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POLICIAL

Noventa anos de Santa Casa de Goiânia. Ninguém encontra Gercina Borges Teixeira

A Santa Casa de Goiânia prepara uma homenagem a Gercina Borges Teixeira. Antes, poderia tentar encontrar seu rosto.

O busto da mulher que mobilizou recursos, colaboradores e trabalho para que o hospital existisse está desaparecido. A informação, agora oficial, foi confirmada pela própria instituição em resposta à Bolha, durante a apuração de uma reportagem especial sobre Gercina.

Segundo a assessoria, quando a atual Superintendência-Geral assumiu, em outubro de 2017, a peça já não estava no local. Desde então, afirma a nota, a gestão procura informações e tenta localizar o monumento. Sem sucesso.

Passaram-se mais de nove anos desde que essa administração encontrou a ausência. O desaparecimento pode ser ainda mais antigo. A nota não esclarece quando o busto foi retirado, quem o retirou nem para onde foi levado.

A Santa Casa completa 90 anos neste 4 de novembro. Na sexta-feira, 6, realizará uma solenidade comemorativa e, segundo informou, lembrará a contribuição de Gercina para sua fundação. A data de criação do hospital é registrada também pelo Ministério Público de Goiás.

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Busto de Gercina Borges Teixeira foi colocado em 1936, desapareceu em 2000, reapareceu meses depois e desapareceu em 2017 | Foto: Reprodução

Haverá, portanto, uma homenagem à mulher cujo monumento a instituição não consegue encontrar.

É uma situação constrangedora demais para caber entre os agradecimentos de uma cerimônia.

Gercina não foi uma senhora que passou pelo hospital, distribuiu sorrisos e emprestou o nome a uma placa. A mobilização iniciada em 1936 teve nela uma de suas forças centrais. Ao lado dos vicentinos, articulou doações, reuniu colaboradores e sustentou um esforço coletivo feito de festas, quermesses, sorteios e trabalho voluntário.

Um hospital não se levanta com boas intenções. Exige dinheiro, organização, persistência e capacidade de convencer os outros a trabalhar por uma ideia. Gercina fazia isso numa cidade que ainda aprendia a existir. (Dizem que, por trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher. No caso, é diferente: ela estava sempre ao lado de Pedro Ludovico, ousada, firme, propositiva.)

Depois, a história acomodou tudo sob a palavra “caridade”. É uma maneira bastante econômica de descrever o trabalho de uma mulher, ou seja, de realizadora abnegada.

Nas fotografias da antiga Santa Casa, seu nome ocupa a fachada da maternidade. O busto aparece diante do edifício. A presença tinha uma razão: aquela mulher participara da construção do que estava atrás dela.

Gercina Borges Teixeira quando o busto foi encontrado em 2000
O busto de Gercina Borges foi reencontrado em 2000; na foto aparece (à esquerda), entre outros, o escritor e pesquisador José Mendonça Teles | Foto: Reprodução

O prédio original foi demolido. A instituição prosseguiu em outro endereço. Era de esperar que sua memória também encontrasse acomodação.

A trajetória do busto, porém, revela que a homenagem já conhecera outras humilhações e esquecimentos.

Na apuração do perfil de Gercina, a Bolha recuperou reportagens do jornal “Diário da Manhã” que, em 2000, registravam o furto e a recuperação da peça original. Uma notícia de maio daquele ano distinguia o busto recuperado em Campinas, guardado no almoxarifado do hospital, de uma réplica instalada junto à capela Nossa Senhora das Graças, no terreno da antiga Santa Casa.

Gercina Borges Teixeira na porta da igrejinha da Igreja da antiga Santa Casa
Outro busto de Gercina Borges Teixeira, feito por Angelo Ktenas | Foto: Reprodução

Em 27 de agosto de 2000, o jornal informou que o original havia sido recolocado na entrada do hospital no dia anterior, durante as comemorações do centenário de Gercina.

O busto, portanto, já havia desaparecido, sido recuperado e devolvido à entrada.

Agora, novamente, a instituição não sabe onde ele está.

Essa sequência torna indispensável uma investigação que diferencie as peças e reconstrua seus deslocamentos. O original do hospital e a réplica da capela têm trajetórias próprias. Encontrar a fotografia de um não resolve o paradeiro do outro.

