Mesmo presa e foragida, Angeliquinha comandava crime no Nortão, diz polícia



Angélica Saraiva de Sá, a ‘Angeliquinha’, foi capturada em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia; condenada a mais de 260 anos de prisão, ela estava foragida desde agosto de 2025

 

A prisão não teria sido suficiente para afastar Angélica Saraiva de Sá, a “Angeliquinha”, de 34 anos, do comando do crime organizado no norte de Mato Grosso. Nem mesmo a fuga para a Bolívia, em agosto do ano passado, teria interrompido sua atuação. Segundo a Polícia Civil, ela permaneceu no topo da hierarquia da facção, manteve contato com subordinados e continuou dando ordens à distância até ser capturada nesta terça-feira (22), em Santa Cruz de la Sierra.

Condenada a mais de 260 anos de prisão e com outros seis mandados de prisão em aberto, Angeliquinha é apontada pela Polícia Civil como uma das principais lideranças do Comando Vermelho em Alta Floresta e municípios vizinhos.

INFO angeliquinha

 

A dimensão do poder atribuído a ela foi detalhada nesta quarta-feira (23) pelo delegado Victor Hugo Caetano de Freitas, da Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco).

Segundo ele, Angeliquinha seria responsável por ordenar cerca de 80% dos homicídios praticados pela facção em Alta Floresta e cidades da região.

“Ela é a mandante de, vamos colocar, 80% dos homicídios praticados por facção criminosa na cidade de Alta Floresta e circunvizinhas. Então é uma criminosa de altíssima periculosidade e de atuação muito forte na liderança da facção”, afirmou o delegado.

A atuação atribuída à investigada, porém, não se restringiria aos homicídios. De acordo com a Polícia Civil, Angeliquinha exercia influência sobre tráfico de drogas, extorsões contra garimpeiros e controle da entrada e saída de armas, principalmente em áreas rurais e de garimpo.

“Ela é uma liderança completa. Ela lidera toda a região de Alta Floresta e cidades vizinhas”, afirmou Victor Hugo.

PODER DENTRO DA CADEIA

A investigação aponta que a prisão de Angeliquinha não significou a perda de espaço dentro da organização criminosa.

Mesmo recolhida na Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá, ela teria continuado exercendo posição superior na estrutura da facção e comandando atividades criminosas fora dos muros da unidade.

Segundo o delegado, a liderança dava a Angeliquinha uma posição hierárquica superior inclusive em relação a outras integrantes da organização que estavam presas.

“Mesmo dentro da cadeia, ela tinha uma hierarquia de superioridade com as outras detentas ali do presídio de Ana Maria Couto”, afirmou.

Angeliquinha fugiu da penitenciária na madrugada de 17 de agosto de 2025, acompanhada de Jéssica Leal da Silva, conhecida como “Arlequina”. Jéssica continua foragida.

Desde o início das investigações sobre a fuga, a Polícia Civil identificou indícios de que Angeliquinha havia deixado Mato Grosso em direção à Bolívia. Ela acabou se estabelecendo em Santa Cruz de la Sierra, onde permaneceu até ser localizada pelas forças de segurança.

COMANDO DA BOLÍVIA

A mudança de país também não teria encerrado o comando exercido por Angeliquinha.

Conforme a investigação, ela continuou mantendo contato direto com integrantes da facção em Mato Grosso e preservou sua posição na hierarquia criminosa.

“Desde que ela começa a se destacar nas atividades criminosas, ela passa a ser a líder da organização criminosa ali naquela região. Então, a partir disso, ela não sai mais da liderança, mesmo quando é presa e mesmo agora que estava na Bolívia”, afirmou Victor Hugo.

A permanência em Santa Cruz de la Sierra abriu agora outra frente de investigação.

A Polícia Civil apura se a escolha da cidade boliviana tinha também uma função estratégica dentro do tráfico internacional de drogas. Os investigadores pretendem analisar dados telemáticos e outros elementos para identificar qual era efetivamente a atuação de Angeliquinha na Bolívia e se ela participava da articulação para entrada e saída de drogas e outros produtos ilícitos.

LUXO BANCADO PELO TRÁFICO

Enquanto permanecia foragida, Angeliquinha levava uma vida de alto padrão em Santa Cruz de la Sierra, conforme a Polícia Civil.

Segundo o delegado, ela morava em uma residência considerada luxuosa, com piscina, e teria utilizado recursos provenientes das atividades criminosas para se manter no país vizinho.

A investigação sustenta que parte dos lucros obtidos pelo tráfico na região de Alta Floresta era destinada diretamente à líder.

“O lucro dos valores do tráfico eram todos revertidos em favor dela, em favor da vida dela que ela vivia lá”, afirmou Victor Hugo.

Em março deste ano, a Polícia Civil deflagrou a Operação Showdown para atingir o núcleo familiar que, segundo a investigação, dava suporte às atividades criminosas e à lavagem de dinheiro.

A operação cumpriu 31 ordens judiciais, entre prisões, buscas, sequestro de veículos e imóveis, bloqueio de contas bancárias e suspensão de pessoas jurídicas. A investigação identificou movimentação superior a R$ 20 milhões em aproximadamente um ano e sete meses, considerada incompatível com a renda declarada pelos investigados.

CINCO CIRURGIAS PARA MUDAR O ROSTO

Durante o período em que permaneceu na Bolívia, Angeliquinha também teria adotado medidas para dificultar sua localização e identificação.

Segundo Victor Hugo, ela realizou mais de cinco procedimentos estéticos, a maioria no rosto, numa tentativa de alterar suas características físicas.

“Provavelmente ela tentava alterar a feição para que não fosse reconhecida. Em fotos divulgadas, ela aparece com curativos”, afirmou o delegado.

No momento da captura, a foragida apresentou ainda um documento brasileiro falso, com identidade diferente da verdadeira. A estratégia não funcionou porque as forças de segurança já haviam realizado a identificação facial e compartilhado as informações com as autoridades bolivianas.

“Ela apresentou um documento diverso, mas aí já tinha feito a identificação facial, a identificação real dela, inclusive com as informações que foram repassadas pela Polícia Boliviana, e não teve como ela ter sucesso”, relatou Victor Hugo.

O delegado afirmou que a alteração da aparência por meio de cirurgias é uma estratégia já identificada entre foragidos e integrantes de organizações criminosas.

“É uma prática comum entre criminosos, sobretudo foragidos, que sabem que têm mandado de prisão em aberto, e líderes de organização criminosa”, disse.

CAPTURA NA BOLÍVIA

Angeliquinha foi localizada em Santa Cruz de la Sierra em uma ação que envolveu a Polícia Civil de Mato Grosso, por meio da GCCO/Draco e da Gerência Estadual de Polinter, além das forças de segurança bolivianas.

A captura encerra mais de um ano de fuga, mas não as investigações. Além de apurar a estrutura que permitiu que ela continuasse exercendo influência sobre o grupo a partir da Bolívia, a polícia tenta esclarecer sua eventual participação na articulação do tráfico internacional.

Até a entrevista concedida nesta quarta-feira, Angeliquinha ainda não havia sido deportada ou expulsa da Bolívia. Segundo o delegado, as autoridades dos dois países realizavam os procedimentos necessários para que ela retornasse ao Brasil e fosse novamente colocada à disposição da Justiça.



Diário de Cuiabá