João Bosco, que faz 80, sempre buscou a perfeição com grandes parcerias
Em uma premonitória entrevista dada a Zuza Homem de Mello em 1967, Vinicius de Moraes declarou que seus parceiros poderiam ser “desde João Sebastião Bach, até um menino que encontrei outro dia em Ouro Preto, João Bosco”. Mais um octogenário ilustre, o canceriano João Bosco nasceu em 13 de julho de 1946, em Ponte Nova (MG).
Haveriam de passar cinco anos até a estreia discográfica do “menino”: “Agnus Sei”, primeira canção da dupla João Bosco e Aldir Blanc, sairia no célebre disco de bolso lançado em 1972 pelo jornal O Pasquim.
Bosco fora escolhido como o artista iniciante para ocupar o “lado B” do compacto cujo carro-chefe era nada menos que a primeira gravação de “Águas de Março”, de um já consagradíssimo Tom Jobim. Desde então, até chegar à sabedoria ancestral que marca o CD “Boca Cheia de Frutas” (2024), foram 28 álbuns, nos quais nenhuma nota é desperdiçada.
Exatas duas décadas depois da estreia no disco de bolso, a data da gravação do álbum ao vivo “João Bosco Acústico MTV” (28 de janeiro de 1992) merece ser celebrada como um dos mais importantes acontecimentos da música brasileira na última década do século passado.
Entre outras preciosidades, traz aquela que seria a versão definitiva de “Jade” —quem não se lembra da canção que foi trilha sonora da novela “O Salvador da Pátria” (1989)?
Em “Jade”, canção com música e letra de João Bosco, as frases sonoras começam curtas, seguindo um motivo com apenas duas notas, si-si-lá-si. Com seus esdrúxulos jogos de palavras —”áqua-louca tara que tem imã”, “misterioso cubanacã”—, o texto busca se situar tão perto quanto possível do tato, das vibrações que saem do corpo do outro.
Então, uma frase maior, gradual, toma forma: “Pedra que lasca seu brilho / E que queima no lábio um quilate de mel / E que deixa na boca melante / Um gosto de língua no céu”, para explodir, sublime, em “Luz-talismã […]”.
Esse ponto culminante —plenitude amorosa?— traz exatamente as mesmas notas que iniciaram a canção (“Aqui, meu irmão”: si-si-lá-si), porém com outra harmonia: ao invés do contido mi menor, agora um luminoso acorde de sol maior.
“Jade” aparece pela primeira vez em “Bosco” (1989), disco de transição entre o momento áureo da parceria com Aldir Blanc e o início de uma nova fase. Nesse álbum, apenas a faixa final, “Corsário”, tem letra de Aldir.
Desenvolvida paulatinamente ao longo da década anterior, a relação entre voz e violão estabelecida por João Bosco já havia gerado o emblemático “100ª Apresentação” (1983) e atingiria em “Acústico” um nível máximo de perfeição.
Do ponto de vista da performance, é como se João Gilberto e Baden Powell fossem uma só pessoa, e ainda assinassem as composições e arranjos. O show gravado exibe uma “música de câmara solo”, dele consigo mesmo, trabalhada, polida em cada nuance.
Não há sequer uma nota trastejada no instrumento, não há a mínima hesitação vocal ou lapso de memória. “Acústico” é o mais importante disco de voz e violão da música brasileira desde “Caymmi e seu Violão” (1959).
O repertório do “JB Acústico” traz vários clássicos da parceria com Aldir Blanc, rompida cinco anos antes; lá estão “Quilombo”, “Tiro de Misericórdia” e “Corsário”, além de parcerias com Martinho da Vila (“Odilê, Odilá”) e Capinan (“Papel Machê”).
O disco retoma, sobretudo, cinco das canções lançadas no ano anterior, no espetacular CD “Zona de Fronteira” (1991), testemunho da verdadeira reinvenção composicional estimulada pelos novos parceiros Antonio Cicero e Wally Salomão: “Zona de Fronteira”, “Holofotes”, “Granito”, “Memória da Pele” e “Trem Bala”.
