Em 1975, recém-casado, mudei-me de Goiânia para Porto Alegre com minha jovem mulher. Estabelecemo-nos ali com grandes dificuldades e restrições orçamentárias, pois tínhamos assumido o sustento da minha sogra, recém-enviuvada.
Conseguimos alugar um apartamento miúdo na Rua Dr. Flores, de onde, nos intervalos do trabalho ou nos dias de folga, eu passeava pelo centro e ia descobrindo o que a nova cidade tinha a me oferecer: a Discoteca Pública Natho Henn, a Biblioteca Pública próxima ao Theatro São Pedro, que logo se tornaram meus redutos favoritos; a Aliança Francesa, onde eu e minha mulher éramos alunos; e, bem perto de casa, na mesma Rua Dr. Flores, o Instituto Goethe.
Mais ligado à cultura francesa, não me interessei por frequentar o Goethe, a não ser em uma ou outra iniciativa que não me deixou memória. Peter Naumann, ao contrário, em “Sete fragmentos para um retrato”, na edição especial do “Cadernos Porto & Vírgula” (nº 9) dedicada ao alemão Herbert Caro (1906-1991), relata tê-lo conhecido em fins de 1968, na biblioteca do Instituto Goethe, na subida da Rua Dr. Flores.

No Clube de Cultura de Porto Alegre, no bairro judeu do Bonfim, aproximei-me de um grupo de jovens escritores e tive a honra de conhecer alguns nomes famosos da Porto Alegre literária de minha mocidade, como Dyonélio Machado, Moacyr Scliar, Caio Fernando Abreu e Josué Guimarães. De Herbert Caro, infelizmente, só conheci a figura pública, em sua coluna semanal no jornal “Correio do Povo”.
Herbert Caro fugiu da Alemanha nazista do Adolf Hitler e, em 9 de maio de 1935, desembarcou no Brasil, depois de três meses de aulas de português em Berlim. Ele e Nina passaram dificuldades, mas sobreviveram
Na Discoteca Pública Natho Henn, eu ouvia discos que não eram meus. Em alguma casa da mesma cidade, Herbert Caro ouvia os dele, mais de dois mil e quinhentos, que anos depois viriam parar naquela mesma discoteca, à disposição de quem, como eu, só o conhecia de nome e de coluna.
A fama de Herbert Caro, contudo, já era grande em Porto Alegre. O amigo que me incentivou a escrever sobre ele certamente supunha que eu o havia conhecido na juventude vivida na cidade. Talvez pensasse como Rosana J. Candeloro, que, em “Um intelectual multifacetado”, no mesmo caderno, observa: “Todos conhecem um Otto Maria Carpeaux, um Paulo Rónai, um Anatol Rosenfeld. (…) Herbert Caro, por sua vez, é conhecido por muitos apenas como um nome expressivo da arte de traduzir”.

Foi quando uma adversativa inconsciente se anunciou, e a própria Rosana Candeloro é quem pergunta: “Neste país desmemoriado, que mantém na obscuridade relevantes nomes na formação da cultura nacional, quem conhece a obra interdisciplinar de Herbert Moritz Caro?”
A ordem se instalou no meu subconsciente: você tem que escrever sobre Caro, depois de ter falado de Carpeaux, Rónai, Zweig e Flusser. Neste artigo, atendo à demanda do meu editor, a quem agradeço as sugestões de leitura sobre o mestre teuto-brasileiro e, sobretudo, gaúcho.
Quem foi, afinal, o homem que eu não conheci? Fui procurá-lo no “Cadernos Porto & Vírgula”, nos olhares de quem o conheceu e no dele mesmo.

