Objetivo dos debates não é apresentar propostas, e sim lutar pra Daniel Vilela não ganhar no 1º turno

Qual é o objetivo de um debate entre candidatos a governador? Apresentar propostas que possam convencer os eleitores de que têm qualificações para gerir o Estado.

O governador Daniel Vilela, do MDB, o ex-deputado Luis Cesar Bueno, do PT, o ex-governador Marconi Perillo, do PSDB, e o senador Wilder Morais, do PL, são políticos qualificados.

Daniel Vilela foi vereador, deputado estadual, deputado federal, presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados (tudo desagua na poderosa CCJ), vice-governador e, agora, é governador do Estado de Goiás. Portanto, tem experiência como político — artífice na arte de destravar a burocracia da máquina pública — e gestor. Foi vice-governador durante três anos e três meses e é governador de Goiás há cinco meses.

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Daniel Vilela: candidato do MDB a governador de Goiás | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

Cinco meses de governo é praticamente um doutorado em gestão pública (Daniel Vilela e Marconi Perillo sabem disso). O postulante emedebista está, portanto, afiado tanto para gerir Goiás quanto para debater seus problemas e soluções. (Quem subestimou o emedebista no debate da PUCTV deu com os burros n’água. A irritabilidade do postulante do PSDB tem a ver com o fato de que não conseguiu desviar o emedebista de seu eixo — com foco no presente e de olho no futuro.)

Luis Cesar Bueno foi vereador e deputado estadual por vários mandatos. É um político profissional, no sentido weberiano (não se trata de demérito). Especializou-se em finanças públicas.

Marconi Perillo foi governador de Goiás por quatro mandatos. Portanto, tem experiência. Seus dois primeiros governos — quando se mantinha relativamente distante das garras de onça pintada dos empreiteiros — tiveram méritos. Vale citar seus pontos positivos: a Universidade Estadual de Goiás (só não soube contornar seu gigantismo, derivado do jogo político-eleitoreiro), o Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), o Hospital de Urgência Otávio Lage (Hugol) e a Bolsa Universitária.

A UEG e a Bolsa Universitária foram criadas em 1999 e o Crer é de 2002. Ambos são do primeiro ano do primeiro governo de Marconi Perillo. O Hugol é de seu quarto governo. Foi construído em 2015.

Gestão pública tem pouco a ver com gestão privada, pois sua finalidade não é o lucro. Seu lucro é social. Gestor privado, Wilder Morais não parece entender isto com clareza. Não se pode dizer que não é gestor, mas não é gestor público

Wilder Morais não tem experiência com gestão pública, pois atua, desde sempre, como empresário. É dono da Construtora Orca e de shoppings, como o Bougainville. Com um patrimônio declarado de 65,1 milhões de reais — é o mais rico de todos os candidatos —, não há notícia de que tenha contribuído, como pessoa física ou empresário com uma escola ou uma casa de idosos. Pode até ser que tenha colaborado como senador.

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Wilder Morais: candidato a governador de Goiás pelo PL | Foto: Senado

A gestão pública tem pouco a ver com a gestão privada, pois sua finalidade não é o lucro imediato. Seu lucro é, por assim dizer, social. Gestor privado, bem-sucedido, Wilder Morais não parece entender isto com o máximo de clareza. Não se pode dizer que não é gestor. Porque é. Mas não é gestor público — o que faz uma imensa diferença.

Se Wilder Morais quiser fazer uma ponte no seu sítio de Nerópolis, para beneficiar a si próprio, pode construi-la rapidamente. Porque, sendo sua a propriedade, não precisará fazer as demoradas e complexas licitações. No governo, dada a burocracia — as exigências legais —, com sua hiper fiscalização, é mais difícil construir uma ponte similar.

