O excesso de exposição às telas na infância, frequentemente debatido apenas sob a ótica da saúde mental e do desenvolvimento cognitivo, esconde uma dimensão igualmente impactante: o funcionamento hormonal e metabólico do organismo infantil. É o que revela a médica endocrinologista pediatra e docente da Universidade Federal de Goiás, Renata Machado, em seu novo livro “Infância Hiperconectada: como o excesso de telas afeta a saúde do seu filho”.
A obra traz uma reflexão sobre os hábitos familiares e propõe mudanças para um uso racional da tecnologia, alertando que muitas crianças podem aparentar saúde plena enquanto acumulam, ao longo dos anos, prejuízos biológicos significativos.

Segundo a especialista, o corpo humano opera a partir de ritmos biológicos organizados por um relógio central no hipotálamo, responsável por coordenar funções como sono, secreção hormonal e metabolismo energético. A exposição à luz artificial durante a noite, especialmente a luz azul emitida por dispositivos eletrônicos, interfere diretamente na produção de melatonina, hormônio essencial para sinalizar ao organismo o momento de dormir.
Quando questionada sobre as consequências desse processo, Renata explica que os efeitos vão além da melatonina. “Quando o uso excessivo de dispositivos compromete o sono e favorece o sedentarismo, pode contribuir para alterações na regulação do apetite, no metabolismo da glicose e na composição corporal”, afirma. Essas mudanças, associadas a hábitos alimentares inadequados, elevam o risco de obesidade e de alterações metabólicas ao longo do tempo.
Ainda de acordo com a médica, o sono adequado não se resume à quantidade de horas dormidas. “Dormir não significa apenas acumular horas de sono. É preciso considerar também a qualidade, a regularidade e o momento em que esse sono acontece”, ressalta. A exposição às telas à noite pode suprimir ou atrasar a secreção de melatonina, deslocando o relógio biológico e dificultando o início do sono.
Além disso, conteúdos estimulantes mantêm o cérebro em estado de alerta quando ele deveria estar se preparando para descansar. Na endocrinologia pediátrica, essa questão é particularmente relevante porque a maior parte da secreção diária do hormônio do crescimento (GH) ocorre em pulsos associados ao sono profundo. “Um sono cronicamente insuficiente ou fragmentado pode prejudicar condições fisiológicas importantes para o crescimento e o desenvolvimento”, adverte a médica.
Sobre a relação entre telas e alterações no crescimento infantil, Renata pondera que é necessário distinguir mecanismos fisiológicos conhecidos de efeitos clínicos comprovados. Estudos observacionais correlacionam menor estatura em crianças com sono de pior qualidade e menor duração. Contudo, segundo ela, ainda não há evidências científicas robustas para afirmar que o excesso de telas, isoladamente, provoque baixa estatura ou reduza diretamente a velocidade de crescimento de uma criança saudável. “O que temos é um conjunto de mecanismos biologicamente plausíveis e de associações que merecem atenção”, esclarece.
A especialista destaca que o crescimento depende de uma interação complexa entre genética, nutrição, hormônios, sono e atividade física, não sendo correto atribuir uma alteração de crescimento exclusivamente ao uso de telas.
A possibilidade de associação entre exposição excessiva às telas e antecipação puberal também tem despertado interesse científico. Uma das hipóteses envolve a melatonina, que participa da comunicação entre o ciclo de luz e escuridão e os mecanismos neuroendócrinos relacionados à maturação sexual. Outra possibilidade envolve efeitos indiretos, como sedentarismo, sono insuficiente e maior risco de obesidade, que podem influenciar a maturação puberal, especialmente entre meninas.
Segundo Renata, uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2025, reunindo aproximadamente 98 mil crianças e adolescentes, encontrou associação entre maior tempo de tela e desenvolvimento puberal mais precoce. No entanto, os autores destacaram limitações metodológicas e a impossibilidade de estabelecer relação causal. “Ainda não podemos afirmar que a luz das telas provoque puberdade precoce em crianças”, afirma a médica, reforçando que a puberdade depende de múltiplos fatores, incluindo predisposição genética, estado nutricional e mecanismos neuroendócrinos.
“O que podemos dizer é que existem sinais científicos suficientes para justificar novas pesquisas e reforçar a importância da preservação do sono e de hábitos saudáveis desde os primeiros anos de vida. Na medicina, é importante reconhecer os riscos emergentes sem transformar hipóteses científicas em verdades definitivas”, disse.
A motivação para escrever o livro, segundo a autora, nasceu da convergência entre sua experiência clínica, a atuação como professora universitária e uma inquietação crescente diante das transformações na infância contemporânea. “O livro nasceu dessa necessidade de construir uma ponte entre a ciência e o cotidiano”, revela.
Renata conta que percebeu como os hábitos digitais ocupavam espaço cada vez maior na rotina de crianças e adolescentes, substituindo atividades essenciais ao desenvolvimento, como brincar, movimentar-se, conviver com a família e dormir adequadamente. “Meu objetivo não foi escrever um livro contra a tecnologia, mas a favor da infância”, pontua.
Uma das descobertas que mais impressionaram a médica durante a pesquisa foi a profundidade da relação entre o horário das atividades, o relógio biológico e o metabolismo. Estudos experimentais mostram que realizar refeições em horários biologicamente inadequados pode prejudicar a tolerância à glicose, mesmo sem alterações expressivas na quantidade ou composição dos alimentos. “A rotina de uma criança não é apenas uma questão de organização familiar. Ela também é uma questão de saúde biológica”, destaca.
O livro, voltado ao público que ainda não tem tanto conhecimento sobre o assunto, utiliza linguagem acessível, analogias e exemplos do cotidiano para traduzir pesquisas complexas.
Entre as recomendações práticas, Renata sugere reorganizar a rotina a partir do sono, estabelecendo horários regulares, evitando dispositivos pelo menos uma hora antes de deitar e mantendo celulares e tablets fora do quarto durante a noite. Também incentiva refeições sem telas, exposição à luz natural durante o dia e oportunidades diárias de movimento e brincadeiras.
A autora apresenta quatro experiências fundamentais a serem resgatadas: movimento, contato com a natureza, leitura e brincadeira livre. “Não podemos esperar que uma criança abandone o celular durante as refeições enquanto seus pais permanecem conectados o tempo inteiro”, alerta.
Por fim, Renata espera que as famílias, após a leitura, passem a olhar para o tempo da infância de maneira diferente. “Espero que as famílias terminem o livro dispostas a oferecer menos tempo de tela e mais tempo de infância”, resume. A médica reforça que proteger a infância não significa rejeitar o mundo moderno, mas encontrar um equilíbrio que permita às crianças crescerem saudáveis em todas as dimensões. “A tecnologia continuará evoluindo, novos dispositivos surgirão e o mundo será cada vez mais conectado. Mas nenhuma inovação substituirá o valor de uma infância vivida plenamente”, conclui.
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