‘Tribunais do crime’ impõem tortura e morte em cidades de Mato Grosso



‘Tribunais do crime’ impõem tortura e morte em cidades de Mato Grosso

Um homem sequestrado por engano, baleado e levado para um matagal onde poderia ser executado em Várzea Grande. A 130 quilômetros dali, outra vítima mantida em cárcere privado e que, segundo a Polícia Militar, seria submetida a um “salve” em Campo Verde. Os dois casos ocorreram na madrugada deste sábado (15) e expõem uma prática que vem aparecendo de forma recorrente nas ocorrências envolvendo facções criminosas em Mato Grosso: os chamados “tribunais do crime”.

No primeiro episódio, registrado no bairro São Gonçalo, em Várzea Grande, quatro criminosos encapuzados sequestraram um homem e o levaram para um matagal. A vítima foi atingida por um tiro na perna e só não teria sido executada porque, durante uma chamada de vídeo, a pessoa apontada como mandante percebeu que o grupo havia capturado o alvo errado. Os sequestradores deixaram o local e o homem conseguiu pedir socorro. Até a manhã deste sábado, ninguém havia sido preso.

INFO tribunal do crime

Em Campo Verde, também durante a madrugada, a PM recebeu uma denúncia de que uma pessoa havia sido sequestrada e estaria sendo torturada por integrantes de uma facção. Os policiais foram até uma residência no bairro Bom Clima e encontraram a vítima mantida em cárcere privado. Segundo o registro policial, ela seria submetida a um “salve”. Durante a abordagem houve confronto, e um suspeito apontado como integrante do Comando Vermelho foi baleado e morreu após ser socorrido. A vítima foi resgatada e levada para atendimento médico.

Embora diferentes, os episódios têm em comum a tentativa de grupos criminosos de criar mecanismos próprios de punição fora do sistema legal. O “salve” é a expressão utilizada pelas próprias organizações para punições que podem envolver agressões, tortura e, nos casos mais extremos, execução.

Uma busca em ocorrências divulgadas pelas forças de segurança e pela imprensa mostra que os casos deste sábado não são isolados. Desde janeiro, episódios atribuídos a tribunais de facções foram registrados em municípios de diferentes regiões de Mato Grosso. O levantamento jornalístico, porém, não equivale ao total oficial do Estado, que deve ser solicitado à Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT) e à Polícia Civil.

ADOLESCENTE EXECUTADO – Em janeiro, a Polícia Civil deflagrou a Operação Desmonte para investigar o sequestro, assassinato e ocultação do corpo de um adolescente de 14 anos, em Cocalinho.

Segundo a investigação, o jovem desapareceu em outubro de 2025 e teria sido vítima de um “tribunal do crime” relacionado à disputa entre facções. A operação cumpriu oito mandados de prisão temporária e sete de busca e apreensão contra suspeitos de participação no grupo.

Um mês depois, outro caso apareceu em Pontes e Lacerda.

A Polícia Civil informou que um jovem de 20 anos foi atraído para uma residência sob o argumento de que deveria prestar esclarecimentos a integrantes de uma organização criminosa e receber uma punição disciplinar, o chamado “salve”. Ele não saiu vivo do imóvel. O corpo foi localizado dois dias depois.

A investigação apontou que o crime teria sido motivado por vingança depois de uma briga ocorrida dias antes. Dois adultos foram presos e dois adolescentes apreendidos na operação realizada em fevereiro.

SEQUESTRO POR TÉRMINO DE NAMORO – Em Água Boa, uma adolescente de 16 anos foi resgatada em março antes de ser submetida à punição.

Segundo a investigação, a jovem havia terminado o relacionamento com um integrante de facção, atitude que teria sido considerada uma violação das regras impostas pelo grupo.

Ela foi encontrada em uma residência onde permanecia em cárcere privado e sob ameaça. Cinco pessoas foram presas. A ação policial ocorreu antes que a sessão de tortura fosse iniciada.

Outro caso investigado naquele período mostrou que a influência das facções pode alcançar até o ambiente escolar. Em Sorriso, um professor apontado pela Polícia Civil como integrante de organização criminosa foi investigado por supostamente aliciar estudantes e determinar “salves” contra alunos que não aceitavam as regras do grupo.

CRIANÇA CONDENADA À MORTE – Um dos episódios mais graves ocorreu novamente em Várzea Grande.

Em abril, policiais militares resgataram um menino de 12 anos que, segundo a ocorrência, havia sido levado à força por integrantes de uma facção e estaria condenado à morte.

A criança contou aos policiais que havia sido agredida e ameaçada. Quatro homens foram presos por suspeita de sequestro e cárcere privado.