Herbert Moritz Caro nasceu em Berlim, em 1906. Estudou Direito para satisfazer o pai, renomado advogado berlinense, e chegou a doutorar-se em Heidelberg, sem muito entusiasmo, segundo Naumann. Fugiria da Alemanha de Hitler e, em 9 de maio de 1935, desembarcaria no Brasil, depois de três meses de aulas de português em Berlim, registra Rosana Candeloro. Ele e a mulher, Nina, dividiram o teto com a sogra e passaram dificuldades. Quarenta anos depois, eu viveria algo parecido na mesma cidade, em escala bem menor e sem exílio.
Os primeiros anos foram de ofícios sucessivos: aulas de línguas, faz-tudo no escritório de um exportador de couros, fábrica de ferragens e caixeiro viajante, vendendo propaganda a industriais e comerciantes desconfiados do interior gaúcho
Quem melhor situa Herbert Caro é ele mesmo. Em entrevista ao Departamento de Memória do Instituto Cultural Judaico Marc Chagall, cujos excertos o “Caderno” reproduz, ele lembra que foi excelente tenista de mesa, sete anos na seleção alemã, diretor esportivo da federação e capitão da equipe. Para ele, 1933 foi o ano em que “méritos não contavam mais” e “não havia outro caminho que não ser conscientemente judeu”.

Chegou a Porto Alegre graças a “uma chamada” de um primo de terceiro grau e, segundo ele, “sem nenhuma dificuldade”, com licença de trabalhar “desde o primeiro dia”.
Rosana Candeloro lembra que a imigração logo foi restringida e que a permanência definitiva se tornou cada vez mais difícil de obter, mas Caro diz não ter enfrentado nada disso. Os primeiros anos, porém, foram de ofícios sucessivos: aulas de línguas, joão-faz-tudo no escritório de um exportador de couros, fábrica de ferragens e, por fim, caixeiro viajante, vendendo propaganda a industriais e comerciantes desconfiados do interior gaúcho, “a época mais difícil da minha vida”. Com a guerra, o dono da empresa o despediu, e veio a Editora Globo, onde ficou nove anos. Nas suas palavras: “Trabalhei na indústria, trabalhei mais tarde na Editora Globo, trabalhei ainda mais tarde na livraria Americana”.
Quanto à língua: “Três mil palavras era capaz de ler, desde o primeiro dia; com alguma dificuldade, o Correio do Povo”.
O português de verdade, diz, aprendeu na Globo.
Sozinho, traduziu ‘Os Buddenbrook’, de Thomas Mann. O romance ‘A Montanha Mágica’, por volta de 1947, já era inteiramente minha, diz Herbert Caro. E concluiu: “Cheguei à fama de ser o melhor tradutor de alemão no Brasil”
O primeiro livro que traduziu foi “Quatro ditadores”, de Emil Ludwig, feito em dupla com Casemiro Fernandes, “que não sabia nenhuma palavra de alemão” e ajeitava o português.

Sozinho, ainda “passível de uma revisão pesada”, traduziu “Os Buddenbrook”, de Thomas Mann. “A Montanha mágica”, por volta de 1947, já era “inteiramente minha”, diz Caro. E conclui: “Cheguei à fama de ser o melhor tradutor de alemão no Brasil”.
Ele se lembra ainda que os colegas da Sala dos Tradutores respondiam a dona Nina, sua mulher, que saía da seção “Mulher e o Lar” para tirar uma dúvida de vocabulário: “Já perguntou ao seu marido? Se ele não sabe, ninguém sabe.”
A Sala dos Tradutores tinha peso. Sob a direção de Henrique Bertaso, dono da casa, e de Erico Verissimo, seu conselheiro literário, a Globo reuniu uma plêiade de tradutores que incluiu Paulo Rónai, com o projeto Balzac, Manuel Bandeira, Mario Quintana e o próprio Caro.
Sobre a adaptação aos costumes, Herbert Caro diz: “Isso é uma pergunta que só pode se fazer a alguém que nunca imigrou, que nunca foi exilado, porque o exilado não tem escolha. Quando tem alguma coisa no país que não lhe agrada, ele tem que aceitar. Ele não tem que tentar mudar o país, compreende?”