No “Acústico”, “Jade” surge após “Granito”, poema de Cicero que requer reprodução integral: “Há entre as pedras e as almas / Afinidades tão raras, como vou dizer? / Elas têm cheiro de gente / Queira ou não queira, se sente / Têm esse poder / Pedra e homem comovem / Sobem e descem, e somem / E ninguém sabe bem / O homem desce dos céus / E a pedra nasce de Deus / Que tudo contém / Mas o templo, eu faria assim / Puro de uma pedra bruta / De uma fruta bem calada, diminuta furta-cor / Do granito assim a cintilar no seu olhar”.
É a vida das pedras, assim representada, que prepara o terreno para, sem mudar de faixa, evocar a “luz-talismã” emanada dos olhos verdes da pessoa amada em “Jade”.
“Ostra grudada na pedra Brasil.” É assim que Maurício Kubrusly intitula um breve ensaio lançado em 1982 como encarte de LP na coleção de fascículos, vendidos em bancas de jornais, “História da Música Popular Brasileira”, da editora Abril Cultural, com curadoria de Tárik de Souza e Zuza Homem de Mello. O título do volume não deixa dúvidas: “João Bosco & Aldir Blanc”.
Bosco e Aldir, morto pela Covid em 2020, não foram apenas parceiros: formavam uma dupla, na acepção plena do termo. Mais fiéis do que Lennon e McCartney (ou Roberto e Erasmo Carlos), que tiveram Bosco e Aldir compuseram juntos a maioria absoluta das canções lançadas com estrondoso sucesso pelo próprio Bosco ao longo de dez anos, desde o LP de estreia, em 1973.
Isso sem mencionar as versões de outros intérpre-tes, como Elis Regina, que sozinha gravou mais de uma dúzia de composições assinadas pela dupla.
Vários desses primeiros trabalhos fonográficos são integralmente dedicados a composições dos dois, como o LP “Caça à Raposa” (1975), álbum em que Bosco encontra sua voz poética própria após um instigante disco de estreia onde a vertente mineira advinda do Clube da Esquina ainda era forte.
No mesmo fascículo de 1982, o texto biográfico, o não assinado “Onde o Ronco da Cuíca Soa Fome”, fala da dupla como “um se acariocando, outro aprendendo coisas de mineiro; a parceria fluindo, crescendo em repertório e qualidade”.
Basta citarmos que “Caça à Raposa” apresenta, sozinho, canções como “O Mestre Sala dos Mares”, “De Frente pro Crime”, “Dois pra Lá, Dois pra Cá”, “Kid Cavaquinho” e a aula magna de Aldir que é “Escadas da Penha”: “Nas escadas da Penha, penou / No cotoco de vela, velou / A doideira da chama, chamou / O seu anjo-de-guarda, guardou / O remorso num canto, cantou / A mentira da nega, negou / O ciúme que mata, matou / O amigo de ala, tá lá”, onde a história só se revela inteira quando o texto é cantado retrogradamente: “O amigo de ala, matou / O ciúme que mata, negou” —e assim para trás.
A consistência artística segue nos discos seguintes, “Galos de Briga” (1976), que inclui “Incompatibilidade de Gênios”, “O Ronco da Cuíca” e “Rancho da Goiabada”, e “Tiro de Misericórdia” (1977), que mergulha mais e mais na africanidade do samba-choro tradicional, o que é ressaltado pela presença dos mestres violonistas Meira e Dino 7 Cordas, do flautista Altamiro Carrilho, do clarinetista Abel Ferreira e do trombonista Raul de Barros.
No álbum seguinte, “Linha de passe” (1979), Raphael Rabello imprime seu violão de 7 cordas na faixa título, e João Donato toca piano em “Sudoeste’.
Muitas vezes salientada, a fusão entre lirismo e dureza da realidade, a medula da poesia de Aldir, amplifica-se com naturalidade na música de Bosco, em que o registro sublime se mescla à estranhalização das coisas simples do cotidiano: a “lua da Zona Norte” vista como a “dona de um bordel”; a transa proibida, revelada quando a luz é acesa; ou, ainda, a foto de um gol estampada no jornal que cobre o rosto de um corpo caído no chão na madrugada da periferia.
Se a brutalidade do real surge predominantemente em sambas com todas as variedades rítmicas, os dilemas do desejo emergem, desde que Elis cantou “Dois pra Lá, Dois pra Cá”, no decadentismo harmonicamente sofisticado dos boleros.
