Em Paris, a bandeira palestina apareceu em protestos por melhores condições de ensino. Em Milão, acompanhou manifestações contra o governo e o custo de vida. Em Berlim, no último sábado de outubro, dividiu espaço com símbolos anarquistas e da Antifa numa concentração que reivindicava investimentos em educação e moradia. A geografia mudava. O símbolo permanecia.
Essa recorrência tem significado político. A causa palestina ultrapassou sua dimensão territorial e adquiriu uma função agregadora: oferece identidade, linguagem e autoridade moral a movimentos com objetivos distintos.
Sob a mesma bandeira, podem caminhar quem deseja proteger crianças em Gaza e quem pretende converter aquela indignação em instrumento contra a democracia liberal. A diferença entre esses propósitos deveria ser o começo da discussão. Em determinadas manifestações, tornou-se um inconveniente que se prefere esconder.
Em Milão, no dia 10 de outubro, a agência ANSA registrou a presença de organizações como Potere al Popolo e Rifondazione Comunista num ato pró-Palestina. Entre os cartazes, havia uma equiparação entre o 7 de Outubro e o 25 de Abril, data da libertação italiana do fascismo. O ataque terrorista recebia, assim, uma tentativa de reabilitação histórica: bastaria pendurar nele a palavra “resistência”.
É uma operação intelectualmente obscena. E politicamente reveladora. Quando uma causa permite absolver qualquer método empregado em seu nome, ela já começou a funcionar como salvo conduto. O sofrimento dos civis permanece diante das câmeras; a responsabilidade dos grupos armados desaparece atrás da faixa.
A instrumentalização da questão palestina merece ser tratada com a gravidade que tem. Organizações da esquerda radical podem encontrar nela uma plataforma de contestação do Ocidente. Movimentos islamistas podem explorar a mesma mobilização para conquistar legitimidade, ampliar influência e apresentar seus adversários como inimigos de uma população inteira. Os objetivos finais não precisam coincidir para que a aproximação seja politicamente útil.
A Irmandade Muçulmana ocupa um lugar central nessa discussão.
Fundada no Egito em 1928, por Hassan al-Banna, desenvolveu um projeto no qual a religião organiza a vida social e política. Seu horizonte ultrapassa a liberdade de culto: envolve a autoridade para determinar como a sociedade deve funcionar. O Ministério do Interior francês examinou essa matriz e sua adaptação ao ambiente europeu em relatório publicado em 2025.
No Egito, a Irmandade foi declarada organização terrorista pelo governo em dezembro de 2013. Esse enquadramento estatal não resolve todas as controvérsias sobre o movimento. Impede, entretanto, que sua trajetória seja reduzida à de uma associação religiosa incompreendida. A disputa em torno dela sempre envolveu poder.
O Hamas nasceu dessa tradição. Seu estatuto de 1988 o identifica como ramo da Irmandade Muçulmana na Palestina. A relação histórica está escrita no documento da própria organização.
Já a atuação europeia exige observar métodos próprios. Um relatório apresentado à Comissão de Relações Exteriores da Assembleia Nacional francesa, em janeiro de 2026, descreve inserção associativa, aproximação política, dissimulação ideológica e fragmentação organizacional como componentes da estratégia da corrente ligada à Irmandade.
O texto foi produzido para sustentar uma proposta de inclusão dessa corrente na lista europeia de organizações terroristas. É uma avaliação política institucional, com conclusões que precisam ser examinadas — e enfrentadas com evidências. A imagem do cavalo de Troia encontra aí seu sentido: utilizar os mecanismos de uma sociedade aberta para ampliar a influência de um projeto que pode restringir essa abertura.
O perigo é extremo quando a liberdade deixa de ser princípio e vira expediente. Uma organização exige proteção para falar, mas pretende negar proteção a quem discorda. Reivindica representação e tenta transformar pessoas em comunidades tuteladas. Solicita reconhecimento institucional e passa a negociar direitos individuais como se fossem propriedade de seus dirigentes.
Na questão migratória, o ponto decisivo está nessa disputa pela representação. Acolher imigrantes exige integração, aplicação da lei e proteção da autonomia de cada pessoa. Quando o Estado entrega a interlocutores religiosos o poder informal de falar por todos, abre espaço para que militantes reivindiquem autoridade sobre pessoas que jamais os escolheram.
O cidadão muçulmano que rejeita o radicalismo também precisa ser protegido dessa pretensão, mas a aliança circunstancial com setores da extrema esquerda torna o quadro ainda mais contraditório. Uma militância que reivindica emancipação deveria perguntar o que seus parceiros defendem sobre mulheres, homossexuais, dissidentes e pessoas que abandonam a religião. A resposta não pode ficar suspensa até que o inimigo comum seja derrotado.
Há uma diferença brutal entre lutar por liberdade e ajudar a construir o poder de quem a concederia apenas aos obedientes. As evidências disponíveis mostram convergências nas ruas e descrevem estratégias islamistas de influência.
O próximo teste está marcado para 20 de novembro de 2026. A greve internacional de estudantes e jovens prevê mobilizações em diversos países, acompanhadas por jornadas de ação entre os dias 20 e 22. A plataforma reúne oposição ao rearmamento, ao serviço militar obrigatório e reivindicações sociais. No Reino Unido, a Stop the War incorpora expressamente Gaza e a política israelense à convocação.
A data poderá ampliar a articulação entre movimentos. Será preciso observar quem conduz, quais palavras de ordem prevalecem e o que acontece com as reivindicações originais quando a marcha começa a disputar o próprio regime político.
Nos Estados Unidos, a mobilização pró-Palestina já ocupa as ruas, como ocorreu em Nova York no aniversário do 7 de Outubro. As eleições de meio de mandato, em 3 de novembro, poderão alterar incentivos, alianças e estratégias. A possibilidade de intensificação dos protestos é iminente e deve tomar as ruas de várias cidades americanas.
Declarar a Europa irremediavelmente perdida seria conceder uma vitória que ainda está em disputa. O risco de mudanças duradouras, porém, exige ação enquanto as instituições conservam capacidade de responder.
Uma democracia tem o dever de investigar financiamento, exigir transparência e enfrentar a intimidação. Mas também tem a obrigação de distinguir o cidadão de quem pretende governá-lo em nome da religião.
A pergunta para 20 de novembro ultrapassa o tamanho da multidão. Será preciso saber quem terá conseguido assumir sua direção — e quantos dos que marcham por liberdade perceberão a tempo o projeto daqueles que seguram o microfone.
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