratégicas de alimentos, o fortalecimento da agricultura familiar, a diversificação das fontes de energia e o aperfeiçoamento dos sistemas de alerta.

Para ele, também é necessário que as administrações municipais realizem exercícios de preparação para emergências, com participação de escolas, universidades, hospitais e órgãos públicos. “Orientar as famílias sobre as reservas de emergência, a necessidade de preparar os municípios para interrupção de serviços essenciais e realizar exercícios de contingência e resposta”, enumerou.

A preocupação coincide com as orientações divulgadas pela FGM em 28 de outubro. A entidade repercutiu a Nota Técnica nº 17/2026 da CNM, que estabelece recomendações para a atuação conjunta do Sistema Único de Assistência Social (Suas), das equipes de Segurança Alimentar e Nutricional e dos órgãos de Proteção e Defesa Civil.

O documento orienta as prefeituras a atualizar planos de contingência, mapear áreas de risco, identificar famílias vulneráveis e organizar estruturas de acolhimento emergencial. Também recomenda que os municípios estabeleçam procedimentos de comunicação e atendimento antes da ocorrência de desastres.

“São todos cenários possíveis, mas eles dependem dessa proatividade governamental de orientar a população para que, numa situação que não está adequada, a gente fique em atenção e não tenha necessidade de entrar em estado de alerta”, concluiu.

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Fonte: www.jornalopcao.com.br