A poética de “glórias às lutas inglórias” encontraria em “Nação” (1982), composição de Aldir, Bosco e Paulo Emílio, um ponto alto de complexidade e excelência.
Antisamba exaltação, “Nação” junta o candomblé, a fome, a doença, a água contaminada, as queimadas das florestas e o abandono do povo preto ao Brasil visto como “aquarela”: “A minha cor é o arco-íris, minha fome é tanta / Planta, flor irmã da bandeira / A minha sina é verde-amarela feito a bananeira”.
Essa lírica, no entanto, começaria a encontrar certo limite ao longo dos anos 1980. A escuta retrospectiva da discografia de João Bosco revela uma busca sem fim por excelência musical, que se manifesta na escolha dos arranjadores, dos instrumentistas com quem toca, e no perfeccionismo das performances, onde se instala a sua presença luminosa como cantor-violonista.
Em um determinado ponto, simbolizado por “Jade”, a musicalidade musical da própria música é que parece guiar os rumos da canção, e a exigir, ela mesma, a sua poética. João Bosco passa a criar frases vocais cada vez mais extensas; explora o falsete como efeito expressivo, sim, mas também como necessidade instrumental de ampliação da tessitura.
O cantor, desde sempre impecável na afinação, submete sua voz peculiar a experimentos, inventa onomatopeias, improvisa, roça a pele do som. Interage com o violão de forma assombrosa, começando onde João Gilberto havia parado. Como apontado já em “Cabeça de Nego” (1986), músicas se descolam de letras.
Ritmicamente, seu violão —sonoro, limpo, exuberante— atinge os mais altos níveis da música instrumental para cordas dedilhadas. A hipnótica batida de samba —hoje parte da pedagogia do internacionalmente chamado “violão brasileiro”, que youtubers de todos os tipos tentam ensinar em passo a passo— tem nuances assimétricas, com o som que evoca o bumbo variando nas antecipações do polegar da mão direita.
Paulatinamente, haverá a incorporação, ao violão, de camadas altamente complexas do pop, do blues e do jazz, que, após a ruptura com Aldir, desaguariam no paradigmático álbum “Zona de Fronteira”, as parcerias com Cicero e Salomão, e no “Acústico MTV”.
João Bosco e Aldir Blanc ficarão muito tempo sem fazer música juntos, mas, também, como seguir compondo após “O Bêbado e a Equilibrista”? Que renovação seria possível depois de “Nação”?
Após o final da ditadura, com a Constituição de 1988 e a redemocratização do país, nem todos os artistas que haviam erigido suas carreiras em meio à contestação do regime autoritário conseguiram se reinventar.
Conforme defendi na Ilustríssima em artigo publicado em 2024, um dos casos mais bem-sucedidos foi o de Chico Buarque, cuja carreira madura ganhou amplitude temática e refinamento poético-musical.
João Bosco sempre foi impulsionado pelo trabalho profundo e recorrente com parceiros, tendo interagido, ao longo da carreira, com um número bastante restrito de letristas. Por outro lado, o disco de 1991 com Antonio Cicero e Wally Salomão foi um caso isolado.
Fruto da colaboração entre artistas no auge de suas trajetórias, disse de uma só vez tudo o que havia a dizer. O artista chegou à virada do século, portanto, com a necessidade de se reinventar mais uma vez, e o fez consistentemente a partir da obstinada parceria com Francisco Bosco, seu filho.
Intelectual aberto a múltiplas vertentes —filosofia, antropologia, ciência política, teoria literária, psicanálise—, Francisco começa a compor com o pai ainda muito jovem. Tal como os primeiros trabalhos com Aldir Blanc, álbuns como “As Mil e uma Aldeias” (1997), “Na Esquina” (2000) e “Malabaristas do Sinal Vermelho” (2002) são praticamente inteiros com músicas feitas pela dupla.
Apesar de um caráter ainda um tanto experimental, vale a pena revisitá-los, e canções como “Mama Palavra”, “Metamorfoses”, “Ditodos”, “Na Esquina” e “Enquanto Espero” chegaram a ter, merecidamente, um espaço importante em shows e discos ao vivo gravados (e lançados também no formato DVD) na primeira década deste século.