Em debate recente, Wilder Morais foi praticamente monotemático ao insistir que o índice de feminicídio é alto em Goiás (o problema é a mentalidade arcaica de alguns homens, não do Estado ou do governo). É alto em todo o país. Mas, para além do assassinato de mulheres, há homens poderosos que espancam suas mulheres e namoradas. Há, inclusive, registro policial contra um empresário milionário de Goiás que espancou duas mulheres — a esposa e a amante. É preciso verificar se o discurso público é mesmo diferente da prática cotidiana. Às vezes, a retórica é moderna e o comportamento é arcaico.

O fato é que, para governar bem, é preciso ser político experimentado e gestor público gabaritado. Insista-se: gestor público.

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Marconi Perillo: candidato a governador de Goiás pelo PSDB | Foto: Divulgação do PSDB

Retomando o primeiro parágrafo. Se todos os candidatos são qualificados — e são —, os debates, como o da PUCTV, deveriam ser propositivos. Os eleitores goianos — todos, sem exceção, independentemente de ideologias partidárias — querem saber o que estão propondo para melhorar suas vidas.

Os eleitores querem saber: quem tem o melhor projeto para manter a segurança pública de Goiás em alto nível? quem tem a melhor proposta para melhorar a saúde? quem tem condições de manter a educação do Estado com os melhores índices no Ideb? quem pode contribuir para gerar mais empregos e aumentar a renda dos trabalhadores? quem tem condições de manter a rede de proteção social e ampliar a inclusão social?

Fazer consultoria não é crime. Mas Marconi Perillo tem de esclarecer por qual motivo o Banco Master lhe pagou 14,5 milhões de reais. Em termos individuais, foi o único político de Goiás beneficiado pelo banco de Daniel Vorcaro

(Vale sublinhar que, inteligentemente, o presidente Lula da Silva, do PT, copiou um programa do governo de Ronaldo Caiado-Daniel Vilela, deu-lhe outro nome, Pé de Meia, e agiu de maneira correta. Uma equipe do Ministério da Educação esteve em Goiás e, tendo gostado dos resultados, adotou o programa do Cerrado em nível nacional.)

Entretanto, se começaram a ser propositivos, os debates descambaram, quase sempre, para baixarias e ataques gratuitos.

Luis Cesar Bueno: candidato a governador de Goiás pelo PT | Foto: Leoiran/Jornal Opção

Se os candidatos pensam que os eleitores aprovam baixarias, ataques abaixo da linha de cintura, estão redondamente enganados. Porque não aprovam. Tendem a avaliar que os candidatos estão tergiversando.

Os eleitores são capazes de avaliar por si os fatos, sem intermediação dos políticos. Marconi Perillo afirma que há conexões do Banco Master em Goiás. Mas os eleitores avaliam outra coisa: o tucano é o único — até agora — a aparecer como tendo recebido, individualmente, 14,5 milhões de reais do banco de Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro que está preso na Papudinha.

Quando a denúncia foi divulgada nacionalmente, e não apenas em Goiás, Marconi Perillo admitiu que havia recebido o dinheiro e disse que fez consultoria para o Banco Master, de Daniel Vorcaro e Augusto Lima. Durante o debate da PUCTV, inquirido sobre o assunto, duas vezes, não deu nenhuma explicação, nem mesmo a anterior.

Qual o tipo de consultoria que Marconi Perillo fez para Daniel Vorcaro e o Banco Master? Ele precisa explicar isto. Porque 14,5 milhões é muito dinheiro. Na sua declaração de bens ao Tribunal Superior Eleitoral, na qual seus bens estão autoavaliados em 11,8 milhões de reais, não há nenhuma referência a valores monetários em contas bancárias.

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Flávio Bolsonaro e Lula da Silva: candidatos a presidente da República pelo PL e PT | Fotos: Reproduções

De qualquer forma, fazer consultoria não é crime. Mas, como é candidato a governador, Marconi Perillo tem de esclarecer por quais motivos o Banco Master lhe pagou 14,5 milhões de reais. Insista-se que, em termos individuais, foi o único político de Goiás diretamente beneficiado pelo banco do presidiário Daniel Vorcaro.

