Soraya Castro
Especial para o Jornal Opção
Há quem guarde frases de livros. Eu guardo estruturas. Esqueço nomes, confundo enredos, troco datas, mas não esqueço a forma como certos textos se organizaram dentro de mim.
O monólogo de Molly Bloom, que fecha “Ulisses” de James Joyce, é uma dessas formas. Oito longos blocos quase sem pontuação, uma mulher deitada na cama, de madrugada, pensando em tudo ao mesmo tempo: o marido, os amantes, o corpo, a juventude em Gibraltar, o café da manhã que ele teve a audácia de pedir na cama. Para mim, é a maior expressão do pensamento feminino já posta no papel. (Que tenha sido escrita por um homem é uma ironia que a literatura ainda não terminou de digerir, e eu também não.)
Molly pensa como se pensa de verdade, sem pedir licença à gramática, e termina com um “sim” que talvez seja a palavra mais afirmativa da literatura do século XX.

Foi essa estrutura que voltou à minha cabeça enquanto lia “O Que Ela Sussurra”, romance de Noemi Jaffe publicado pela Companhia das Letras. E foi por causa dela que percebi o que o livro tem de mais singular.
Noemi Jaffe é escritora, crítica e professora, e sua obra gira há anos em torno da memória e do testemunho, de como se preserva aquilo que alguém tentou apagar. Neste romance, ela empresta a voz a uma mulher real, Nadejda Mandelstam, esposa do poeta russo Óssip Mandelstam.
Nadejda admite que os mais de 20 anos sussurrando não serviram apenas para salvar os poemas do esquecimento; serviram também para continuar perto de Mandelstam.. O sussurro é arquivo, mas também é corpo — o jeito que um amor encontrou de não morrer
A história verdadeira é dessas que a ficção hesitaria em inventar. Em 1933, Óssip escreveu um poema satirizando Stálin e o leu para um pequeno grupo de amigos. Bastou um ouvido a mais. Foi preso, exilado, preso de novo, e morreu em 1938 num campo de trânsito a caminho do gulag. Nadejda passou as décadas seguintes mudando de cidade, sem casa fixa, guardando a obra do marido do único jeito que o regime não conseguia confiscar: decorando. Poema por poema, verso por verso. Papel podia ser apreendido; a memória de uma mulher, não. Detalhe que parece inventado por um romancista sem pudor de simbolismo: em russo, Nadejda significa esperança.

O romance é narrado por ela, em primeira pessoa, quase sempre dirigido a Óssip, já morto. Stálin quase não aparece como personagem. Nem precisa. Está nos telefonemas mudos, nos vizinhos atentos, nos amigos que talvez sejam informantes. Óssip, por sua vez, aparece o tempo todo, sempre filtrado pela lembrança dela.
Enredo, no sentido convencional, quase não há. Noemi não conta a vida de Nadejda em ordem, deixa que ela pense. Em certo momento, a própria narradora descreve o método: sua memória anda pelo tempo “como se ele fosse uma rua de terra seca”, tropeçando em valas, levantando, batendo numa porta que, quando finalmente se abre, revela que ela “estava do lado de dentro”. Não conheço descrição melhor do próprio livro. Lemos menos uma narrativa e mais uma cabeça funcionando, como em Molly. E, no meio desse fluxo, surgem os versos de Óssip, encravados na prosa, inteiros, sem licença para mudar.

É aqui que as duas mulheres se separam. O pensamento de Molly é livre de verdade, ela divaga porque ninguém exige nada daquela cabeça de madrugada. O de Nadejda também divaga, mas tem plantão. Ela mesma se define, com humor seco, como “a chata de plantão”, sempre de guarda para que Óssip não falasse demais diante de quem não devia. E, quando formula sua ideia de liberdade, diz que ela é “a escolha de fazer o que se deve”. Molly diz sim ao que deseja. Nadejda diz sim ao que precisa ser guardado.
A prosa da escritora brasileira Noemi Jaffe é lírica do começo ao fim, e lirismo constante cobra seu preço, pois, quando toda frase quer ser bonita, a beleza perde o relevo. O curioso é que os melhores momentos do livro sobre os Mandelstam são justamente os secos
Há uma cena pequena que resume tudo isso, e foi a que mais ficou comigo. À espera de uma busca policial, numa cozinha sem nada, Óssip chega carregando um único ovo. Nadejda o cozinha, descasca, porém ninguém come. O ovo fica ali na mesa, observado, esperando com eles a chegada da polícia. Na margem da página, anotei “O ovo e a galinha — Clarice”. Não resisti. Na minha leitura do conto, a galinha é só o meio de que o ovo precisa para atravessar o tempo. Nadejda, naquela cozinha de Moscou, também contempla algo que não se come, só se guarda. E, como a galinha de Clarice, passará a vida servindo de passagem para uma coisa maior do que ela.