Foi Rosana Candeloro quem melhor mostrou o homem além da tradução. Caro escreveu resenhas de discos durante anos, colaborou na Revista do Globo com ensaios e artigos e, desde 1956, dava palestras sobre arte e literatura no Instituto Goethe, sempre com o seu epidiascópio. Guiou turistas alemães pelo Brasil, fez centenas de slides de paisagens e arquitetura e registrou a flora e a fauna gaúchas no livro “Isto é o Rio Grande do Sul”.
Chegou a convidar Thomas Mann para prefaciar a edição brasileira de “Os Buddenbrook”, que traduzira. O escritor, assoberbado de trabalho, pediu para ser dispensado. As cartas, lamenta Rosana Candeloro, não foram encontradas.
Percebe-se nas crônicas uma veia estilística inconfundível, domínio invejável da língua portuguesa e um humor refinado e um profundo pesar que palpita, o lado silencioso de um filho que foi privado da melodia da língua materna
Depois da Globo, Herbert Caro foi para o balcão. A Livraria Americana, antiga casa do centro de Porto Alegre, o teve por cinco anos como balconista (de luxo) e gerente da seção de livros importados, informa Rosana Candeloro. Dali nasceram as crônicas. Ele começou a redigir suas memórias de livreiro e, em intensa correspondência com Erico Verissimo, que então trabalhava nos Estados Unidos, submetia os textos ao crivo do amigo distante. Foi o autor de “Incidente em Antares” quem o encorajou, por carta, a continuar o “Balcão de Livraria”, coluna do “Correio do Povo” que daria título a um volume de dezessete crônicas, publicado em 1960 na série Aspectos, do MEC.

Os assuntos iam do trato do livreiro com clientes e fornecedores à falta de bibliotecas públicas equipadas na capital gaúcha, da penetração dos “pest-sellers”, como ele os chamava, no mercado editorial brasileiro à escassez de títulos nacionais e à “paciência da tradução”.
Numa das crônicas, lamentava: “Em minha opinião, não há bastante revistas literárias no Brasil. Há pelo menos uma, que falta, e que poderia ser de grande utilidade para muita gente – livreiros, editores e leitores.”
Para divulgar o volume, poeta e tradutor Geir Campos leu e comentou uma das crônicas no programa “Movimento Literário”, da Rádio do Ministério da Educação e Cultura, em 14 de julho de 1960.
Naumann lembra que Herbert Caro gostava de jogos de palavras, de um humor “manso e inofensivo”, e cita um que está “soterrado” numa das crônicas do livro. Descrevendo um desfile de calouros pelo centro de Porto Alegre, o escritor arremata: “Estavam presentes todas as faculdades, com exceção das mentais”.

Rosana Candeloro percebe nas crônicas “uma veia estilística inconfundível, domínio invejável da língua portuguesa e um humor não raras vezes refinado” e, sob ele, “um profundo pesar que palpita, o lado silencioso de um filho que foi privado da melodia da língua materna”, por quase vinte e cinco anos, até voltar a Berlim como turista. Percebe também um “empolamento” que causa estranheza, dada a condição de dicionarista do autor.
Naumann o via muito mais como alemão do que como judeu. Sua condição judaica lhe parecia comparativamente secundária e mesmo marginal, discretamente indicada, na biblioteca, por um retrato emoldurado de Mendelssohn
Por que um dicionarista escreveria assim? Uma resposta está em Naumann. Quando Caro chegou, segundo ele, a medida do bom português no Rio Grande do Sul era Ruy Barbosa na prosa e os parnasianos na poesia, com gosto por palavras raras e empoladas, pela mesóclise e pela norma tácita de que assuntos elevados, como a cultura, pediam linguagem elevada.
Encarregado, na Globo, de vários dicionários escolares, entre eles um latino-português e um português-alemão, Herbert Caro leu o dicionário de Cândido de Figueiredo de A a Z e lançou assim as bases de um conhecimento do léxico que Naumann chama de prodigioso e que, sem a “camisa-de-força” da gramática e da estilística normativas de então, teria sido mais bem aproveitado.

