Sentimento de injustiça: família contesta condenação para acusado de matar jovem em Senador Canedo

Um crime cometido em dezembro de 2020 na cidade de Senador Canedo, na Região Metropolitana de Goiânia, teve um desfecho que revoltou familiares e amigos da vítima. O fazendeiro Jerônimo Valdivino Duarte, conhecido como “Divino Leiteiro”, foi a júri popular na última semana pela morte do jovem Diego Dias de Oliveira, de 23 anos. O resultado, no entanto, foi contestado por familiares da vítima. O crime foi desqualificado de homicídio por lesão corporal seguido de morte, resultando em uma pena de apenas quatro anos em regime aberto.

Em nota enviada ao Jornal Opção, a defesa de Jerônimo Valdivino Duarte afirmou que a decisão do Tribunal do Júri é soberana e deve ser mantida. Segundo os advogados, durante todo o plenário, tanto pela promotoria quanto pela defesa, foi provado para os jurados e para a sociedade que o acusado agiu para defender sua vida e sua propriedade. Além disso, os advogados reforçaram que o fazendeiro não desejava o resultado de morte e que o veredito “foi um ato de justiça”.

A nota conclui dizendo que a defesa entende e respeita a posição da família de Diego, ressaltando que “toda vida é insubstituível” e que os advogados se posicionam contra qualquer forma de violência.

Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, um familiar da vítima, que preferiu não se identificar, por motivos de segurança, narrou os momentos de horror desde a noite do crime até o que chamou de “espetáculo de deboche” dentro do tribunal.

A noite do crime e o cenário de tortura

Diego trabalhava em um lava-jato, não tinha passagens pela polícia e era o pilar financeiro da casa, onde morava apenas com a mãe. Naquela noite de sábado, dia 14 de dezembro, a família já estava na expectativa para as festas de fim de ano que se aproximavam, quando uma ligação da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mudou todo o roteiro. “Eu recebi uma ligação por volta de onze e meia da noite informando que meu irmão estava lá em estado grave, medicado e sedado devido à gravidade das lesões”, contou o familiar à reportagem do  Jornal Opção.

Ao chegar à UPA, os familiares foram informados que Diego foi encontrado na chácara do acusado, que ficava apenas duas ruas da casa da vítima. “Quando cheguei lá, ele estava numa maca, já deitado. Tinha bastante sangue. Ele estava muito machucado mesmo, sofreu praticamente uma tortura. Ele foi encontrado bastante ensanguentado e amarrado com arame farpado”, relembrou. 

Devido a gravidade dos ferimentos, Diego teve uma das pernas amputadas devido à gravidade da infecção e dos ferimentos, mas acabou falecendo por politraumatismo de membros superiores e inferiores.

Contradições e a tese de “legítima defesa”

Na época, a Polícia ouviu o fazendeiro Jerônimo Valdivino, que confessou ter agredido o jovem, mas alegou que agiu em legítima defesa após ouvir seus animais agitados e encontrar o rapaz em sua propriedade. Segundo a versão do acusado, os dois teriam entrado em luta corporal no escuro e ele “não via onde estava batendo”. 

No entanto, os laudos da Polícia Técnico-Científica acusaram uma divergência  na versão apresentada pelo fazendeiro. No exame de corpo de delito, Jerônimo não apresentava um único arranhão. A família da vítima afirma que, mesmo após anos do crime, desconhecem a motivação do crime. 

A acusação ressalta ainda que o fazendeiro possui uma ficha extensa, com nove passagens pela polícia, incluindo registros por ameaça e porte ilegal de arma de fogo, fatos que, segundo a família, foram ignorados no julgamento.

“Parecia que ele estava gravando um filme”, diz familiar sobre o júri

O julgamento, aguardado há quase seis anos pela família, transformou-se em um segundo trauma. O acusado, que respondeu a todo o processo em liberdade, demonstrou total frieza e desrespeito durante a sessão, de acordo com familiares. 

Para a família, esse foi um momento de total humilhação e injustiça. “Nos sentimos totalmente humilhados pela forma como foi conduzido o julgamento. Em momento nenhum ele demonstrava arrependimento, nenhum respeito pela família. Ele riu durante o julgamento. Para ele, parecia que estava gravando um filme ali e brincando com a vida das pessoas. Ele entrou com aquele sorrisinho de canto, debochado, e saiu cumprimentando todo mundo no auditório, como se fosse um show e ele a celebridade”, contou. 

Fazendeiro Jerônimo Valdivino Duarte | Foto: Divulgação

Agora, a família de Diego afirma que irá contestar a decisão e exigir uma revisão da pena, que consideram desproporcional para a brutalidade do ato. “Nós vamos tentar entrar com recurso para, no mínimo, ter uma alteração da pena. Porque a gente sabe que dava para ter tido uma pena maior; lesão corporal seguida de morte vai até 12 anos, e ele pegou quatro em regime aberto. O resultado foi contra as provas. Mas é uma tentativa, não temos certeza de nada. 

A familiar afirmou ainda à reportagem que o sentimento que predomina é o medo de viver na mesma região que o agressor. “A gente fica até com medo, porque ele é uma pessoa influente lá. É capaz da gente estar correndo atrás de justiça e ainda ser processado, porque hoje parece que o mundo está ao contrário”, concluiu.

A defesa da família informou que já está formalizando o pedido de recurso junto ao Ministério Público para tentar anular ou reformar a decisão do júri.

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Jornal Opção