Ordem para matar adolescente em MT teria partido do Rio



Claudia Geovana

O sequestro, tortura e assassinato de Claudia Geovana Dourado de Oliveira, de apenas 14 anos, expôs uma conexão que ultrapassa as fronteiras de Mato Grosso. A principal linha investigativa da Polícia Civil aponta que a morte da adolescente teria sido determinada por um integrante de facção criminosa que estava no Rio de Janeiro e executada por um núcleo que atuava no Estado.

O crime ocorreu no início deste mês e já resultou na prisão de quatro suspeitos. Outros envolvidos foram identificados e a polícia ainda procura um homem apontado como participante do sequestro e homicídio.

Imagens de câmeras de segurança ajudaram a Polícia Civil a reconstruir os primeiros momentos do crime

Imagens de câmeras de segurança ajudaram a Polícia Civil a reconstruir os primeiros momentos do crime

Claudia desapareceu na madrugada de 6 de agosto, depois de ser retirada à força do quarto onde estava hospedada em Lucas do Rio Verde (332 km de Cuiabá).

Imagens de câmeras de segurança ajudaram a Polícia Civil a reconstruir os primeiros momentos do crime. As gravações mostram homens chegando ao quarto, arrombando a porta e levando a adolescente.

A partir daí, os investigadores começaram a seguir o caminho percorrido pelos sequestradores.

Um Fiat Mobi branco foi identificado nas imagens como o veículo utilizado para transportar Claudia. O carro levou a polícia ao primeiro suspeito, apontado como responsável pelo transporte da adolescente.

Localizado pelos investigadores, ele acabou preso e forneceu informações sobre a região para onde havia levado outros envolvidos no crime. As diligências conduziram os policiais até uma área de mata próxima à BR-163.

O corpo de Claudia foi encontrado no dia 12, enterrado em uma cova. Ela estava com as mãos amarradas e havia uma corda em seu pescoço. As circunstâncias encontradas pela polícia apontaram para violência anterior à morte.

“TRIBUNAL DO CRIME” – Com o avanço da investigação, o caso deixou de ser tratado apenas como sequestro seguido de homicídio e passou a revelar indícios da atuação organizada de uma facção.

A principal linha apurada é de que Claudia tenha sido submetida a uma espécie de “tribunal do crime”, mecanismo utilizado por organizações criminosas para impor punições e executar pessoas consideradas inimigas ou acusadas de contrariar regras estabelecidas pelo próprio grupo.

Informações reunidas durante a investigação indicam que a adolescente teria sido associada a uma facção rival. Uma das hipóteses apuradas é de que essa associação esteja relacionada ao relacionamento que ela mantinha e a publicações feitas nas redes sociais.

Essa motivação, contudo, ainda integra a investigação e não deve ser tratada como conclusão definitiva enquanto o inquérito não estiver concluído.

O que amplia a dimensão do caso é a suspeita de que a decisão de matar a adolescente não tenha sido tomada pelos executores que estavam em Mato Grosso.

Segundo as informações policiais reunidas no boletim, a ordem teria partido de um integrante de facção localizado no Rio de Janeiro. A investigação tenta estabelecer como a determinação foi transmitida ao grupo, qual posição o suposto mandante ocupa na organização e qual era sua relação com os integrantes que atuaram em Lucas do Rio Verde.

FUGA PARA O RIO – Outro elemento reforçou a conexão interestadual investigada pela polícia.

No sábado (15), dois homens e uma mulher, todos com 22 anos e com mandados de prisão preventiva pelo caso, foram localizados em Paranaíba, Mato Grosso do Sul, quando seguiam em direção ao Rio de Janeiro.

O trio havia saído da rodoviária de Cuiabá em um veículo contratado por aplicativo. Conforme as informações divulgadas, a corrida até o Rio teria sido acertada por cerca de R$ 1,5 mil.

A Delegacia Especializada de Roubos e Furtos (Derf) de Lucas do Rio Verde repassou as informações sobre o deslocamento à Polícia Rodoviária Federal, que interceptou o veículo na BR-158.

Os três foram presos e encaminhados à Polícia Civil de Mato Grosso do Sul.

Com essas prisões e a detenção anterior do homem relacionado ao transporte da vítima, quatro suspeitos foram capturados.

CADEIA DE COMANDO – A investigação busca agora reconstruir toda a cadeia de responsabilidades pelo assassinato.

Uma das questões centrais é determinar quem identificou Claudia e informou sua localização no hotel. A polícia também procura estabelecer quem teria decidido pela morte, quem recebeu a ordem, quem invadiu o quarto, quem transportou a adolescente, quem participou da tortura e execução e quem posteriormente ajudou a ocultar o corpo.

A existência de um suposto mandante no Rio de Janeiro acrescenta outra questão: até que ponto núcleos criminosos que atuam em Mato Grosso recebem determinações de integrantes da mesma organização localizados em outros estados.

O deslocamento de três investigados justamente em direção ao Rio depois do crime também está entre os elementos a serem esclarecidos.

O inquérito apura os crimes de sequestro, cárcere privado, homicídio e ocultação de cadáver.

ÚLTIMO SUSPEITO – A Polícia Civil mantém as buscas pelo suspeito que ainda não havia sido localizado. A expectativa é de que sua prisão permita avançar na reconstrução da execução e, principalmente, esclarecer a cadeia de comando que teria levado à morte da adolescente.

Mais do que identificar quem estava fisicamente no local do crime, os investigadores procuram determinar quem ordenou a morte e como uma decisão supostamente tomada a mais de 1,5 mil quilômetros de Mato Grosso chegou aos responsáveis por sequestrar e executar uma menina de 14 anos.

A resposta poderá dimensionar não apenas a estrutura por trás da morte de Claudia Geovana, mas também o alcance interestadual dos chamados “tribunais do crime” utilizados pelas facções.



Diário de Cuiabá