O resultado eram textos bem-comportados, de ideias quase sempre também. Caro escreveu certa vez que o pianista Roberto Szidon “tinha estudado sob a égide de Ilse Warncke”, professora de ambos. Quem conhecesse Ilse Warncke, observa Naumann, não conseguiria imaginá-la segurando uma égide por cima do jovem Szidon (aos leitores mais jovens, informa ele, égide é sinônimo de escudo. No caso citado, significa, possivelmente, “orientação”).
Em alemão, o homem era outro: um “interlocutor espirituoso e mordaz”, apaixonado pelos escritores de estilo aforístico, esgrimistas de “paradoxos lapidares”, e por “Die Tante Jolesch”, de Friedrich Torberg, retrato da conversação dos círculos literários de antes de 1933 e 1938.
Todas as tardes, de segunda a sexta, às 15h, tomava um cafezinho com o médico Alexander Preger, também imigrante alemão de origem judaica, num bar da Rua Andrade Neves, “perpetuando ao sabor de um cafezinho bem brasileiro a sociabilidade do intelectual berlinense do fim dos anos vinte”. Quando Naumann levou o escritor Christoph Meckel à casa de Caro, no início dos anos oitenta, a conversa, que Meckel achou fantasmagórica, “girou apenas em torno da Alemanha e de Berlim até 1933, como se os acontecimentos posteriores não tivessem ocorrido”.
A “máscara brasileira”, conclui Naumann, tornou-se quase uma segunda natureza, foi tomada pelo público como verdadeira, mas “no fundo, ela sempre foi uma máscara”. Herbert Caro foi até o fim da vida o mesmo judeu berlinense, nascido em 1906 e ligado por laços indissolúveis à sua cidade natal e ao ambiente cultural de sua infância e juventude.

Naumann lembra que Herbert Caro, como muitos judeus alemães, recebeu “uma educação basicamente laica”, como ele próprio lhe disse várias vezes. No século XIX, explica, uma das melhores vias de ascensão social para um judeu alemão era participar da cultura burguesa do país, na literatura e na música, o que significava emancipar-se “das estreitezas da condição judaica” numa sociedade de antissemitismo profundamente arraigado.
Naumann o via, em 1968 e depois, “muito mais como alemão do que como judeu”. Sua condição judaica lhe parecia “comparativamente secundária e mesmo marginal”, discretamente indicada, na biblioteca, por um retrato emoldurado de Moses Mendelssohn.
A viúva, Nina, contou-lhe, ainda em 1992, que Herbert Caro chegou ao Brasil “sem o menor interesse pelas tradições culturais e religiosas do judaísmo”. Foi o exílio, diz Naumann, e as notícias do Holocausto que “despertaram nele a consciência da sua origem, da existência de algo que ultrapassava os limites da construção autônoma da sua identidade”. Passou a frequentar a sinagoga e foi um dos fundadores da Sociedade Israelita Brasileira de Cultura e Beneficência (Sibra), que reunia judeus de origem alemã.
Nina disse a Naumann que ele assumia cada vez mais essa origem “em solidariedade aos seus companheiros de exílio”, e o próprio Herbert Caro lhe contou, no início dos anos oitenta, que era um dos poucos judeus de Porto Alegre que ainda sabiam recitar as velhas orações fúnebres, o que lhe valia muitos convites para velórios. Cumpria esse dever piedoso, escreve Naumann, “sem alarde, discretamente”.

Havia, porém, um silêncio. Naumann recorda que, no início dos anos setenta, à medida que compreendia as consequências do golpe de 1964, o AI-5, as cassações nas universidades, as prisões e as torturas, custava-lhe entender por que Herbert Caro, que fugira da Alemanha de Hitler, não se sensibilizava com esses crimes, diferentemente do seu grande amigo Erico Verissimo, que teria recusado o título de doutor honoris causa da UFRGS por não poder aceitar tal honraria de uma universidade que cassara professores. “Não quero justificar essa atitude do velho amigo, mas creio poder compreendê-la melhor nos dias atuais.”
Como muitos intelectuais alemães de inclinação liberal, escreve Naumann, Herbert Caro “percebia a política como algo imundo, negativo. O melhor era ficar de fora e não sujar as mãos.” E talvez houvesse uma segunda razão, “ditada pela milenar prudência do judeu errante”: por que ele, emigrado da Europa para não ser enxotado ou encaminhado “à solução final”, haveria de “se meter em embrulhos”?
O cronista Luis Fernando Verissimo escreve que Herbert Caro era um torcedor convicto e constante do Internacional. O tradutor e sua mulher, Nina, não perdiam jogos no Beira-Rio. Ele tinha um boteco de estimação
Outro olhar, mais caloroso, vem de Luis Fernando Verissimo, para quem o tradutor Caro foi um “torcedor convicto e constante do Internacional”. Em “Um porto-alegrense sem restrições”, crônica escrita especialmente para o Caderno, ele diz que Herbert Caro e dona Nina “não perdiam jogos no Beira-Rio”.

