Feminicídio desafia planos dos candidatos ao Governo
A segurança pública chega à eleição de 2026 em Mato Grosso diante de dois desafios que exigem respostas simultâneas do próximo governador. De um lado estão o avanço das facções, o tráfico pela extensa faixa de fronteira, a necessidade de integração entre as polícias e o controle do sistema penitenciário. De outro, uma violência que muitas vezes começa dentro de casa e termina em morte: o feminicídio.
Os números dão dimensão ao problema.
Mato Grosso registrou 53 feminicídios em 2025, maior número desde o início da pandemia e acima da média dos anos anteriores, segundo relatório da própria Polícia Civil. O documento considera que o resultado sinaliza agravamento recente do fenômeno e aponta a necessidade de aperfeiçoamento das políticas de prevenção.
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O quadro se torna ainda mais preocupante quando são incluídas as mulheres que sobreviveram.
Foram 241 vítimas de tentativa de feminicídio em 2025, contra 171 no ano anterior. O crescimento foi de 40,9%. A taxa chegou a 12,46 vítimas por 100 mil mulheres, a segunda maior do país.
É diante desse cenário que os programas e compromissos apresentados por Otaviano Pivetta (Republicanos), Wellington Fagundes (PL), Natasha Slhessarenko (PSD) e Rafaell Millas (Missão) precisam ser confrontados.
A comparação feita pelo DIÁRIO mostra convergência em torno do uso de tecnologia, inteligência e integração das forças. As diferenças aparecem na intensidade das propostas, nas metas estabelecidas e, principalmente, na forma como cada projeto incorpora a prevenção da violência contra a mulher à política de segurança.
PIVETTA DEFENDE CONTINUIDADE E INTEGRAÇÃO
Assim como ocorre na saúde e na infraestrutura, Pivetta chega à disputa associado diretamente à política de segurança executada pelo atual Governo.
Sua proposta parte da continuidade do investimento em Polícia Militar, Polícia Civil, inteligência, equipamentos e tecnologia, com integração das forças estaduais e endurecimento da atuação contra organizações criminosas.
A expansão das estruturas municipais de segurança também entrou no debate. Pivetta tem defendido maior participação das guardas municipais, especialmente nas maiores cidades, como força complementar às polícias estaduais.
Na prática, o candidato propõe preservar uma estratégia baseada em presença policial, inteligência e integração operacional.
O teste mais difícil, porém, aparece justamente na violência contra a mulher.
Os 53 feminicídios registrados no ano passado ocorreram durante uma estrutura estadual que já dispõe de delegacias especializadas, Patrulha Maria da Penha, medidas protetivas e mecanismos específicos de enfrentamento.
Isso coloca uma pergunta inevitável para a candidatura governista: o que será modificado para impedir que mulheres já inseridas no ciclo de violência cheguem à condição de vítimas de feminicídio?
O desafio não é apenas prender o agressor depois do crime, mas identificar antecipadamente aqueles com maior risco de matar.
WELLINGTON COLOCA FEMINICÍDIO NO CENTRO
Entre os candidatos, Wellington vem procurando dar maior visibilidade política ao enfrentamento da violência contra a mulher.
A proposta defendida pelo senador incorpora a ideia de uma política estadual articulada de prevenção ao feminicídio, combinando segurança pública com assistência, saúde, proteção social e mecanismos de acompanhamento das vítimas.
Esse conceito se aproxima de uma mudança que vem ocorrendo nacionalmente na política de segurança: tratar a violência contra a mulher também como problema de gestão de risco.
O programa Mulher Segura, do Ministério da Justiça, por exemplo, trabalha com integração de dados, produção de conhecimento estratégico, avaliação de risco e coordenação entre órgãos da rede de proteção.
Isso significa identificar situações nas quais ameaças, descumprimento de medidas protetivas, perseguição, posse de armas ou histórico de agressões indiquem risco elevado de feminicídio.
A questão para Wellington será transformar a prioridade política em um modelo operacional para Mato Grosso: quem acompanha a mulher depois da denúncia, como o Estado identifica o agressor de alto risco e qual resposta é acionada quando uma medida protetiva é descumprida?
NATASHA ENFATIZA PREVENÇÃO E PROTEÇÃO
Natasha coloca a violência contra a mulher dentro de uma agenda mais ampla de proteção social.
Seu projeto dá ênfase à prevenção, ao acolhimento e à integração entre segurança, saúde e assistência, deslocando parte da resposta para antes da ocorrência do crime mais grave.
Essa abordagem é particularmente relevante porque o feminicídio frequentemente é o último episódio de uma sequência anterior de violência.
O próprio diagnóstico produzido pela Polícia Civil de Mato Grosso chama atenção para a persistência estrutural do fenômeno. Depois de relativa estabilidade entre 2021 e 2024, quando o Estado registrou entre 43 e 47 feminicídios por ano, o total voltou a subir para 53 em 2025.
A proposta de Natasha precisa ser examinada, portanto, por sua capacidade de transformar acolhimento em proteção efetiva.
Delegacia, atendimento psicológico, assistência social e medida protetiva precisam compartilhar informações e responder rapidamente quando o risco aumenta.
O desafio é especialmente grande no interior, onde municípios menores nem sempre dispõem de delegacias especializadas ou de toda a rede disponível na Capital.
MILLAS FIXA META PARA HOMICÍDIOS
Millas novamente procura diferenciar sua candidatura pela utilização de metas.
Na segurança, estabelece como objetivo reduzir em 40% a taxa de homicídios em quatro anos, combinando inteligência, tecnologia, integração entre as forças e atuação na fronteira.
O programa associa gestão da segurança a indicadores de desempenho.
