-
Por Iares Ibero Sombra
-
28/10/2026 às 08:00
Ouça este conteúdo
O Brasil não tem apenas um problema de corrupção. Tem um problema mais grave e menos nomeado: a colonização da legitimidade. Em três episódios, de setores diferentes e separados por mais de uma década, o que emerge não é o crime que viola as regras – é o crime que as usa.
A Operação Lava Jato, iniciada em 2014, não revelou contratos falsos. Revelou contratos reais, licitações reais e empresas reais operando dentro dos ritos do Estado para extrair dinheiro público de dentro deles, num dos maiores esquemas de corrupção já vistos. O Tribunal de Contas da União estimou em até R$ 29 bilhões o prejuízo potencial em contratos da Petrobras firmados desde 2002. O Ministério Público Federal registrou mais de R$ 4 bilhões devolvidos por meio de acordos de colaboração e leniência ao longo da operação. A aparência de regularidade institucional foi usada como veículo de uma operação ilícita, não como sua negação.
Mais de uma década depois, a Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União em abril de 2025, identificou R$ 6,3 bilhões em descontos indevidos nas aposentadorias de 4,1 milhões de brasileiros entre 2019 e 2024. O mecanismo: associações de fachada que descontavam mensalidades diretamente da folha dos aposentados – com convênios formalmente assinados, entidades cadastradas no próprio INSS e documentação aparentemente regular.
O equívoco recorrente no debate público brasileiro é tratar cada um desses episódios de corrupção como falha de fiscalização – como se mais auditoria, mais comissão ou mais operação policial resolvesse o problema de origem. Não resolve, porque o problema não está na ausência de controle
A ilegalidade não estava inscrita na aparência formal do mecanismo. Estava na função que ele passou a desempenhar: proteção social convertida em extração. As vítimas foram selecionadas com precisão clínica – 67% eram aposentados da zona rural, segundo o inquérito da Polícia Federal, distantes dos canais pelos quais os descontos indevidos poderiam ter sido detectados. A vulnerabilidade não foi uma falha do esquema. Foi o critério de engenharia.
Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master. A Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero – o nome escolhido pelos próprios investigadores é, ele mesmo, o diagnóstico – e apura indícios de fraude que, à época da operação, a Reuters estimou em até R$ 12 bilhões. A instituição era formalmente auditada, supervisionada e regulada. Passava pelas instâncias de controle.
Cumpria os rituais de transparência. Segundo a investigação em andamento, o que faltava não era estrutura de controle – era controle dentro da estrutura. O banco existia. A regulação existia. A fiscalização existia. E, segundo os investigadores, a função de proteger quem confiou seus recursos à instituição é que havia sido invertida. A arquitetura de proteção tornara-se, na hipótese investigada, a arquitetura da extração.
VEJA TAMBÉM:
O padrão que conecta os três casos não é a audácia dos envolvidos em cada um deles – é a arquitetura comum. Em cada episódio, o instrumento do crime foi o próprio instrumento que deveria preveni-lo: o contrato público, o convênio previdenciário, a regulação bancária. Os três não operaram simplesmente no escuro – operaram à luz dos protocolos, com os carimbos certos, dentro dos fluxos institucionais que existem precisamente para garantir que isso não aconteça. É exatamente por isso que os três sobreviveram por anos sem ruptura visível, e que cada um só chegou ao conhecimento público quando o rombo já estava feito. Compliance zero não significa ausência de formulário. Significa formulário sem função.
O equívoco recorrente no debate público brasileiro é tratar cada um desses episódios de corrupção como falha de fiscalização – como se mais auditoria, mais comissão ou mais operação policial resolvesse o problema de origem. Não resolve, porque o problema não está na ausência de controle. Está na colonização do controle. Quando a estrutura de proteção pode ser invertida por dentro, sem romper sua aparência externa, o remédio não é apenas reforçar a dose – é redesenhar o que se entende por controle efetivo.
Isso exige algo que o Brasil ainda não produziu em escala suficiente: instituições capazes de auditar a si mesmas com a mesma severidade com que auditam os outros. A Justiça tem seus instrumentos. Mas a pergunta que três escândalos de corrupção separados por mais de uma década deixam para as instituições é mais simples e mais exigente: como garantir que o guardião não se torne, ele mesmo, o que deveria guardar contra?
Iares Ibero Sombra, mestre em Educação, é jornalista, escritor e palestrante.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos
Principais Manchetes
WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br