Luis Fernando Verissimo acrescenta que Herbert Caro tinha seu “boteco de estimação” na Rua Andrade Neves, e que nada podia ser mais distante de um café de Berlim ou Viena do que o bar do Espanhol, “e, no entanto, ele o frequentava sem qualquer condescendência”.
O cronista Luis Fernando Verissimo publicava na sua coluna do jornal “Zero Hora” as cartas de Caro, “cheias de humor fino”, e ouviu dele, orgulhoso, um limerick de sua autoria, que talvez fosse o único limerick brasileiro.
Se Naumann fala em máscara, Luis Fernando Verissimo fala em afeto: Caro manejava o português com “a criatividade afetuosa que toda inteligência superior traz para uma língua adotada”. E resume: “Tornou-se um porto-alegrense sem restrições – salvo, talvez, a alguma arbitragem em Grenal. E Porto Alegre tornou-se mais inteligente e humana com ele”.
Na mesma Porto Alegre, eu ia aos jogos do Grêmio. Éramos, sem saber, rivais de arquibancada.

Moacyr Scliar, também era de origem judaica, escreveu para o “Caderno” o texto “Vidas marcadas pelo desterro”. Abre dizendo ter tido com Herbert Caro “um contato um pouco mais que ocasional”: via-o em concertos, exposições e conferências e o encontrava algumas vezes por ano na casa dos sogros, a quem ele e Nina eram muito ligados. Eu não tive nenhum contato com o tradutor.
Scliar lembra “um homem suave, discreto, sempre amável, sempre sorridente”, mas sabia que, por trás dessa aparência tranquila, “ocultava-se um passado de sofrimento”. Herbert e Nina Caro, como muitos judeus alemães, tiveram suas vidas “marcadas pelo desterro” e encontraram no Brasil, como tantos outros, “um abrigo seguro e confortante”.
Fritz Oliven, amigo de Caro, que, sob o pseudônimo de Rideamus, foi um dos mais famosos libretistas da Alemanha e era avô de Judith, mulher do escritor Moacyr Scliar. A obra de Oliven “ainda está para ser revelada ao Brasil
Não era fácil a vida desses exilados, nota Scliar: privados de casas, amigos e bens, estavam também distantes de suas origens culturais. “A língua que se falava ao redor deles não era o alemão – e todos sabem o que é, para quem escreve, o idioma natal.”
Herbert Caro compensou essa carência com uma “dupla paixão, pelos livros e pela música erudita”. Scliar nunca viu “alguém gostar tanto de livros” nem “alguém gostar tanto de música”. Herbert Caro viveu entre os livros na extinta Livraria Americana, de onde saíram as “saborosas crônicas de ‘Balcão de Livraria’, uma obra muito original”, e na própria biblioteca, de cuja “belíssima coleção” Scliar nunca se perdoou por não ter ficado com alguns livros.
Ao lado dele estava Nina, “ela mesma autora de livros infantis e uma pedagoga nata”. “Como muitos casais sem filhos, Herbert e Nina desempenhavam entre si também os papéis de pai e mãe. Ela não sobreviveu muito tempo a ele.”
Um dia, diz ainda Scliar, “será preciso contar a história dos numerosos intelectuais que o nazismo expulsou”.

