Avião que caiu em MT já havia sido apreendido com 67 kg de cocaína
O avião que caiu em Água Boa (730 km a leste de Cuiabá), deixando três mortos, carrega um histórico que passou a integrar uma investigação sobre uma possível operação clandestina ligada ao tráfico internacional de drogas. O Cessna 402 já havia sido apreendido pela Polícia Federal, em 2017, transportando 67 quilos de cocaína e, cerca de quatro meses antes do acidente, foi vendido em leilão realizado pela Justiça.
A aeronave caiu no dia 10 de setembro. As apurações da Polícia Civil indicam que o avião havia decolado de Goiânia (GO) sem autorização de voo, documentação regular ou plano de voo aprovado. A Venezuela aparece na investigação como provável destino.
Agora, os investigadores tentam reconstruir não apenas o trajeto realizado antes da queda, mas também as circunstâncias da aquisição da aeronave e quem participava da viagem.
Uma das vítimas já foi oficialmente identificada pela Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec). Trata-se do empresário Vanderlei Sattler, de 65 anos, natural de Montenegro (RS) e sócio-administrador de uma empresa especializada em assessoria aeronáutica.
Segundo as informações reunidas na investigação, ele seria o proprietário do Cessna. A identificação foi realizada por papiloscopia, por meio das impressões digitais. Os outros dois ocupantes seriam paraguaios e, até a divulgação das informações, ainda não haviam sido oficialmente identificados.
DO LEILÃO À QUEDA
O passado da aeronave é um dos elementos que chamam a atenção dos investigadores.
Em 2017, o mesmo avião foi apreendido pela Polícia Federal em Goiânia com 67 quilos de cocaína. Anos depois, acabou colocado à venda pela Justiça e foi arrematado em leilão público aproximadamente quatro meses antes do acidente em Mato Grosso.
Conforme a Polícia Civil, o novo proprietário havia sido informado de que o avião não estava habilitado para realizar voos no Brasil. A aeronave não havia sido nacionalizada, não possuía matrícula brasileira nem certificado de aeronavegabilidade.
Apesar dessas restrições, o Cessna deixou Goiânia e acabou caindo em Água Boa.
“A aeronave decolou da cidade de Goiânia sem qualquer autorização de voo, sem documentação regular e sem um plano de voo devidamente aprovado”, afirmou o delegado Carlos Alberto Silva.
A Polícia Civil também analisou imagens de câmeras de segurança que registraram o embarque dos ocupantes e trabalha para reconstituir o itinerário do grupo. Informações obtidas com familiares de um dos ocupantes reforçaram, segundo a investigação, a hipótese de que o destino seria a Venezuela.
COMPRA TAMBÉM É INVESTIGADA
A maneira como o avião foi adquirido também entrou na investigação.
Segundo o delegado, a aeronave teria sido comprada por um valor considerado expressivo, e a situação financeira de Vanderlei passou a ser analisada pelos investigadores. Parte do pagamento teria sido feita em dinheiro e outra parcela por meio da entrega de um veículo de alto valor.
A apuração encontrou outro elo que está sendo investigado: o automóvel utilizado na negociação já esteve registrado em nome de uma pessoa investigada por tráfico internacional de drogas.
Esses elementos, somados ao histórico do Cessna, à ausência da documentação necessária para voar e à maneira como a aeronave deixou Goiânia, levaram a Polícia Civil a apurar a possibilidade de o voo estar relacionado a uma operação clandestina de tráfico internacional. Até o momento, porém, essa ligação permanece como hipótese investigativa, e não como conclusão definitiva.
Um dos dois ocupantes paraguaios também possuía problemas com a Justiça do Paraguai e restrição para deixar aquele país, segundo as informações obtidas durante a investigação.
Para a Polícia Civil, a retirada do avião de Goiânia sem autorização e sem a documentação necessária reforça as suspeitas sobre a finalidade da viagem. A investigação deverá buscar esclarecer quem efetivamente financiou a compra do Cessna, como a aeronave voltou a operar depois do leilão, quem organizou o voo e qual seria seu destino final.

