A política brasileira parece viver em um eterno loop de amnésia conveniente, onde a moralidade e os discursos inflamados duram exatamente o tempo de apuração das urnas do primeiro turno. A cena protagonizada nesta semana em Goiânia sintetiza com perfeição o retrato mais cru e envergonhado do poder no país: o ex-presidenciável Ronaldo Caiado, que até dias atrás estampava ataques furiosos chamando Flávio Bolsonaro (PL) de “ladrão” e “mentiroso”, subiu docilmente ao mesmo palanque para declarar apoio ao senador na corrida pelo segundo turno.
O episódio não é um ponto fora da curva; é a regra básica de um sistema anestesiado pela busca obsessiva por cargos, espaço e relevância institucional. Para a classe política tradicional, o eleitor tem memória curta e os princípios morais são descartáveis quando postos na balança do pragmatismo eleitoral.
Veja o vídeo:
O ex-governador de Goiás ficou em 5º lugar no primeiro turno das eleições presidenciais. Durante o ato de anúncio, nesta terça-feira (6), em Goiânia, apoiadores do senador gritaram “ministro” em referência a Caiado, numa alusão à possibilidade de ele ocupar um cargo em um eventual governo do senador.
Da acusação de corrupção ao abraço protocolar
Durante a disputa do primeiro turno das eleições de 2026, o debate público foi palco de embates ferozes. Caiado, que terminou a disputa presidencial na quinta colocação com cerca de 2,6 milhões de votos (2,18%), não poupou adjetivos para desqualificar o adversário liberal, colocando em dúvida sua lisura e seu compromisso com a verdade.
Contudo, bastou a poeira baixar e a realidade do segundo turno bater à porta para que o verniz da indignação derretesse. Em um discurso carregado de um cinismo ensaiado, o ex-governador goiano justificou a guinada afirmando que sua prioridade é “derrotar o PT” e “garantir que o Estado não se curve ao crime”.
Esquecidas, em questão de horas, foram as acusações de roubo e falta de caráter proferidas em praça pública. Na lógica dos caciques partidários, o que antes era imperdoável torna-se detalhe administrativo quando o objetivo é garantir um naco de poder na próxima gestão.
O balcão de negócios da “União Progressista”
A guinada de Caiado não veio sozinha. Em uma movimentação coordenada de bastidores que envolveu reuniões de cúpula com os presidentes nacionais Ciro Nogueira (PP) e Antônio Rueda (União Brasil), a federação partidária que se mantinha neutra no primeiro turno escancarou as portas para o alinhamento com o clã Bolsonaro.
Para a opinião pública, o episódio escancara o esvaziamento total do debate ideológico genuíno. O que se vê é um gigantesco balcão de negócios onde legendas e parlamentares trocam convicções por tempo de televisão, prefeituras futuras, indicações de ministérios e a velha garantia de sobrevivência orçamentária.
Enquanto a população assiste atônita a essa dança de cadeiras onde inimigos figadais viram melhores amigos da noite para o dia, a política institucional brasileira consolida a sua pior faceta: aquela em que a vergonha é substituída pelo cinismo, e a honra dá lugar ao apetite voraz por poder.
Fonte: cenariomt.com.br

