EDUCAÇÃO
Últimas Notícias
Dólar R$ -- 17:37:09 | 4 de novembro de 2026
POLICIAL

Comenda Charlie Kirk: quem Goiânia escolhe celebrar?

Bruno Falcão

Foram duas votações em menos de uma semana, e elas dizem mais sobre a Câmara Municipal de Goiânia do que qualquer discurso de tribuna.

Na quinta-feira, 29 de outubro, os vereadores aprovaram em primeiro turno, em votação simbólica, a criação da Comenda de Mérito Charlie Kirk. Apenas Fabrício Rosa (PT) e Aava Santiago (PSB) registraram voto contrário. Na véspera, a proposta já havia passado pela Comissão de Constituição e Justiça por 11 votos a 1.

Na terça-feira seguinte, 3 de novembro, a mesma Casa rejeitou, por 14 votos a 5, um requerimento que homenageava as torcidas antifascistas dos times goianienses Atlético-GO, Goiás e Vila Nova. Foi o próprio autor da comenda, o vereador Igor Franco (Podemos), quem pediu a votação nominal.

A mesma Câmara que negou uma homenagem aos torcedores da nossa cidade que se organizam contra o fascismo considera que um ativista americano sem qualquer vínculo com Goiânia merece dar nome a uma medalha. A pergunta que fica é simples: o que, afinal, Goiânia escolhe celebrar?

Uma medalha em nome de todos

Uma comenda não é uma opinião. É um ato institucional, feito em nome de todos os goianienses, inclusive dos que não concordam com quem a propôs. Quando a Câmara cria uma honraria, ela diz à cidade quem merece servir de exemplo, e o nome escolhido para batizá-la é o recado mais claro de todos.

Segundo o texto do projeto, a nova comenda será concedida todos os anos a cidadãos e instituições que se destaquem na defesa dos ideais conservadores, da liberdade de expressão, da fé cristã e da família. A medalha trará o rosto de Kirk e poderá ser entregue a até 50 pessoas por solenidade. São valores legítimos, que muitos goianienses compartilham. O problema não está neles, mas no patrono escolhido para representá-los.

Charlie Kirk fundou, aos 18 anos, a Turning Point USA, organização que mobilizou jovens conservadores nos campi americanos e teve papel importante nas campanhas de Donald Trump. Em 10 de setembro de 2025, aos 31 anos, foi assassinado a tiros durante um debate na Utah Valley University.

Sua morte foi um crime brutal, e a violência política deve ser repudiada sem exceção, venha de onde vier. Mas repudiar um assassinato é muito diferente de transformar a vítima em modelo de cidadania. Para entender por que, basta ouvir o que o próprio Kirk dizia.

“Polêmica na ótica de alguns”

Kirk construiu boa parte de sua trajetória atacando pessoas como eu. Disse em discurso que a questão trans nos Estados Unidos era “um dedo do meio latejante para Deus”. Chamou a comunidade LGBT de “máfia do alfabeto”. Em seu podcast, tratou a homossexualidade como um “erro” e a comparou ao alcoolismo e ao vício em drogas.

Mas seu alvo não era só a minha comunidade. Em 2020, chamou de “escória” George Floyd, o homem negro assassinado por um policial em Minneapolis. Em 2023, afirmou que negros saem por aí atacando pessoas brancas por diversão. E, para quem acha que nada disso nos diz respeito, Kirk também defendeu publicamente sanções dos Estados Unidos contra o Brasil.

Aqui no nosso país, aliás, desde 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) equipara a homotransfobia ao crime de racismo. A decisão preserva a liberdade religiosa, mas não o discurso de ódio, e define racismo também como a negação da dignidade e da humanidade de grupos vulneráveis. Falas como as de Kirk, ditas aqui, poderiam muito bem ser levadas à Justiça.

Questionado sobre as polêmicas que cercam Kirk, o autor do projeto foi econômico. “Polêmica na ótica de alguns”, respondeu Igor Franco à imprensa, negando que Kirk fosse racista ou homofóbico. Segundo ele, a comenda serve para “dar honra às pessoas que defendem os valores conservadores, os valores cristãos”.

