O Brasil não é El Salvador
A Segurança Pública é um dos temas centrais da eleição presidencial de 2026.
A preocupação é legítima.
O crime organizado expandiu sua presença, controla territórios, infiltra-se em atividades econômicas e desafia diariamente a autoridade do Estado.
Diante desse cenário, é compreensível que candidatos busquem respostas duras.
O problema começa quando soluções complexas são substituídas por slogans importados.
A defesa do chamado “modelo Bukele”, hoje adotada por candidatos de direita como Romeu Zema, Renan Santos e Flávio Bolsonaro, tem forte apelo eleitoral.
A promessa é simples: prender mais, endurecer penas e reproduzir no Brasil o sistema implantado em El Salvador.
O risco está justamente nessa simplicidade. Brasil e El Salvador enfrentam problemas distintos.
As gangues salvadorenhas, como a MS-13 e a Barrio 18, estruturavam seu poder principalmente sobre o controle territorial de bairros, extorsões e tráfico local.
Já as facções brasileiras operam em redes muito mais sofisticadas.
Crime exige firmeza, mas também método. Copiar Bukele não resolve facções nem fortalece o Estado
PCC e Comando Vermelho movimentam cadeias internacionais de drogas, ouro, combustíveis, cigarros, bebidas, lavagem de dinheiro e logística, além de manter conexões com setores da economia formal e, em alguns casos, com agentes públicos.
A diferença não é apenas de escala. É de natureza.
Estudos recentes estimam que as organizações criminosas brasileiras faturam quase R$ 147 bilhões por ano, sendo que a maior parte dessa receita já não vem da cocaína, mas de mercados legais capturados pelo crime organizado.
Combater estruturas dessa dimensão exige inteligência financeira, investigação patrimonial, integração entre polícias, cooperação internacional e capacidade de desmontar redes empresariais que sustentam as facções.
Nenhuma dessas tarefas será resolvida apenas com presídios maiores.
Isso não significa minimizar o êxito de El Salvador na redução dos homicídios.
O país registrou uma queda impressionante da violência letal.
Mas esse resultado foi alcançado sob estado de exceção permanente, com prisões em massa, restrições ao devido processo legal e graves denúncias de violações de direitos humanos.
Importar apenas os números sem discutir o método seria um grave equívoco institucional.
Em Mato Grosso, o debate ganha contornos ainda mais relevantes.
O Estado tornou-se corredor estratégico para o tráfico internacional, enfrenta expansão do garimpo ilegal financiado por facções, roubo organizado de cargas, contrabando na fronteira e lavagem de dinheiro ligada ao agronegócio, combustíveis e mineração.
Nossa realidade exige respostas adaptadas ao território, não fórmulas prontas concebidas para outra realidade social e criminal.
O eleitor também precisa desconfiar das falsas escolhas. Não existe oposição entre firmeza e Estado de Direito.
É perfeitamente possível endurecer o combate às facções respeitando garantias constitucionais.
Aliás, é justamente a legalidade que diferencia o Estado das organizações criminosas que pretende combater.
A experiência brasileira demonstra que operações policiais isoladas produzem resultados importantes, mas insuficientes quando não são acompanhadas por inteligência, investigação financeira e recuperação de ativos.
Da mesma forma, políticas sociais, urbanização e educação não substituem repressão qualificada, mas reduzem o ambiente de recrutamento das facções no longo prazo.
Segurança Pública não pode ser construída sobre marketing eleitoral.
Os candidatos à Presidência têm obrigação de apresentar propostas consistentes para uma das maiores angústias dos brasileiros.
Defender o modelo Bukele pode render aplausos em palanques.
Governar o Brasil exigirá algo muito mais difícil: enfrentar organizações criminosas sofisticadas sem abrir mão das instituições democráticas que justamente elas procuram enfraquecer.
O país precisa de uma política de segurança baseada em evidências, não em analogias.
Porque o Brasil não é El Salvador — e as soluções também não podem ser.

