Com o fim das eleições, os eleitores, independentemente de terem votado no candidato vencedor, começam a se perguntar: o que será do futuro de Goiás? O governador Daniel Vilela (MDB) venceu apostando na continuidade de um modelo de gestão construído pelo ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), mas é evidente que, nos próximos quatro anos, buscará imprimir uma identidade própria à administração estadual. E os primeiros movimentos nessa direção já começaram.
Daniel Vilela é um político jovem que compreendeu as transformações pelas quais o mundo passou. A tecnologia deixou de ser uma ferramenta distante e passou a integrar praticamente todos os aspectos da vida cotidiana. Está nos aplicativos de música, nas transações bancárias e até nas ferramentas de inteligência artificial que auxiliam na produção de textos. Integrante de uma geração digital — tem apenas 42 anos —, o gestor emedebista demonstra disposição para incorporar a inovação à gestão pública.
Um exemplo é o Pequi Bank, plataforma digital de multisserviços e infraestrutura financeira criada pelo governo de Goiás em parceria com a fintech Stark Bank. Inicialmente, a ferramenta permite que estudantes beneficiários do programa Bolsa Estudo consultem saldos e extratos, realizem transferências via Pix e bloqueiem ou desbloqueiem cartões. A previsão é ampliar gradualmente o acesso a beneficiários de outros programas sociais.
A proposta, porém, vai além. O governo pretende estender os serviços a servidores públicos e empreendedores, transformando a plataforma em uma espécie de superbanco digital. Entre as possibilidades futuras estão empréstimos, cartões de crédito para pessoas físicas e jurídicas, linhas de microcrédito e financiamentos com taxas mais acessíveis do que as praticadas no mercado tradicional.
Também estão em estudo modalidades de crédito para capital de giro, apoio a pequenos negócios e financiamento de veículos elétricos para motoristas de aplicativo. O projeto prevê ainda a incorporação de seguros, títulos de capitalização e um marketplace de serviços integrados.
Trata-se de uma aposta que pode aproximar o poder público das necessidades de uma sociedade cada vez mais conectada. Entretanto, para que essa transformação seja efetiva, será necessário garantir segurança, transparência e acesso às pessoas que ainda enfrentam dificuldades com o universo digital.

Saúde: uma transformação que vai além da estrutura
Mas não é apenas na tecnologia que Daniel Vilela pretende construir sua marca. O governador também compreendeu que, apesar dos avanços registrados nos últimos anos, a saúde pública exige investimentos permanentes. E uma das principais apostas de sua gestão está na transformação do Hospital Estadual de Urgências de Goiás (Hugo).

A decisão de aproveitar uma estrutura hospitalar já existente, originalmente destinada a outro empreendimento, representa uma alternativa à construção de uma unidade completamente nova. Localizado no Conjunto Fabiana, em Goiânia, o futuro Hugo (deve -se falar, em “outro” Hugo, porque a reformulação será geral) deverá contar com maior capacidade de internação, ampliação dos leitos de UTI e mais salas cirúrgicas.
A estrutura também poderá receber equipamentos de alta complexidade. Estão nas tratativas a aquisição de dois aparelhos de ressonância magnética, dois tomógrafos e seis equipamentos de ultrassonografia, anteriormente destinados à operação da Oncoclínicas. Salas preparadas para exames de endoscopia e colonoscopia também fazem parte das negociações.
O novo hospital representa uma oportunidade de ampliar a capacidade de atendimento de urgência e emergência em Goiás. Contudo, a transformação não estará completa apenas com a entrega do prédio. Será fundamental assegurar equipes suficientes, equipamentos em funcionamento, manutenção adequada e capacidade de atendimento compatível com a demanda.
E o que acontecerá com a estrutura onde atualmente funciona o Hugo?
Daniel já anunciou a intenção de transformar o prédio em um Hospital da Mulher, após uma reforma completa. A proposta reconhece a necessidade de ampliar a atenção especializada à saúde feminina, não apenas durante a gestação e o parto, mas também no atendimento ginecológico, obstétrico e em outras situações que exigem acolhimento específico.
Essa preocupação precisa alcançar também as mulheres vítimas de violência física, psicológica e sexual. Afinal, falar em saúde da mulher significa compreender que o cuidado não se limita ao tratamento de doenças, mas envolve proteção, dignidade e acesso a uma rede de atendimento preparada para situações de vulnerabilidade.
O combate à violência contra a mulher
Nesse campo, Daniel Vilela tem defendido o fortalecimento das ações de enfrentamento à violência contra a mulher e ao feminicídio. A integração entre forças de segurança, tecnologia e sociedade civil pode representar um avanço importante, especialmente porque grande parte dos episódios de violência doméstica ocorre dentro do ambiente familiar, onde a atuação preventiva do Estado encontra obstáculos.
Mas essas dificuldades não podem servir de justificativa para a ausência de políticas públicas. Pelo contrário, exigem mecanismos de proteção mais eficientes, acompanhamento das vítimas e medidas capazes de interromper ciclos de violência antes que terminem em tragédia.
Uma das possibilidades discutidas é a criação de uma Secretaria de Estado da Mulher, com estrutura administrativa e orçamento próprios. A medida poderá ampliar a capacidade de formulação e execução de políticas públicas voltadas à população feminina.
Nesse cenário, Valentina Jungmann surge como um nome que merece consideração.