A ótica, no caso, é a de quem viu a própria existência ser chamada de erro, de afronta a Deus, de máfia. Para essas pessoas, que também são goianienses e também pagam o salário dos vereadores, não se trata de polêmica. Trata-se de dignidade.

A torcida que não mereceu aplauso

O requerimento que homenageava as torcidas antifascistas de Atlético-GO, Goiás e Vila Nova não citava partido, governo ou líder político. A leitura de que se tratava de um ataque ao bolsonarismo partiu dos próprios vereadores que votaram contra. Quatorze deles. Nenhum desses quatorze se opôs à Comenda Charlie Kirk.

“É melhor que a gente tenha torcidas antifascistas do que torcidas fascistas”, resumiu o vereador Fabrício Rosa. A frase deveria ser óbvia. Na Câmara de Goiânia, virou posição de minoria.

O contraste revela um critério: homenagem a quem se organiza contra o fascismo é tratada como provocação política, enquanto homenagem a um ativista que atacava minorias é tratada como defesa de valores. Não é neutralidade: é lado.

Enquanto isso, a cidade real espera. E ela não espera pouco. A saúde municipal mal se recuperou da crise que, no fim de 2024, deixou pacientes morrendo à espera de leitos de UTI, levou à prisão de um ex-secretário e terminou em intervenção do Estado. E os problemas persistem: em outubro deste ano, a Justiça deu 20 dias para a Prefeitura regularizar o abastecimento de medicamentos e insumos nas unidades de urgência e emergência. A coleta de lixo virou novela: os serviços passaram da Comurg para um consórcio privado, em um contrato que supera R$ 550 milhões. Uma CEI da própria Câmara apontou falhas na execução e, em junho, a Justiça determinou a anulação da licitação que deu origem a tudo isso.

Basta uma chuva forte para a cidade parar. Em janeiro deste ano, a Defesa Civil disparou alerta severo e a Marginal Botafogo foi fechada por risco de alagamento, cena que se repete a cada verão. Em temporadas anteriores, houve carros arrastados pela enxurrada na Avenida T-9 e moradores ilhados às margens do Ribeirão João Leite. A cada estação chuvosa, Goiânia descobre de novo que seus córregos e galerias parecem não dar conta da cidade que cresceu sobre eles.

E há a violência que atinge pessoas como eu. Em 2025, Goiás foi o quinto estado do país em assassinatos de pessoas trans, segundo a Antra, a pior posição desde 2017. No mesmo ano, o Grupo Gay da Bahia contou quatro mortes violentas de pessoas LGBT+ só em Goiânia. Nenhum desses números ganhou comenda, sessão solene ou votação nominal.

A Câmara já tem mais de 75 honrarias desse tipo. Tempo e estrutura dedicados a criar mais uma, em nome de um estrangeiro sem vínculo com a cidade, são tempo e estrutura que não foram para nenhum desses problemas.

Ainda dá tempo

A comenda ainda não existe. O projeto está na Comissão de Cultura e precisa voltar ao plenário para o segundo turno. Cada vereador ainda pode escolher de que lado da história quer ter o nome registrado, e desta vez, de preferência, com voto nominal, para que a cidade saiba.

Escrevi a todos eles pedindo exatamente isso: uma posição pública. Não peço que abandonem suas convicções conservadoras ou cristãs. Peço que não as confundam com o desprezo por quem é diferente, e que não façam isso em meu nome, nem em nome da cidade onde nasci.

Uma honraria diz quem nós queremos ser. Goiânia pode escolher homenagear quem constrói a cidade para todos. Ou pode pendurar no peito de alguém uma medalha com o nome e o rosto de quem passou a vida tratando parte de nós como erro e afronta. A pergunta continua de pé: o que Goiânia escolhe celebrar?

Brunno Falcão é goianiense e jornalista.

O post Comenda Charlie Kirk: quem Goiânia escolhe celebrar? apareceu primeiro em Jornal Opção.

Fonte: www.jornalopcao.com.br