Wilder está iludindo Marconi? Ou Perillo está iludindo Morais? O tucano não critica o postulante do PL e, por isso, caiu para o segundo lugar na pesquisa Atlas Intel. O senador subiu mais por causa do bolsonarismo

Por que aos debates está escapando de seus verdadeiros objetivos — serem propositivos?

Marconi Perillo (segundo na pesquisa Quaest e terceiro na AtlasIntel), Wilder Morais (segundo na pesquisa AtlasIntel e terceiro na Quaest) e Luis Cesar Bueno (quarto colocado em todas) estão irmanados — centro-direita, direita e esquerda — porque receiam que Daniel Vilela seja eleito no primeiro turno.

O alinhamento entre Marconi Perillo, Wilder Morais e Luis Cesar Bueno, político mas não ideológico, tem, portanto, uma razão prosaica: medo de que Daniel Vilela liquide a fatura no primeiro turno. (Na última pesquisa da AtlasIntel, o emedebista aparece com 43,5% — todos os demais candidatos somados têm 47 pontos percentuais.)

O mais curioso é ver Luis Cesar Bueno, da esquerda, alinhando-se com a direita, quer dizer, com Marconi Perillo — que antes era de centro-esquerda — e Wilder Morais.

Político de valor, um membro da intelligentsia goiana, o historiador Luis Cesar Bueno tem dito que é candidato para impulsionar a candidatura do presidente Lula da Silva.

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Marcelo Vitorino: seu marketing está puxando Marconi Perillo para baixo? | Foto: Arquivo pessoal

Se isto é verdade, e certamente é, Luis Cesar Bueno, ao se alinhar com Wilder Morais (e Marconi Perillo) nos debates e se posicionar contra Daniel Vilela, está fazendo o jogo da direita. Porque Wilder Morais apoia Flávio Bolsonaro (PL), hoje, de acordo com as pesquisas de intenção de voto, o principal adversário de Lula da Silva.

Então, quando faz “dobradinha” com Wilder Morais (e Marconi Perillo),  levantando a bola para o postulante do PL, Luis Cesar Bueno acaba se tornando, indiretamente, um cabo eleitoral, não de Lula da Silva, e sim de Flávio Bolsonaro.

Luis Cesar é dotado de astúcia suficiente para entender o que se está dizendo. Porém, se duvidar, mostre seu desempenho no debate da PUCTV para o marqueteiro Sidônio Palmeira. Ele dirá, por certo, que quem se alinha com Wilder Morais em Goiás fica contra Lula da Silva no país.

Entre Marconi Perillo e Wilder Morais, o mais astuto — verdadeira raposa (apesar de demonstrar nervosismo no último debate) — é o tucano-chefe. Os dois estão se usando.

Entretanto, a aliança entre Marconi Perillo e Wilder Morais não funciona para os dois. Um deles vai soçobrar. Wilder Morais, na pesquisa AtlasIntel, passou o tucano. Quer dizer, a aliança entre ambos não deu certo para o tucano.

Os dois pensam no segundo turno. Mas e se não houver segundo turno e se Daniel Vilela ganhar no primeiro turno? Além disso, no caso de segundo turno, um deles vai ficar de fora. Tende a ser Marconi Perillo? Wilder Morais trabalha com esta possibilidade.

O marqueteiro Marcelo Vitorino percebeu, de cara, que Marconi Perillo estava subestimando Wilder Morais — e nenhum político, sobretudo se ligado bolsonarismo, deve ser subestimado.

Marconi Perillo tem operado com “ódio”, que, como sabiam Getúlio Vargas e Tancredo Neves, é uma “arma” perniciosa. Porque não permite que o político pense e aja com frieza e racionalidade. Ao partir para o ataque contra Daniel Vilela — líder absoluto e distanciado —, o tucano se “esqueceu” de Wilder Morais, que, no momento, é seu principal adversário.

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