Advogada, mestre e doutora em Direito pela PUC-SP, Valentina construiu sua trajetória entre a advocacia, o serviço público e a docência. Atualmente, está à frente da Gerência de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, vinculada à Superintendência da Mulher da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Seds).
Ela defende a criação de uma pasta específica, com recursos próprios, para que projetos e iniciativas tenham condições reais de sair do papel. Seu nome já foi mencionado pelo próprio Daniel Vilela, em uma demonstração de reconhecimento ao trabalho desenvolvido.
A eventual criação da secretaria exigirá uma escolha criteriosa. Mais do que acomodar interesses partidários, o cargo deverá ser ocupado por alguém com conhecimento técnico, experiência e capacidade de articulação. Nesse caso, a indicação política precisa ficar em segundo plano. A prioridade deve ser a efetividade das ações.
Educação e tecnologia como caminhos para o futuro
Na educação, o desafio de Daniel Vilela será dar continuidade aos projetos existentes e elevar ainda mais a qualidade do ensino público estadual.
Goiás alcançou nota 5,0 no Ideb do ensino médio. Embora o resultado represente um avanço, ainda existe um caminho considerável a percorrer. Melhorar os indicadores exige investimentos contínuos, valorização dos profissionais, infraestrutura adequada e estratégias que acompanhem as transformações da sociedade.
A escolha de José Frederico Lyra Netto para assumir a Secretaria de Estado da Educação, em substituição a Fátima Gavioli, que foi convidada para integrar o governo de Sergio Moro no Paraná, sinaliza uma aproximação ainda maior entre educação, ciência e tecnologia.

Nome de confiança de Daniel, José Frederico reúne experiência na área de inovação e poderá utilizar esse conhecimento para ampliar a integração de ferramentas tecnológicas ao processo de aprendizagem.
Goiás já apresenta exemplos de estudantes que desenvolvem soluções inovadoras, inclusive projetos ligados à sustentabilidade e à pesquisa científica. São iniciativas que demonstram o potencial da educação pública quando os alunos encontram oportunidades para transformar conhecimento em soluções práticas.
O desafio agora será fazer com que essas experiências deixem de ser exceções e se tornem parte da realidade de um número cada vez maior de escolas.
Segurança pública e proteção social
Na segurança pública, a utilização da inteligência artificial também representa uma das apostas do governo. Ferramentas tecnológicas têm sido empregadas na localização de foragidos e no apoio à investigação de crimes, contribuindo para tornar a atuação policial mais ágil.
O avanço dessas soluções, entretanto, precisa estar acompanhado de investimentos na formação dos profissionais, na inteligência policial e na proteção dos direitos dos cidadãos. A tecnologia deve funcionar como instrumento de apoio, e não como substituta da atuação humana.
Na área social, Daniel também assumiu o compromisso de ampliar programas que, segundo o governo, já alcançaram mais de 600 mil pessoas em situação de vulnerabilidade em Goiás.
A continuidade dessas políticas é importante, mas sua expansão precisa estar associada à criação de oportunidades. O verdadeiro avanço social não pode ser medido apenas pelo número de beneficiários atendidos, mas também pela capacidade de oferecer condições para que essas famílias conquistem autonomia financeira e melhores perspectivas de vida.
O desafio de construir um legado próprio
Daniel Vilela recebeu um Estado marcado por transformações promovidas durante a gestão de Ronaldo Caiado. Essa herança política e administrativa contribuiu para sua vitória eleitoral, mas também estabelece uma responsabilidade: demonstrar que é possível preservar o que funcionou e, ao mesmo tempo, avançar com propostas próprias.
É justamente nesse ponto que começa a construção de sua identidade como governador. A modernização dos serviços públicos, a ampliação da rede hospitalar, a valorização da educação, o enfrentamento à violência contra a mulher e o fortalecimento da segurança e da assistência social podem se tornar marcas importantes de sua administração. Mas existe uma diferença fundamental entre anunciar projetos e consolidar resultados.
O futuro de Goiás não será definido apenas pela quantidade de obras entregues, plataformas lançadas ou programas ampliados. Será determinado, sobretudo, pela capacidade dessas iniciativas de transformar a vida das pessoas.
Modernidade e austeridade precisam caminhar juntas, assim como inovação e responsabilidade social. Não basta que o Estado seja tecnologicamente avançado se parte da população continuar enfrentando dificuldades para acessar serviços essenciais. Tampouco adianta ampliar estruturas sem garantir que funcionem com qualidade.
Daniel tem diante de si a oportunidade de construir uma trajetória que não seja apenas a continuidade do governo anterior, mas a evolução de um projeto político e administrativo.
O legado de Caiado ajudou Daniel Vilela a chegar ao governo. Agora, caberá a ele demonstrar o que será capaz de construir com as próprias decisões. Porque uma eleição pode ser vencida com a força de uma herança política, mas uma identidade de governo só se consolida com resultados. E é por eles que Daniel será lembrado.
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