Pedro Ludovico Teixeira busto colocado em 1937
Busto de Pedro Ludovico Teixeira, feito por Zaco Paraná: instalado na entrada do Palácio das Esmeraldas, em 1937 | Foto: Reprodução

O original é atribuído a Zaco Paraná, autor do busto de Pedro Ludovico Teixeira, de 1937, instalado diante do Palácio das Esmeraldas. A autoria da homenagem a Pedro está documentada em pesquisa sobre a arte pública de Goiânia.

O marido permanece diante do palácio. A mulher que ajudou a erguer o hospital tem o paradeiro de sua homenagem desconhecido pela própria instituição.

A comparação incomoda porque prolonga, em bronze, uma desigualdade que a narrativa histórica já se encarregara de estabelecer.

Na resposta encaminhada à Bolha, a Santa Casa afirma que a ausência do busto não diminui seu reconhecimento e respeito por Gercina. Cita o Coral Dona Gercina e anuncia a homenagem de sexta-feira. (Leia a íntegra da nota abaixo.)

O coral tem seu valor. A cerimônia também. O desaparecimento continua exigindo uma resposta.

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Gercina Borges Teixeira e Pedro Ludovico Teixeira: o casal que movimentou a política de Goiás por décadas | Foto: Reprodução

Declarar respeito pela memória de alguém implica assumir obrigações com aquilo que a preserva. Quais buscas foram realizadas desde 2017? Quais antigos dirigentes e funcionários foram ouvidos? Há inventário, registro de transferência, fotografias datadas, comunicação às autoridades? Qual é o último documento que comprova a presença da peça no hospital?

A nota não informa (o espaço está aberto para novas manifestações da Santa Casa e de outras instituições e pessoas.)

Não há elementos para atribuir à atual administração a retirada do busto nem para afirmar que houve um novo furto. Há, entretanto, motivo suficiente para cobrar uma prestação de contas sobre as buscas que a gestão diz realizar há mais de nove anos.

A direção deve abrir seus registros. Os órgãos municipais e estaduais de patrimônio devem ajudar a rastrear a obra. Se aparecerem indícios de crime, que sejam encaminhados à investigação competente.

A passagem do tempo aumenta essa obrigação. Não a dissolve.

Gercina morreu em 22 de novembro de 1976. Neste mês, completam-se cinquenta anos de sua morte. O aniversário da Santa Casa oferece uma ocasião especialmente oportuna para que o reconhecimento anunciado produza uma providência concreta: localizar a peça, avaliar sua conservação e restituir-lhe um lugar digno. A história exige.

Se a busca continuar sem resultado, será preciso apresentar à cidade o que foi feito e assumir publicamente os próximos passos. Uma instituição capaz de atravessar nove décadas deve conseguir organizar a investigação sobre um bem de sua própria história.

Gercina ajudou a encontrar recursos para construir um hospital numa capital que mal começara.

Noventa anos depois, o hospital precisa encontrar o busto dela. E, até, uma questão de respeito à memória de Gercina.

Nota da Santa Casa de Goiânia

“A Santa Casa de Misericórdia de Goiânia informa que, desde outubro de 2017, quando a atual Superintendência-Geral assumiu a gestão da instituição, o busto de Dona Gercina Borges Teixeira, que ficava instalado em frente ao hospital, já não se encontrava no local.

“Desde então, a atual gestão tem buscado informações e procurado localizar o monumento, mas, até o momento, não obteve êxito.

“A ausência do busto, no entanto, não diminui o reconhecimento e o respeito da Santa Casa à memória de Dona Gercina, cuja contribuição para a história da instituição e da própria capital goiana é de grande relevância. Como primeira-dama do Estado de Goiás, ao lado de seu esposo, o então governador Pedro Ludovico Teixeira, ela teve participação importante na história de Goiânia e na construção de iniciativas voltadas à assistência social e ao cuidado com a população.

“Sua memória permanece presente na instituição, inclusive por meio do Coral Dona Gercina, que leva seu nome. Em reconhecimento à sua trajetória e à sua contribuição para a fundação da Santa Casa, ela também será homenageada no dia 6 de novembro, durante a programação comemorativa dos 90 anos da instituição.

“A Santa Casa reafirma, assim, seu respeito à história de Dona Gercina e seu compromisso com a preservação da memória daqueles que ajudaram a construir a instituição.”

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Fonte: www.jornalopcao.com.br