Médico investigado por lavagem é capturado pela Interpol na Bolívia

Um médico brasileiro de 38 anos, investigado por suposta participação em um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao crime organizado em Mato Grosso, foi localizado e preso na Bolívia após ser incluído na lista de procurados da Interpol.

A captura ocorreu em uma ação articulada entre autoridades bolivianas, a Interpol e a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco) de Sinop. Contra o investigado havia mandado de prisão preventiva expedido pela 5ª Vara Criminal de Sinop no âmbito da Operação Codinome Fantasma III.

Ele é investigado pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro e havia sido incluído na difusão vermelha da Interpol, mecanismo utilizado para localizar internacionalmente pessoas procuradas pela Justiça.

A prisão na Bolívia representa um novo desdobramento de uma investigação que busca atingir principalmente a estrutura financeira de uma facção criminosa atuante na região norte de Mato Grosso.

A terceira fase da Codinome Fantasma foi deflagrada em 24 de março deste ano pela Draco de Sinop. Foram expedidos quatro mandados de prisão preventiva, 27 de busca e apreensão e 30 ordens de bloqueio de contas bancárias. A Justiça também determinou a apreensão de veículos, suspensão das atividades de quatro empresas e sequestro de nove imóveis. Os bens alcançados pelas medidas somavam mais de R$ 10 milhões.

O objetivo declarado pela Polícia Civil era atacar o núcleo financeiro da organização, suspeito de utilizar empresas e outras estruturas para ocultar e dar aparência legal ao dinheiro obtido por meio de atividades criminosas.

A operação alcançou diferentes municípios de Mato Grosso e teve ordens cumpridas também fora do Estado.

ESQUEMA COMEÇOU A SER INVESTIGADO EM 2024 – A Codinome Fantasma é resultado de uma investigação iniciada ainda em fevereiro de 2024, quando a Polícia Civil identificou em Sinop um esquema que reunia tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e comércio ilegal de armas de fogo ligado a uma organização criminosa.

Na primeira fase, deflagrada em outubro daquele ano, a Justiça expediu 143 ordens judiciais, entre elas 63 mandados de prisão, 65 de busca domiciliar e 14 bloqueios de contas bancárias.

As diligências alcançaram Sinop, Sorriso, Cuiabá, Colíder e São José do Rio Claro. Cerca de 250 policiais participaram da operação.

A investigação identificou uma distribuidora de gás e água mineral em Sinop que, segundo a Polícia Civil, era utilizada para lavar recursos provenientes do tráfico.

O dinheiro era inicialmente movimentado por contas de diversas pessoas ligadas a um dos investigados. Depois, os valores chegavam à distribuidora, que simulava operações comerciais e permitia que os recursos retornassem à organização com aparência de origem lícita.

O primeiro grande ataque à estrutura terminou com dezenas de prisões. No balanço inicial, foram 43 alvos presos em cumprimento de ordens judiciais e outras 23 pessoas em flagrante, além da apreensão de dinheiro, armas e veículos.

SEGUNDA FASE CHEGOU AO SISTEMA PRISIONAL – A investigação avançou em maio de 2025, quando a Polícia Civil deflagrou a Codinome Fantasma II.

Nessa etapa, foram cumpridas 94 ordens judiciais, incluindo 31 mandados de prisão, 51 buscas e apreensões e 12 determinações de bloqueio de contas e sequestro de bens.

As apurações passaram a alcançar também suspeitas de corrupção e entrada clandestina de celulares e outros materiais na Penitenciária Osvaldo Florentino Leite Ferreira, o Ferrugem, em Sinop. Um policial penal figurou entre os presos.

A sucessão das três fases mostra uma mudança de foco. Depois de alcançar integrantes envolvidos diretamente com tráfico, armas e apoio à organização, a investigação passou a concentrar esforços na estrutura utilizada para movimentar e ocultar o patrimônio produzido pelo crime.

Foi justamente esse o objetivo anunciado para a terceira fase, que resultou no bloqueio e sequestro de mais de R$ 10 milhões em bens e alcançou o médico posteriormente localizado na Bolívia.

PAPEL DO MÉDICO AINDA NÃO FOI DETALHADO – Apesar da captura internacional, as informações divulgadas até agora não detalham qual função específica a Polícia Civil atribui ao médico dentro do núcleo financeiro investigado.

Também não foi informado quanto dinheiro teria passado diretamente por contas, empresas ou operações relacionadas ao investigado, nem quando ele deixou o Brasil e por que escolheu a Bolívia como destino.

Esses pontos são importantes para determinar se a suspeita é de que o profissional tenha atuado diretamente na movimentação dos recursos, utilizado patrimônio ou atividade econômica para ocultar valores ou desempenhado outra função na estrutura investigada.

O fato de existir uma prisão preventiva expedida pela 5ª Vara Criminal de Sinop e uma difusão vermelha da Interpol indica que o investigado era considerado foragido, mas não representa condenação.

Com a localização na Bolívia, deverão ser adotados os procedimentos de cooperação internacional necessários para o cumprimento da ordem judicial brasileira e sua apresentação à Justiça.



Diário de Cuiabá