Lições que o Equador pode ensinar ao Brasil e a Goiás para estas eleições

O Equador, país sul-americano com pouco mais de 18 milhões de habitantes, é governado desde 2023 por Daniel Noboa, empresário que chegou à Presidência pelo partido Ação Democrática Nacional (ADN) com um discurso de direita marcado, sobretudo, pela promessa de enfrentar o crime organizado e recuperar a segurança de um país mergulhado em uma grave crise.

Quito, a capital equatoriana, é em parte bela. Seu centro histórico preserva prédios coloniais, igrejas centenárias e ruas de pedra que contam parte da formação do país. Mas é também, em alguma medida, temerosa. A sensação de insegurança aparece nas conversas, nas recomendações sobre onde não ir e na forma como os próprios moradores falam sobre o futuro.

Em minhas andanças, tive a oportunidade de conhecer a capital do Equador e perceber de perto como alguns equatorianos enxergam os rumos do país. Claro, conversas de rua não substituem pesquisas ou estatísticas, mas ajudam a dar rosto aos números e, principalmente, a compreender como decisões tomadas no Palácio de Carondelet chegam à vida cotidiana.

Uma equatoriana, cujo nome será preservado, administra um hostel instalado em um antigo casarão familiar no centro histórico de Quito. Ela não demonstra muito otimismo. “Yo voté para Noboa, pero…”, disse. Depois do “mas”, veio um relato marcado por insegurança e preocupação com o futuro.

Para ela, o país não melhorou nos últimos anos e, em determinados aspectos, piorou. “No es un gobierno que se preocupe por lo social”, afirmou enquanto preparava café. A frase poderia ser apenas a frustração de uma eleitora arrependida. Os indicadores sociais, porém, tornam mais difícil descartá-la dessa maneira.

Segundo o site Prensa Latina, os primeiros anos do governo Noboa foram acompanhados pelo avanço da pobreza multidimensional e da desigualdade, especialmente nas cidades. Dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos (INEC) citados pela publicação mostram que a pobreza multidimensional urbana passou de 23% em dezembro de 2023 para 29,9% no mesmo mês de 2025.

No campo, o comportamento foi diferente. O índice estava em 67,9% no final de 2023, chegou a 71,25% em 2024 e recuou para 66,9% em dezembro de 2025, praticamente retornando ao nível registrado antes do início da gestão Noboa.

Os números ajudam a desmontar uma das facilidades mais convenientes da política: vender soluções simples para problemas complexos. Um governo pode transformar autoridade em slogan, força em método e segurança em principal ativo eleitoral. Isso não significa, contudo, que conseguirá produzir resultados duradouros.

Alberto, o motorista de Uber que me buscou no aeroporto, falou justamente sobre segurança pública. “Es evidente cuánto ha aumentado el poder de los cárteles”, disse enquanto apontava regiões de Quito onde recomendava que eu não fosse.

A preocupação tem base nos números. Conforme a BBC, a escalada da violência levou Noboa a militarizar o enfrentamento ao crime organizado no início de 2024. Em janeiro daquele ano, o presidente reconheceu oficialmente a existência de um conflito armado interno e colocou as Forças Armadas no combate a mais de 20 organizações criminosas.

A estratégia produziu resultados nos primeiros meses, mas o efeito não se sustentou. Em 2025, o Equador contabilizou cerca de 9,2 mil homicídios, número aproximadamente 30% superior ao registrado em 2024. A promessa de recuperar o controle do país esbarrou em uma realidade mais resistente do que o discurso de força.

As denúncias de extorsão recuaram 40% na comparação com 2024, segundo a Procuradoria-Geral do Estado, e os registros de sequestro apresentaram pequena queda. Nada disso, porém, apaga o dado mais brutal: a explosão dos homicídios fez de 2025 um dos anos mais violentos da história recente do Equador.

Aliás, é modus operandi: extrema direita é eficiente em transformar medo e indignação em voto. Promete ordem, autoridade e soluções rápidas pra problemas construídos durante décadas. Mas o resultado é sempre um desastre.

O Brasil vai lidar novamente com esse discurso nas urnas. Flávio Bolsonaro carrega o DNA do pai no corpo e também na política, e embora tente vestir uma roupagem mais moderada, sua trajetória, suas alianças e o projeto político que representa tornam difícil vender a ideia.

Também em Goiás, ocorre movimento diferente, mas revelador. Wilder Morais construiu durante boa parte de sua trajetória a imagem de um político moderado. Nos últimos anos, porém, decidiu abraçar o bolsonarismo mais radical e fazer dele parte de sua identidade política.

Daniel Noboa e o Equador oferecem, sim, uma lição que ultrapassa em muito suas fronteiras. O Equador sob a extrema direita revela o tamanho da distância entre a promessa de ordem e o que efetivamente sobra depois da campanha.

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