Em maio, desta vez em Sinop, uma operação policial impediu outro possível desfecho fatal. Um casal de 27 anos foi encontrado em cárcere privado dentro de uma residência apontada como local de um “tribunal do crime”. Cinco suspeitos foram presos.

ORDENS DE DENTRO DE PRESÍDIOS – Em junho, uma investigação em São José dos Quatro Marcos revelou estrutura ainda mais organizada.

A Operação Quadro Disciplinar teve como alvo o chamado “Quadro Disciplinar” de uma facção. Conforme a investigação, integrantes do grupo eram responsáveis por organizar punições, torturas e “salves”.

A operação cumpriu 22 ordens judiciais, entre elas quatro mandados de prisão preventiva, dois de internação provisória de adolescentes e nove de busca e apreensão.

Segundo a investigação, algumas determinações partiam inclusive de integrantes da organização que estavam presos.

O dado revela uma característica importante do funcionamento desses grupos: o tribunal não depende necessariamente da presença física de quem determina a punição. Ordens podem circular entre integrantes até chegar aos responsáveis pela execução.

A dinâmica ajuda também a compreender o episódio ocorrido neste sábado em Várzea Grande, no qual os sequestradores fizeram uma chamada de vídeo antes da possível execução e receberam a informação de que estavam com a pessoa errada.

QUATRO MULHERES RESGATADAS – Em julho, outro episódio ocorreu em Pedra Preta.

Quatro mulheres, de 18, 19, 28 e 28 anos, foram encontradas mantidas em cárcere privado em uma residência. Segundo a Polícia Civil, elas seriam submetidas a um “salve” por supostamente terem descumprido regras da organização criminosa.

Cinco pessoas foram presas por suspeita de tortura, sequestro, cárcere privado e participação em organização criminosa.

A sequência dos episódios mostra também a diversidade das razões atribuídas às punições. Há casos relacionados a disputas entre grupos criminosos, vingança, relacionamentos pessoais e descumprimento das regras estabelecidas pelas próprias facções.

As vítimas também não obedecem a um único perfil. Entre os casos identificados neste ano aparecem homens e mulheres adultos, adolescentes e até uma criança de 12 anos.

PODER DAS FACÇÕES – O avanço das organizações criminosas também aparece em operações policiais realizadas em outras regiões.

Nesta semana, quatro suspeitos apontados como integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) morreram durante confronto com policiais militares em Pontes e Lacerda. Entre eles estava um adolescente de 15 anos. Um quinto suspeito ficou ferido.

Antes do confronto, um dos integrantes do grupo chegou a publicar um vídeo exibindo uma pistola e fazendo ameaças a policiais.

O episódio não está diretamente relacionado ao “tribunal do crime” investigado em fevereiro na mesma cidade e, por isso, deve ser tratado separadamente. Ele, no entanto, ajuda a dimensionar a presença de organizações criminosas e, especialmente, o envolvimento de adolescentes nessas estruturas.

MAPA DOS “SALVES” EM 2026
COCALINHO — janeiro
Adolescente de 14 anos teria sido sequestrado e executado em tribunal relacionado à disputa entre facções.
PONTES E LACERDA — fevereiro
Jovem de 20 anos foi atraído para receber um “salve” e acabou executado.
SÃO PEDRO DA CIPA — fevereiro/março
Jovem de 22 anos relatou sequestro e tortura; adolescente de 17 anos também foi apontado como vítima.
ÁGUA BOA — março
Adolescente de 16 anos foi resgatada antes da tortura. Segundo a investigação, punição teria relação com término de namoro.
VÁRZEA GRANDE — abril
Menino de 12 anos foi resgatado após ser levado à força e ameaçado de morte.
SINOP — maio
Casal de 27 anos foi libertado de imóvel onde, segundo a polícia, funcionava um tribunal do crime.
SÃO JOSÉ DOS QUATRO MARCOS — junho
Operação atingiu o “Quadro Disciplinar” de facção responsável por organizar punições e torturas.
PEDRA PRETA — julho
Quatro mulheres foram resgatadas antes de serem submetidas a um “salve”.
VÁRZEA GRANDE — 15 de agosto
Homem sequestrado por engano foi baleado e escapou da possível execução depois que o mandante percebeu que os criminosos haviam capturado o alvo errado.
CAMPO VERDE — 15 de agosto
Homem mantido em cárcere privado e que seria submetido a um “salve” foi resgatado pela PM.
Importante: o quadro reúne casos identificados em levantamento jornalístico e não representa a estatística oficial completa de Mato Grosso.



Diário de Cuiabá