A partir daí, o livro fica mais perturbador. Nadejda queria ser pintora e deixou de ser, porque Óssip a queria inteiramente dedicada a ele e aos seus poemas. Ela não sabe dizer se foi impedida ou se escolheu, e a dúvida aparece numa pergunta que me fez parar a leitura: “Mas o que eu queria, o que eu quero?”. Uma mulher cuja interioridade foi, em parte, ocupada pela obra de outro. Mais adiante, ela admite que os mais de vinte anos sussurrando não serviram apenas para salvar os poemas do esquecimento; serviram também para continuar perto dele. O sussurro é arquivo, mas também é corpo. Foi o jeito que um amor encontrou de não morrer.
Talvez por isso a comparação com Joyce seja tão fértil e incômoda. Molly é a voz feminina que um homem imaginou e à qual deu a última palavra do livro. Nadejda passou a vida a serviço da palavra de um homem, e agora uma mulher a imagina e lhe entrega o livro inteiro. Há algo de reparação nisso. Só que, mesmo protagonista, Nadejda continua orbitando Óssip. Li isso primeiro como fraqueza, depois como a própria tragédia da personagem. Hoje acho que são as duas coisas.
O modo como uma mulher (Nadejda Mandelstam) pensa sob vigilância, depois do luto, carregando uma obra inteira na cabeça, é um documento histórico. Noemi escreveu um romance sobre a memória que se comporta como a memória: aos pedaços, insistente
Só que tudo me convenceu. A prosa de Noemi é lírica do começo ao fim, e lirismo constante cobra seu preço, pois quando toda frase quer ser bonita, a beleza perde o relevo. O curioso é que os melhores momentos do livro são justamente os secos. Quando Nadejda comenta que pior do que ser informante é “ser um informante desinformado”, ou quando desmonta a expressão “mal necessário” com a lógica de quem perdeu a paciência, aparece a mulher mordaz que conhecemos pelas memórias que ela própria escreveu. Essa Nadejda existe no romance, mas em lampejos, quase sempre afogada pela melancolia. Eu, que tenho fraqueza por mulheres de língua afiada, queria mais dela.

E há uma ironia que o livro não explica, nem precisa. É justamente Nadejda, a Esperança, quem diz, num dos trechos mais lúcidos do romance, que “a doença da esperança é a doença da palavra ‘Revolução’”. A mulher chamada Esperança desconfia da esperança. E sobreviveu a ela.
“O Que Ela Sussurra” entende que a forma também é testemunho. O modo como uma mulher pensa sob vigilância, depois do luto, carregando uma obra inteira na cabeça, é ele próprio um documento histórico. Noemi escreveu um romance sobre a memória que se comporta como a memória: aos pedaços, insistente, fora de ordem, fiel apenas ao que importa.
Molly termina dizendo sim. Sim ao desejo, ao corpo, à lembrança de um pedido de casamento entre flores. Nadejda também disse sim, à sua maneira: sim a uma vida inteira de vigília, sim a cada verso repetido no escuro para não se perder. Só que disse baixinho. Foi o único volume que a história lhe permitiu.
Às vezes, o sim mais corajoso é o que se sussurra.
Soraya Castro, escritora e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.
Poema de Mandelstam sobre Stálin
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra¹
Vivemos sem sentir o país sob os pés,
Nem a dez passos ouvimos o que se diz,
E quando chegamos enfim à meia fala
O montanheiro do Krémlin² lá vem à baila.
Dedos gordurosos como vérmina gorda,
As palavras certas como pesos de arroba.
Riem-se-lhe os bigodes de barata,
Reluzem-lhe os canos da bota alta.
À volta a escumalha — guias de fino pescoço —
Nas vénias da semigente ele brinca com gozo.
Um assobia, o outro geme, aquele mia,
Só ele trata por tu, escolhe companhia.
Como ferraduras, lei ‘trás de lei ele oferta,
Em cheio na virilha, olho e sobrolho e testa.
Cada morte que faz — crime malino
E o peitaço tem amplo, ossetino.
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Fonte: www.jornalopcao.com.br