Stefan Zweig e Otto Maria Carpeaux lhe vêm logo à memória, e ele acrescenta um nome menos conhecido do público brasileiro: Fritz Oliven (1874-1956), amigo de Herbert Caro, que, “sob o pseudônimo de Rideamus [do latim, “Vamos rir”], foi um dos mais famosos libretistas da Alemanha” e era avô de Judith, mulher de Scliar. A obra do escritor, poeta e librebista Oliven, afirma, “ainda está para ser revelada ao Brasil”. Zweig, Carpeaux, Rónai e Flusser já tiveram a sua vez nesta série de ensaios sobre a diáspora de escritores da Europa Central.
Voltemos à pergunta de Rosana Candeloro: quem conhece a obra de Herbert Moritz Caro? A resposta, em Porto Alegre, está espalhada: nas várias traduções e nos mais de dois mil e quinhentos discos da Discoteca Natho Henn, nos livros de arte do Instituto de Artes da UFRGS, nos papéis do Instituto Marc Chagall, na biblioteca de literatura alemã que Naumann guarda em casa, nas traduções de Thomas Mann que ele deixou. Ele traduziu também um romance excepcional do escritor e filósofo Elias Canetti — “Auto-de-Fé” (que lhe deu o Nobel de Literatura) — e “A Morte de Virgílio”, de Hermann Broch.

Quinze anos depois da morte de Herbert Caro, Michael Korfmann, do Instituto de Letras da UFRGS, já via em torno dele traços de lenda, em “Herbert Caro ou o tradutor como lenda”, na revista “Contingentia”. O alemão de aparência severa e humor velado, presença certa aos sábados de manhã numa loja de discos eruditos, virara até personagem de “As Confissões de Lúcio”, romance de Fernando Monteiro.
A melhor correção para a lenda talvez esteja no próprio Herbert Caro. Ao encerrar uma das crônicas do “Balcão de Livraria”, ele avisava: “Os compositores de obras musicais costumam dar indicações quanto ao modo como deve ser tocada esta ou aquela peça. Entre os cronistas não existe este hábito. Mesmo assim aviso aos meus leitores que este ‘Balcão’ carece ser lido con amore.”
Eu, que nunca encontrei o tradutor teuto-brasileiro, só pude recorrer ao texto, e tentei lê-lo assim.
Scliar, que o tratou um pouco mais que ocasionalmente, também: “Figuras como Herbert Caro que, à semelhança de Montaigne e de Borges, habitam o mundo da palavra escrita, são cada vez mais raras; a explosão das comunicações expulsa-as para redutos cada vez mais restritos. Mas para falar de Caro, eu tive de recorrer ao texto. E, enquanto existir texto, a comunidade espiritual da qual Herbert Caro fez parte continuará viva.”
Referências bibliográficas
CANDELORO, Rosana J. Um intelectual multifacetado. Cadernos Porto & Vírgula, n. 9. Porto Alegre: UE/Porto Alegre, 1995. p. 11-15. Publicado, com cortes, no Caderno Mais da Folha de S. Paulo, 1º jan. 1995.
CARO, Herbert. Balcão de Livraria (III). Cadernos Porto & Vírgula, n. 9. Porto Alegre: UE/Porto Alegre, 1995. p. 71.
CARO, Herbert. O exilado não tem escolha. Excertos de entrevista ao Departamento de Memória do Instituto Cultural Judaico Marc Chagall; seleção de Ida Berger. Cadernos Porto & Vírgula, n. 9. Porto Alegre: UE/Porto Alegre, 1995. p. 59-61.
KORFMANN, Michael. Herbert Caro ou o tradutor como lenda. Contingentia, Porto Alegre, v. 2, p. 29-35, maio 2007. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/contingentia/article/view/3853/2151 . Acesso em: 16 out. 2026.
NAUMANN, Peter. Sete fragmentos para um retrato. Cadernos Porto & Vírgula, n. 9. Porto Alegre: UE/Porto Alegre, 1995. p. 17-22.
SCLIAR, Moacyr. Vidas marcadas pelo desterro. Cadernos Porto & Vírgula, n. 9. Porto Alegre: UE/Porto Alegre, 1995. p. 47-48.
VERISSIMO, Luis Fernando. Um porto-alegrense sem restrições. Cadernos Porto & Vírgula, n. 9. Porto Alegre: UE/Porto Alegre, 1995. p. 49-50.
O post Herbert Caro, o tradutor-ponte entre o leitor brasileiro e a literatura alemã… de Thomas Mann, Elias Canetti e Hermann Broch apareceu primeiro em Jornal Opção.
Fonte: www.jornalopcao.com.br