A proposta tem a vantagem de estabelecer um resultado que poderá ser medido ao fim do mandato. Mas também produz uma questão específica quando confrontada com a violência contra a mulher: o feminicídio terá meta própria?
Uma redução geral dos homicídios não significa necessariamente redução equivalente dos assassinatos de mulheres por razões de gênero.
A natureza desses crimes é diferente.
Enquanto parte dos homicídios está relacionada a disputas criminais, tráfico ou conflitos entre facções, muitos feminicídios são praticados por companheiros ou ex-companheiros e acontecem dentro da residência da vítima.
Por isso, inteligência criminal tradicional e aumento do policiamento ostensivo, isoladamente, não resolvem o problema.
FACÇÕES EXIGEM INTELIGÊNCIA
Fora da violência de gênero, as organizações criminosas aparecem como um dos principais pontos de convergência dos programas.
Mato Grosso possui uma característica geográfica que amplia o desafio: faz fronteira internacional com a Bolívia e está situado em uma das principais rotas utilizadas para entrada e distribuição de cocaína no país.
O combate às facções envolve, portanto, mais do que patrulhamento das cidades.
Exige inteligência financeira, investigação patrimonial, controle das rotas, integração com forças federais, monitoramento de comunicações criminosas e atuação dentro do sistema penitenciário.
É nesse ponto que a Polícia Civil ganha importância equivalente à da Polícia Militar.
Enquanto o policiamento ostensivo atua na prevenção e resposta imediata, investigações de lavagem de dinheiro, tráfico, organizações criminosas e homicídios dependem de delegados, investigadores, peritos, inteligência e tecnologia.
A comparação dos programas deve mostrar quanto cada candidato pretende investir não apenas em viaturas e efetivo, mas na capacidade investigativa do Estado.
FRONTEIRA NÃO SE RESOLVE SOZINHA
Outro ponto que exige detalhamento é a fronteira.
Mato Grosso não controla sozinho a entrada internacional de drogas e armas. Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e outras estruturas da União possuem competências próprias.
Ao governador cabe articular as forças estaduais com essa estrutura federal.
Por isso, promessas genéricas de “reforçar a fronteira” precisam ser traduzidas em ações concretas: efetivo, bases permanentes, tecnologia, inteligência compartilhada, fiscalização das rodovias estaduais e integração com as forças nacionais.
Também é necessário acompanhar o caminho do dinheiro.
A experiência recente das operações contra facções mostra que organizações criminosas não dependem apenas da circulação física de drogas. Empresas, laranjas, contas bancárias, Pix, veículos e imóveis são utilizados para movimentar e ocultar recursos.
Combater a estrutura financeira pode produzir efeitos mais duradouros do que simplesmente substituir traficantes presos por novos integrantes.
PRESÍDIOS SÃO PARTE DO PROBLEMA
O sistema penitenciário completa essa engrenagem.
Prender mais criminosos sem impedir que organizações continuem funcionando de dentro dos presídios pode apenas deslocar o problema.
Os planos precisam responder como pretendem controlar comunicações ilegais, separar lideranças, ampliar inteligência penitenciária, ressocializar presos e impedir recrutamento de novos integrantes pelas facções.
Também existe uma questão financeira.
Mais policiais, novas unidades, tecnologia, inteligência e ampliação do sistema prisional significam despesas permanentes com pessoal e custeio.
Assim como na saúde, a pergunta não é apenas o que construir ou comprar, mas como financiar a estrutura durante quatro anos.
MEDIDA PROTETIVA PRECISA VIRAR PROTEÇÃO
No caso das mulheres, uma das questões mais importantes da eleição será a efetividade das medidas protetivas.
A ordem judicial é fundamental, mas o papel do Estado não termina quando o documento é expedido.
É preciso saber se o agressor está cumprindo a determinação e se a vítima permanece em risco.
Tecnologias como tornozeleiras eletrônicas e sistemas de alerta podem permitir respostas mais rápidas quando um agressor se aproxima de uma mulher protegida judicialmente.
Mas tecnologia sem equipes capazes de reagir ao alerta também é insuficiente.
O problema exige integração entre Judiciário, Polícia Civil, Polícia Militar, Ministério Público, Defensoria, saúde e assistência social.
A estratégia nacional adotada neste ano reforça justamente essa direção. O Centro Integrado Mulher Segura reúne inteligência, monitoramento e análise de dados para prevenção e resposta à violência de gênero.
O DESAFIO É CHEGAR ANTES
Os números de Mato Grosso ajudam a definir o critério pelo qual as propostas deverão ser avaliadas.
53 mulheres mortas. 241 sobreviventes de tentativas de feminicídio em apenas um ano.
Esses dados mostram que aumentar prisões e esclarecer crimes, embora indispensável, não basta.
A política que conseguir reduzir efetivamente o feminicídio terá de chegar à vítima antes do agressor.
Isso significa identificar risco, compartilhar informações, fiscalizar medidas protetivas, retirar armas de agressores quando determinado judicialmente, oferecer abrigo quando necessário, garantir independência econômica e assegurar resposta policial rápida.
Para Pivetta, o desafio é explicar o que mudará numa política executada por um governo do qual faz parte.
Para Wellington, será demonstrar como a prioridade dada ao feminicídio será transformada em estrutura permanente e financiada.
Para Natasha, como a prevenção e a rede de acolhimento produzirão proteção concreta, inclusive no interior.
Para Millas, como sua política de metas e indicadores tratará especificamente um crime que possui dinâmica diferente dos homicídios em geral.
A eleição oferece quatro projetos de segurança.
O resultado mais importante, porém, será medido por um indicador que nenhum governo deveria aceitar como rotina: quantas mulheres Mato Grosso continuará perdendo mesmo depois de elas pedirem ajuda ao Estado.