Mais uma vez, a música de João Bosco teve de mudar para se acomodar a uma nova poética, porém agora em um processo de criação paciente, que se desenvolveu aos poucos. Seu amadurecimento pleno ocorre no extraordinário álbum “Não Vou pro Céu, Mas Já Não Vivo no Chão” (2009), que marca também o retorno de algumas parcerias com Aldir e faixas com letras de Carlos Rennó e Nei Lopes.
É nesse momento, após uma década de trabalho, que pai e filho encontram uma naturalidade expressiva, rica e exuberante, manifesta em canções como “Perfeição”, “Desnortes”, “Tanajura”, “Mentiras de Verdade”, “Alma Barroca” e “Tanto Faz”, esta última uma das melhores canções de toda a discografia de João Bosco.
Poeticamente, Francisco conseguirá entrelaçar modernidade e singeleza, no improvável ponto de intersecção entre Paulinho da Viola, Antonio Cicero e outro Chico, o Buarque.
Tanto que, musicalmente, “Tanto Faz” abre caminho para “Sinhá”, a (até aqui) derradeira parceria de João Bosco com Chico Buarque, e que passaria a integrar os shows de ambos a partir da década de 2010. Recorde-se que, antes disso, Chico e Bosco haviam feito juntos apenas a rosiana “Mano a Mano” (1984).
Do ponto de vista musical, a obra madura de João Bosco com Francisco não se compromete com este ou aquele gênero, já que pode partir de modinhas e valsas, da bossa nova, dos traços caribenhos e até mesmo do samba, rumo a uma canção essencial —quando o rótulo estilístico deixa de ser o assunto principal para dar espaço a uma dicção melódica nova, serena, traduzida em um desenvolvimento motívico-temático sem cortes, e que permite a Francisco até mesmo comentar, metalinguisticamente, a produção anterior do pai, aquele conjunto de músicas que ele e “a torcida do Flamengo” cresceram cantando.
De certo modo, com seus principais parceiros anteriores —Aldir Blanc, Salomão e Cicero—, João Bosco era musicalmente provocado pelos poetas, e sua “música popular cantada” se justapunha, provocante, aos versos.
Nos melhores momentos com Francisco, por outro lado, a arte cancionista vira uma coisa só, e por isso não faz sentido transcrever a letra de “Tanto Faz” sem suas curvas melódicas hesitantes. Francisco não é um poeta que faz canções: sua poesia emerge do artesanato híbrido, implicado, como já se anunciara em “Jade”, por melodia e harmonia.
Até aqui são mais de 50 músicas da parceria pai-filho, gravadas por João Bosco ao longo de um período de quase 30 anos, isto é, trata-se de um trabalho muito mais longevo do que a originária dupla com Aldir Blanc.
Que essas peças sejam menos conhecidas do que os sucessos dos anos 1970 deve-se mais às mudanças do mercado musical do que à sua qualidade ou nível artístico.
Muitos dos discos lançados por João Bosco nas últimas décadas trazem colaborações fecundas com instrumentistas de formação jazzística, como os guitarristas e arranjadores Nelson Faria e Ricardo Silveira, a NDR Bigband de Hamburgo, o Trio Madeira Brasil, a clarinetista e saxofonista Anat Cohen e, especialmente, o virtuose da bateria Kiko Freitas, que consegue encaixar e amplificar, com as baquetas, cada movimento de polegar, indicador médio e anular da mão direita de Bosco.
No mesmo texto de 1982 mencionado acima, Kubrusly escreve: “Toca de tatu, linguiça e paio, boi zebu / Rabada com angu, rabo de saia / Naco de peru, lombo de porco com tutu / E bolo de fubá, barriga-d’àgua: se quiser descobrir como tal amontoado de comilanças pode ser transformado em magníficas canções, confira ouvindo ‘Linha de Passe’”.
Também citando e comentando “Linha de Passe”, Francisco Bosco resume, em “Abricó de Macaco” (2020), o interesse perene da arte de João Bosco: “Babaluaê, rabo de arraia e confusão […] / Vida, tudo o que existe / Desde o firmamento / Ao chão”.
* Sidney Molina
É violonista, professor e crítico musical. Autor dos livros “Mahler em Schoenberg” e “Música Clássica Brasileira Hoje” e fundador do quarteto de violões Quaternaglia

